sábado, 14 de setembro de 2013

CINCO A CINCO

CINCO A CINCO

Esse era o placar quando voltei do mato. O jogo estava empatado e, naquele momento, últimos segundos dos acréscimos, o time dos infringentes tinha um pênalti a favor, porquanto um novato dos incontinentes metera a mão na bola dentro da área. Infringentes e Incontinentes, pessoal, faziam o clássico no campinho do Araçá, distrito de Extremoz. Infringentes, diga-se, não por viverem infringindo, mas por serem gente de Infrin, lugarejo parede e meia com o nosso, Contine. Da mesma forma, éramos incontinentes por sermos de Contine, e não por vivermos mijando nas calças. Por exigência da Sociedade Tutora de Futebol (STF), o jogo estava se realizando em campo neutro, no Araçá.
Mal chego, François foi logo esbravejando:
“Bicho burro, Tião, o Novato. O lance era só dele, cara, aí o prisiaca acha de meter a mão na bola. Cara experiente, bicho! Sei não, viu? Pra mim... A sorte da gente é que quem vai bater é o novato do Decano. O danado, dizem,
é danado pra chutar pra fora”.
- Mas também dizem que ele bate iguazinho ao Lula: rasteiro e no canto. Aí não tem goleiro que pegue, meu.
Lula, no caso, era nosso ponta esquerda. Saiu dos Incontinentes para o Ferroviário de Natal e de lá pro Fluminense do Rio. Nunca perdeu um pênalti o canhotinha.
Já entenderam, suponho, que torcíamos pelos Incontinentes. Na verdade, eu e o François éramos titulares do time. Ele, zagueirão, por méritos; eu, meio-campista, por... Eu era o dono da bola, gente. Bola de meia, diga-se. Só que, François, contundido, não estava jogando. Eu, ressacado, morrendo de dor de barriga, também não. Talvez estejam estranhando a “bola de meia”, não? Mas era de meia, sim. Isso faz muito tempo, meus nobres.
Aliás, aquele era um jogo histórico. Marcava a despedida da querida bola de meia. Mandei até esculpir um pé de meia como troféu. Ficou lindo. De mais a mais, o vencedor levaria uma bola de couro nº 5, comprada com dinheiro ganho no cachorro, o 5 do jogo de bicho.
Os Infringentes, então, estavam na iminência de abocanhar o pé-de-meia e levar a bola. Bastava o Decano converter o pênalti. Agora tinha um detalhe. Se o azoreta chutasse pra fora ou nosso goleiro defendesse, os vencedores seríamos nós, os Incontinentes, pois o regulamento, feito por mim, ficou meio tendencioso, pra não dizer labrojeiro.
- O Negão tá apitando bem, François? Tá dando uma puxadinha pra gente?
            - Tá. Mas de quando em quando dá uns volteios pra plateia. Sabe como é, né, Tião?
            Bom, o Decano beija a bola, dá uns passinhos atrás, mira o goleiro, o Aurélio. Expectativa geral. O juiz olha ao redor, olha o relógio, olha o tempo e apita o fim de jogo:
            - Tá ficando escuro, excelências. O pênalti fica pra quarta-feira à tarde.
            “Isso pode, Arnaldo?”, brinquei com François, captando a intenção do juiz: o Negão considerava fraquinha a torcida dos Incontinentes. Achava que na quarta-feira o maior número de torcedores vaiaria o Decano, pregando-lhe pressão, primeiro passo para o peste perder o pênalti.  
            “Pode. A regra é clara. É clara, mas há controversas, Tião”.
            Certo é que na quarta-feira o Decano bateu o pênalti. Chutou nas nuvens. Vitória nossa, dos Incontinentes, portanto.
Mas os 11 Infringentes levaram a bola e o pé-de-meia. Fiz que não tinha visto. Haveria de ganhar novamente no jogo de bicho. E ganhei. Na quinta-feira joguei no 11, cavalo. Deu na cabeça, gente.

Um abraço e bom jogo,

Tião