quarta-feira, 20 de novembro de 2013

BABAQUICE

BABAQUICE

Discordo de quem afirma ser imutável o comportamento humano. “Sou assim e ponto final”, diz o partidário dessa tese. Penso desta forma. Somos poderosíssimos computador, cuja programação interliga-se por estes vetores. Programação genética, programação social e autoprogramação. Na primeira (intuitiva) não podemos mexer. Na segunda (ambiente cultural, escola, amigos) mexemos parcialmente. Na autoprogramação - o nome diz tudo – temos absoluto controle. Daí, porquanto tenho o domínio de mim, posso me programar para me comportar assim e assado. E, no mais das vezes, ajo assado e assim.
Agora, leitor, no meio do caminho há uma pedra. Chama-se babaquice. Não consigo deixar de ser babaca. Esforço-me, mas, quando menos espero, a babaquice já está na rua. Não tenho respostas
para as ameninadas atitudes. Nem o Posto Ipiranga as tem, suponho. Vou dar um exemplo no campo da literatura. Há três anos publiquei um livro, o A Senhora 2. Vendi alguns exemplares, dei outros e botei a sobra na dispensa. Então as traças começaram a estraçalhar as mal traçadas linhas. Sabe o que fiz? Saí “perdendo” o desprezado em logradouros públicos. Autografados, pode? Perceberam o tamanho da bobajada?
Recentemente botei uma idiotice em cima da outra. Você já conhece o assunto, mas peço vênia para reprisá-lo. Terminei um livro e dei-lhe o título de QUÊ?! Quer título mais idiota? E sabe o porque do QUÊ?! Porque o bicho foi escrito sem o “que”. Quer ineditismo mais babaca? Posso garantir que não tinha em mente tal originalidade. Um personagem foi quem me deu a ideia, pois sou péssimo em criação. Minha originalidade é morta nas calças. Quando muito transforma o vulgar em banal. Façanha que muito me envaidece. Embora, sou forçado a dizer, viva camuflando a vaidade na extrema modéstia. Você não imagina como me torno vaidoso - às caladas - quando alguém me julga modesto e simples.
            Voltando ao livro, o acriançado título é café pequeno em relação à babaquice que ora lhe revelo. Veja. Mantenho em favoritos alguns sítios de literatura, pessoal que escreve bem pra burro. Amigos virtuais, digamos assim. Aqui acolá até trocamos figurinhas. Então pensei: vou dar meu livro a quatro confrades desses. Escolhi os quatros (de Natal, João Pessoa, São Paulo, Florianópolis), enviei-lhes imeios, falei da vontade de presenteá-los e pedi um endereço a fim de mandar o livro. O romance, avisei-lhes, sairia direto do Clube de Autores, onde vive internado. Isso faz dois meses. Importante: não pedi resenha, opinião ou coisa que valha. Cento e trinta paus custar-me-iam os quatros exemplares. Uma farrinha legal, não? Usei a presunçosa mesóclise porque...
            Bom, o confrade de Florianópolis ficou ressabiado com a oferta, mas me deu um endereço. O “Quê?!” acaba de chegar, respondeu depois, agradecendo-me. A dama de Natal passou-me um endereço e afirmou que leria o livro com prazer. Desconheço se o leu, ou está lendo. Só sei que foi entregue, segundo os Correios, no endereço fornecido.
As blogueiras de São Paulo e João Pessoa não me deram o endereço, ou um endereço. Até hoje procuro o motivo. Meu imeio não voltou. Elas devem ter recebido, portanto. Provável resposta delas não caiu em espam. Concluo, pois, que não me responderam. Continuam escrevendo, o que me leva a acreditar que estão vivas. Então...
A teoria mais aceitável é que elas leram as primeiras páginas do livro (O Clube de Autores mostra as quinze primeiras páginas), detestaram, chamaram-me de mané e acharam por bem me livrar da despesa. Comentava o assunto com as minhas noras, aí fui surpreendido com o ponto de vista das duas:
“Sei não. Há tanta safadeza no meio do mundo que eu também não daria o endereço, não”.
“Mas como, se eu me identifiquei por completo, inclusive com o número do celular? Temeriam o quê? Vocês...”
“Mesmo assim! Por que o senhor não tira a dúvida e manda outro imeio?”
Matutei, liguei o computador, dei um copiar/colar no imeio original, aí a autoestima estirou-me o dedão e desabafou:
Tudo de mais é muito. Babaquice tem limite, meu!

TC