segunda-feira, 9 de setembro de 2013

UM QUÊ DO CHICÃO E DO CEMITÉRIO ENDINHEIRADO

UM QUÊ DO CHICÃO E DO CEMITÉRIO ENDINHEIRADO

Apresento-lhe dois trechinhos do romance QUÊ! Se quiser estrangular a curiosidade, vá aqui em cima em clique na guia e-book QUÊ!
Um abraço e boa leitura.

6 –O ESCRITOR ARTUR RONAN DORE E A REPÓRTER VERA
De mais a mais, meus romances têm o intuito de acabar com a hipocrisia de esconder o lado erótico da vida. É absurdo o falso moralismo como é tratada a convivência sexual.

Cheguei à Pousada da Luz ao meio dia e quatro minutos. Na entrada, numa areazinha recuada, acomodava-se um jovem senhor, de óculos escuros, ao lado uma bengala. O Sr. Inácio nos apresentou: a ele, como o renomado escritor Artur Dore; a mim, como o Sr. Paulinho, proprietário da hospedaria. Trocamos breves palavras. Dali a minutos o Sr. Inácio levava-me ao apartamento e me convidava para almoçar. Almoçamos na pousada. Falamos sobre literatura e fizemos recíprocos pedidos: eu o chamar de Inácio, apenas, e ele me apresentar ao investigador do caso. Despedimo-nos, pedidos satisfeitos, porquanto eu ter agradecido com um “obrigado Inácio” ao ser apresentado à delegada Selma.
Vim para o quarto, liguei o gravador do celular e, por pretender romancear o mistério, comecei a descrever os acontecimentos. Neste instante, começo a escutar o papo com o motorista Chicão. De Cristal a São Mateus foram duas horas e vinte e dois minutos de valiosíssimas informações.
Chicão é tagarela. A princípio receoso, imaginava o falatório interferindo no senso de dirigir, mas logo o notei perito no volante. Chicão deu-me ciência de praticamente todos os misteriosos fatos da sexta-feira de São Mateus. Muitos desconhecidos da imprensa, a exemplo
da fuga do dono (na hora entendi dono em vez de dona) da pousada aonde eu ia me hospedar. Chicão falava, eu impingia-lhe reticências, ele se estendia à procura do ponto final.
- O dono da pousada devia muito dinheiro, pois. Nesse caso...
- Devia nada, doutor. Quem fugiu foi a dona, a Amélia, a esposa oficial do dono, o Paulo cego. Fugiu com a Neide, a empregada dela. Foram morar juntas. Duas sapatas 44, doutor. Amélia deixou uma carta. O doutor vai ler a baixaria. Ela mandou o irmão pregar a pouca vergonha na parede da pousada.
Sabe, doutor, o Paulo cego é cego, sabe? Cegou... Essa história é longa, meu amigo. Mas, isso aqui pra nós, doutor. Mas, com a cegueira, o Paulinho trocou de lado. Dizem, né doutor? Paulinho era raparigueiro oficial, mas virou as bandas pras bandas do Nicolau. Cabra bom o finado Nicolau. Fechou a cantina e saiu mundo a fora com o amigo.
- Esse Nicolau, Seu Chicão, é o dos jornais, o...
- É o próprio, doutor... Quero lhe falar uma coisinha, Sr. Artur.  Tenho a mania de chamar certas pessoas de doutor. Mas longe de mim puxar o saco de ninguém. Detesto babão. Esse costume começou quando apanhei um funcionário vindo de Androsília. Tentei entabular conversa, mas chamava o homem pelo nome. Desconfiei do jeito sério do cara e passei a chamá-lo de doutor. Aí, doutor, o rapaz mudou da água pro vinho: tornou-se simpático, sorridente, falante. Tem muito pedante oficial neste mundo velho, doutor. Bom, de lá pra cá...
É o próprio, doutro. Mataram o Nicolau. O enterro vai ser hoje de tarde. Mataram ele, a filha e a gatinha deles. Agora, falavam, às caladas, né, doutor, mas falavam. Paulinho tinha um chamego com Nicolau, sim.
- Verdade, Seu Chicão?
- Dizem, né, doutor? O doutor sabe como é o povo. Quem vai saber se o boato é oficial?
- Boato oficial é mentira, Seu Chicão.


Segundo trecho:

...Fiquei andando à toa, observando a fisionomia chorosa do pessoal. Trinta e duas pessoas trajadas de preto, com escritos nas mãos, faziam-me vê-las colegas dos mortos. Terminado o ato piedoso, aos cinco para as cinco, saímos a pé, um carro de som a amplificar cânticos ecumênicos e poemas do grupo enlutado. A nota dissonante, mas necessária, provinha dos policiais, a escolta dos escritores. Afinal, cinco confrades haviam sido assassinados de um dia para o outro. O olhar sombrio das nuvens, o ritual religioso e o silêncio dos circunstantes tornavam a fúnebre procissão um evento para a memória.
Impressionante como as pessoas queriam ajudar no transporte do féretro. Dois caixões, 12 alças, eram escassos para as mãos solidárias. Quanto mais nos afastávamos do centro, mais e mais indivíduos se uniam à caminhada de lamento.
Avistávamos o cemitério quando o choro virou riso, apesar do disfarce de mãos na boca. A culpa? Cédulas, muitas, muitas cédulas espalhadas no trajeto. Agora de cem cruéis. O anônimo doador decidira inflacionar a doação e dobrara o donativo.
Os chorosos começaram a se embrenhar no matinho ralo, onde as notas se acumulavam, tangidas pelo vento. Por cinco vezes, dei-me o trabalho de contar, o caixão da frente quase caía em razão do abaixa-abaixa dos alceiros. Alceiros agora fixos, dada a ausência de substitutos. Mas, como se pecado fosse, ninguém falava nada acerca dos cruéis achados.
Chegamos ao cemitério, eu na alça da frente do primeiro caixão. Rápida prece, poesia final, isolados soluços, o corpo de pai e filha são enterrados. A chuva ameaçava, a escuridão chegava, a procura continuava.
Voltei ao centro no carro de som. Inácio me apresentou à turma de preto, com mesuras à Socorro, a melhor romancista do Panegírico, segundo ele. Combinamos nos encontrar no Panegírico, na terça-feira à noite, deixaram-me na pousada e foram embora.
Fui para o meu chalé. Causa-me estranheza o nome chalé. Nada a ver com o galicismo, conforme os puristas da língua. A palavra chalé lembra uma construção simples, geralmente de madeira. Mas os chalés da Da Luz são perfeitos apartamentos, cuja entrada se dá por cartões magnéticos, em vez de rústicas chaves.

Às sete e sete botei no bornal um tubinho de aguardente e me dirigi ao refeitório. Pretendia tomar umas e jantar sopa. O restaurante estava cheio. Vi o painel de avisos e lembrei-me da carta. A dona da pousada escreveu uma carta de separação e mandou o irmão pregá-la no mural, disse-me Chicão. Chicão enganara-se, porquanto no mural havia apenas...
Apenas...