terça-feira, 5 de novembro de 2013

O MUNDO DE GABILA

O MUNDO DE GABILA

Claudionor, Gabila para os amigos, amarrou Florinda num pé de arueira e foi despescar as ratoeiras do paul. Saiu pensativo, pois não tivera sorte com os seis quixós da croa: nenhum preá caíra nas esparrelas. Continuou sem sorte, o coitado. Das doze ratoeiras, somente quatro haviam disparado. Ainda bem que os goiamuns eram de tamanho razoável. Vou dar uma pescadinha, pensou.
Gabila passava perto da arueira e ficou de orelha em pé com a venta acesa de Tupã. A jumenta, Florinda, também de orelha em pé, encostava-se num barranquinho. A jumenta tinha
aquele costume, o que dava margem a maldosos comentários dos colegas de Gabila. Mas agora ela parecia mais ansiosa, excitada ao extremo. Gabila alisou a testa de Florinda, olhou pra cima e viu uma cobra prestes a entrar num ninho de passarinho. Só um caçador do nível de Gabila veria uma cobra naquele cipó. E de baladeira acertaria a cabeça da peçonhenta.
Gabila acordava cedinho, pegava Florinda e se mandava pra croa, Tupã, o vira-lata, atrás deles. Gostava de animais, de pescar e de jogar bola. Oito horas e já estava de volta, no Grupo São Miguel, onde a irmã, Cláudia, dava aula. Meio dia, saía da escola, fazia um lanche e ia ajudar o pai na carvoaria. Sua tarefa era ensacar o carvão. Duas horas da tarde, almoçava, tirava uma soneca. Às quatro horas estava batendo bola. Jogava de meia direita. Às cinco, cinco e meia, retornava ao paul e armava as ratoeiras para o dia seguinte.
Esse era o mundo de Gabila.
Gabila tinha quinze anos, de branco só os dentes. Era negro oficial. Por causa da cor, aliás, quase brigava com um galego novato no lugarejo, o Araçá. Estavam no campo, Galego acha de curtir com o negrão:
“Demoraram a tirar tu, foi, negrão? Por isso saísse tostado, foi? Ou é o carvão que faz isso?”
O negrão trincou os dentes, levantou-se e rebateu:
“Não, porra! Saí na hora. Tu foi que saísse antes do tempo. Por isso tem essa cor de paludismo”.
Não brigaram porque os mais velhos tomaram a frente. Mas ainda se agarraram.
            Bom, Gabila enterrou a cobra, botou a vara nas costas e foi pescar. Não andou dois minutos, quando ouviu o tríplice “bem”. Aguardou o “te-vi”, mas esse, assim como o completo “bem-te-vi”, não veio. Chegou à beira do rio acompanhado do “bem, bem, bem”, mas nada de avistar o bem-te-vi. Pôs a minhoca no anzol, esticou a vara e... E ele pousou. Gabila quase desmaia. Não bastasse o susto, o bem-te-vi era simplesmente especial. O bem-te-vi era branco. De amarelo só havia o cocuruto. Gabila pronunciou um “nossa!” e ficou imóvel. O bem-te-vi soltou um “bem” e voou. Gabila não pescou. Foi pra casa, matutando. Quem acreditaria nessa história? Não contaria a ninguém.
A turma já tirava sarro quando ele dizia que matara de baladeira um nambu espanta boiada e pegara um tucunaré de dez quilos, imagine agora com um bem-te-vi branco que cantava somente o “bem”. Mas Gabila não resistiu e contou. À família e aos colegas da pelada. Riram, apenas. A irmã, Cláudia, ainda perguntou se ele estava com febre.
Encontraram-se ainda quatro vezes, Gabila chamando o bem-te-vi de Gabriel. Os encontros foram escasseando, até que passaram cinco meses sem se verem. O reencontro se deu debaixo duma jaqueira. A um metro de distância do bem-te-vi, Gabila estirou a mão. Aí, como se enciumada, Florinda relinchou e Gabriel voou.
À tardinha, na pelada, aconteceu o pior. Galego deu um carrinho e quebrou a perna de Gabila. Lamentos, revoltas, xingamentos, Gabila foi pro hospital. Voltou com quinze dias, a galera o recebendo com salva de palmas.
            “Tá calor. Fique aqui na área um pouquinho, meu filho, conversando com seus amigos. Vou preparar um refresco pra vocês, meninos”. Algazarra, assinaturas no gesso, então... Queixos caídos, olhos esbugalhados, silêncio geral.
Gabila sorria, enquanto Gabriel, o imponente bem-te-vi branco pousava na perna remendada do amigo e cantava reconfortantes “bens”.
“Acreditam em mim agora, seus safados?”, disse Gabila, antes de o bem-te-vi voar.

Adoro bem-te-vi, gente.

TC