terça-feira, 26 de novembro de 2013

O REVÓLVER DO SENADOR



O Bião reapareceu, gente. O azoreta adora pegar no pé de escritores. Já azucrinou o Veríssimo, o Braga, o Drummond. Hoje ele trouxe belíssima crônica do Fernando Sabino. “Sabino, Tião, distorceu os fatos. Aquela história não foi bem assim. Sabino foi ingênuo. Vou falar pra você como se deram os acontecimentos”, disse o Bião. Imagina, chamar o Sabino de ingênuo. Vejam até aonde vai a cara de pau do bicho.
Vou transcrever a crônica do Sabino e em seguida a versão do Bião, está certo?



O Senador ainda estava na cama, lendo calmamente os jornais, e eram dez horas da manhã. Súbito ouve a voz do netinho de quatro anos de idade por detrás da folha aberta, bem junto de sua cabeça:
– Vovô, eu vou te matar.
Abaixou o jornal e viu, aterrorizado, que o menino empunhava com as duas mãos o revólver apanhado na gaveta da cabeceira.  Sempre tivera a arma ali ao seu alcance, para qualquer eventualidade, carregada e com uma bala na agulha.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

BABAQUICE

BABAQUICE

Discordo de quem afirma ser imutável o comportamento humano. “Sou assim e ponto final”, diz o partidário dessa tese. Penso desta forma. Somos poderosíssimos computador, cuja programação interliga-se por estes vetores. Programação genética, programação social e autoprogramação. Na primeira (intuitiva) não podemos mexer. Na segunda (ambiente cultural, escola, amigos) mexemos parcialmente. Na autoprogramação - o nome diz tudo – temos absoluto controle. Daí, porquanto tenho o domínio de mim, posso me programar para me comportar assim e assado. E, no mais das vezes, ajo assado e assim.
Agora, leitor, no meio do caminho há uma pedra. Chama-se babaquice. Não consigo deixar de ser babaca. Esforço-me, mas, quando menos espero, a babaquice já está na rua. Não tenho respostas

terça-feira, 19 de novembro de 2013

JANTAR FRIO

Olá, gente,
O Elilson, editor do blogue Rapadura Cult, lançou o projeto Cem Palavras – Contos. Nele, o leitor é desafiado a escrever um conto com no máximo cem palavras. Legal, a ideia. Benevolente, Elilson acaba de publicar a minha colaboração. Impiedoso, imponho-lhes o sacrifício de leitura tão insípida. Vingativo, não vai ler, é?

JANTAR FRIO

Bião levantou-se e repetiu: “Tá pensando mesmo em mudar de curso, é minha filha?” Novamente calado como resposta. A colher permanecia suspensa, a sopa esfriava, o pão era da mosca. Cláudia mantinha-se logada ao aparelhinho. Bião buscou o olhar da esposa. Fracassou. Havia meia hora Carlinda falava ao celular, o leite virando gelo. Procurou o filho. Carlinhos jantava na sala. Jantava, virgula. Imitava a irmã.
Enfezado todo, o conservador Bião riu, ficou nu, subiu na cadeira, esbravejou:
“Pelo amor de Deus. Quem tá falando com você, Cláudia?”
“A doidinha de minha namorada, pai”.
Cláudia respondeu, mas não tirou a vista do aparelhinho.

Tião Carneiro

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O MUNDO DE GABILA

O MUNDO DE GABILA

Claudionor, Gabila para os amigos, amarrou Florinda num pé de arueira e foi despescar as ratoeiras do paul. Saiu pensativo, pois não tivera sorte com os seis quixós da croa: nenhum preá caíra nas esparrelas. Continuou sem sorte, o coitado. Das doze ratoeiras, somente quatro haviam disparado. Ainda bem que os goiamuns eram de tamanho razoável. Vou dar uma pescadinha, pensou.
Gabila passava perto da arueira e ficou de orelha em pé com a venta acesa de Tupã. A jumenta, Florinda, também de orelha em pé, encostava-se num barranquinho. A jumenta tinha