sábado, 21 de setembro de 2013

PEGAÇÃO MENTAL NO METRÔ

Insisto. Mande-me um texto pra gente curtir, meu nobre. Até ontem, apenas o Zé Alves e a Carmen Lobbo deram o ar da graça. Hoje, recebi uma supimpa prosa da leitora Silvana Bezerra. “Um continho, Tião”, escreveu ela. Continho uma píula. Um contão, gente. Leia e diga que estou mentindo, se tiver coragem.
Obrigado, Silvana e boa leitura a todos,
Tião

PEGAÇÃO MENTAL NO METRÔ

        Olhou para as sonolentas axilas do esposo e sorriu. Não o costumeiro, o vermelhão da espontaneidade, e sim um amarelão protocolar. Havia dias estava nas nuvens da insegurança, como a provar que o toque no ombro e o “moça” daquela moça tivessem bombardeado seu clima emocional. Tentava tirar aquilo da mente, mas chover no molhado era o que acontecia.
O marido se remexeu, ela acariciou-lhes as cabeludas coxas. Quis beijá-las, refugou. Aquilo não estava acontecendo. Seu homem ao lado, desnudo, em que singela carícia na orelha soltaria as rédeas do prazer e faria os cavalos da volúpia relincharem, e ela, ali, encurralada pelo sussurrado aviso de solidária ruiva. Como não beijar o Afonso, galã global, cobiçadíssimo pela mulherada? Desaprovou-se, foi ao banheiro, visitou as recordações. As lágrimas deram-lhe as boas vindas. Depois do respiro oceânico e da fungadinha básica, a volta para a cama. Na companhia, quinze dias atrás:
Apanhara o metrô na Estação da Luz. Minutos depois,
o toque no ombro:
“Sua bolsa está aberta, moça”.
Uma oração foi o suficiente para a moça pontilhar o ponto do pecado. Apenas uma, porém as incontáveis rezas estavam sendo incapazes de afastar Marlene dos demoníacos pensamentos. Se é que devemos denominar de demoníaco os devaneios da mais deslumbrante diversão do dia a dia. Pouco importa se à duas, à dois ou em duplas.
Marlene já lera sobre o poder da entonação vocal e da força cavalar do sorriso, mas só naquele momento, aos vinte e seis anos, conseguia prová-los. Marlene balbuciou um “muito obrigada”, devolveu o sorriso, fechou a bolsa. Sentaram-se frente a frente. Marlene não tirava os olhos da simpática e protetora jovem ruiva. Não era uma simpatia passageira. Algo tremendamente veloz empurrava para a moça o olhar de Marlene. A empatia, a simplicidade das vestes – jeans e blusa solta, verdinha – e até o olhar fugidio da ruiva, como se envergonhada estivesse, compunham o libertino algo de Marlene.
Marlene assombrou-se, pois, descaradamente, estava dando em cima da garota. Logo ela, ambição dos homens, e inimiga das carícias homossexuais. Secretamente, é verdade, já que, em público, era a maior defensora da liberdade sexual. Disfarçadamente, Marlene pegou o celular e tirou uma foto da moça.
Estação Pinheiros, o metrô se abre. A jovem desce, Marlene pensa em acompanhá-la, quer se abrir. Hesita. O metrô se fecha. Fechada em si, Marlene visita o poeta: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis".
Intensidade era o entalo na garganta; inesquecível, o apaixonado olhar da moça, como a querer açoitá-la com beijos; inexplicável, a sensação do que estava sentindo. Aquilo só podia ser amor.
Marlene sacode o cabelo, afasta o passado, senta-se na cama, devagarzinho, pois não queria despertar Afonso. Ou estaria ele acordado e fingia, bom ator que era?
Tinha razão Marlene:
- O que está havendo com você, querida? Faz pouquinho tempo, você alisou minhas pernas, mas não me beijou, como sempre faz. Agora, fica uma eternidade no banheiro e deita-se sorrateiramente, como se ao lado estivesse um vazio saco de pipoca. Está rolando alguma coisa?
- Está rolando nada, Afonso. Amo você, amor.
“Sei disso, Marlene. Mas há dias você vem se mostrando insegura”, disse Afonso, aninhando nos peitos a cabeça da mulher, remexendo-lhe o cabelo, beijando-lhe os olhos, nessas alturas, molhados.
Marlene desmoronou com tamanho carinho do marido:
- Aquela moça. No metrô. Faz quinze dias. Foi surreal, Afonso.
Pode falar, amor. O que aconteceu?
Marlene contou tudo. Da bolsa aberta, passou pelas portas fechadas do metrô e chegou ao aperto luxurioso que estava experimentando. Abriu-se, por fim.
Afonso ouvia calado, impassível. Nem sequer um músculo mexia. Fechadão, enfim. Acabada a confissão:
- Quer dizer então que você ficou apaixonada pela ruivinha?
- De certa forma, sim. Não posso negar, querido. Desculpe.
Afonso assentiu e um riso começou a se rascunhar, de nervosismo, dava a entender. Daí os olhos se avermelharam, as bochechas engravidaram e pariram estrondosa gargalhada. Afonso foi apanhar algo na gaveta do criado mudo.
Apavorada, Marlene pensou em correr. No criado mudo, Afonso guardava uma pistola. Ele tinha um histórico de violência. Batia na primeira mulher, diziam. Por que me abri, Senhor? Essa gargalhada é de ciúme, tensão, ódio. O Afonso vai me matar. Minha Nossa!
Pálida, Marlene viu o esposo abrindo a gaveta. Reconfortada, notou que ele lhe apontava um pen-drive, acoplava-o na tevê e se expressava da maneira mais orgástica do mundo:
- Sabe, filha, acho que conheço a ruivinha. Veja se é esta.
 Aparece então a ruiva atrás de Marlene, abrindo-lhe a bolsa na porta do metrô.
Mas... Como pode, Afonso. Eu...
“Assista, minha filha”, divertiu-se Afonso, pondo-se às costas da esposa, enlaçando-a, beijando-lhe o pescoço.
A fita, obviamente, reproduz o testemunho da Marlene afogueada, ansiosa, inquieta. Mas que, agora, apresentava-se surpresa, desatinada, boquiaberta. E monossilábica: mas, mas, mas.
A ficha caiu, e Marlene caiu no choro, quando a filmagem mostrou Afonso no carro da Televisão, livrando-se da peruca ruiva.
- Meu Deus, amor. Você... A moça era você. Nossa! Mas por que abriu a bolsa?
Tudo é segredo ainda. Mas, na próxima novela das oito, farei uma ruiva ladra. Daí que a produção julgou por bem ensaiar meu papel. Escolhi você, porque vai que eu me atrapalhasse e a vítima abrisse o bocão? Com você estaríamos em casa, entendeu?
Rindo e chorando, Marlene jogou na cama o marido, pôs-se por cima, desvencilhou-se de inutilidades e sentenciou:
- Vou mastigá-lo todinho, seu negrão ruivo.


SB.