terça-feira, 26 de novembro de 2013

O REVÓLVER DO SENADOR



O Bião reapareceu, gente. O azoreta adora pegar no pé de escritores. Já azucrinou o Veríssimo, o Braga, o Drummond. Hoje ele trouxe belíssima crônica do Fernando Sabino. “Sabino, Tião, distorceu os fatos. Aquela história não foi bem assim. Sabino foi ingênuo. Vou falar pra você como se deram os acontecimentos”, disse o Bião. Imagina, chamar o Sabino de ingênuo. Vejam até aonde vai a cara de pau do bicho.
Vou transcrever a crônica do Sabino e em seguida a versão do Bião, está certo?



O Senador ainda estava na cama, lendo calmamente os jornais, e eram dez horas da manhã. Súbito ouve a voz do netinho de quatro anos de idade por detrás da folha aberta, bem junto de sua cabeça:
– Vovô, eu vou te matar.
Abaixou o jornal e viu, aterrorizado, que o menino empunhava com as duas mãos o revólver apanhado na gaveta da cabeceira.  Sempre tivera a arma ali ao seu alcance, para qualquer eventualidade, carregada e com uma bala na agulha.
Nunca essa eventualidade se dera na longa seqüência de riscos e tropeços que a política lhe proporcionara. No entanto, ali estava, agora, apanhado de surpresa, sob a mira de um revólver. O menino começou a rir de sua cara de espanto.
– Eu vou te matar – repetiu, dedinho já no gatilho.
O menor gesto precipitado e a arma dispararia.
Pensou em estender o braço e ao menos afastar o cano de sua testa, que já começava a porejar suor. Mas temeu o susto da criança, o dedo se contraindo no gatilho... Tentou falar e de seus lábios saíram apenas sons roufenhos e mal articulados.
– Não me mata não – gaguejou, afinal: – você é tão bonzinho...
– Pum! Pum! – e o demônio do menino sempre a rir, só fez dar um passo para trás; que o colocou fora de seu alcance. Agora estava perdido.
– Cuidado, tem bala... – deixou escapar, e a voz de novo lhe faltou. Toda uma vida que terminava ali, estupidamente nas mãos de uma criança – de que adiantara?  Tudo aflição de espírito e esforço vão. Se alguém entrasse no quarto de repente, a mãe, a avó do menino... Que é isso, menino! Você mata seu avô! Com o susto... Senti o pijama já empapado de suor. Era preciso fazer alguma coisa, terminar logo com aquela agonia. Estendeu mansamente o braço trêmulo:
– Me dá isso aqui...
– Mãos ao alto! – berrou o menino, ameaçador, dando passo para trás, e as mãos pequeninas se firmaram ainda mais no cabo da arma. O Senador não teve outra coisa a fazer senão obedecer.
E assim se compôs o quadro grotesco: o velho com os braços erguidos, o guri a dominá-lo com o revólver. De repente, porém, o telefone tocou.
– Atende aí ­– pediu o Senador, num sopro.
Estava salvo: o menino tomou do fone, descobrindo brinquedo novo, e abaixou o revólver. O Senador aproveitou a trégua para apoderar-se da arma. Então pôs-se a tremer, descontrolado, enquanto retirava as balas com os dedos aflitos. O menino começou a chorar:
– Me dá! Me dá!
A mulher do senador vinha entrando:
–O que foi que você fez com ele? Está com uma cara esquisita... Que aconteceu?
– Acabo de nascer de novo – explicou simplesmente.

                                                    Fernando Sabino


Versão do Bião
1 -  O senador não estava lendo jornais. Estava falando ao celular. Falava com o tesoureiro do PLUA - Partido da Liberdade, União e Amizade. Mas só entre os partidários, evidentemente.
2 – O senador estava sendo ameaçado pelo Partido. A LUA partidária estava em minguante, pois havia rumores de que o senador se apoderara de montanhosos recursos, em espécie, e que não pretendia dividi-los com o restante da galera. O infeliz desconfiava de todo mundo, inclusive da mulher, com quem vivia brigando por ter cancelado os cartões de crédito dela. Daí, meu nobre, o porquê da arma do avarento.
Isso é óbvio, Tião. Do contrário, por que pacato senador manteria um revólver engatilhado na cabeceira da cama?
3 – Outra coisa. O Sabino foi benevolente com o senador: “Senti o pijama empapado de suor”. Não era suor, Tião. Era pipi, o popular mijo. O senador estava todo mijado, cara.
4- Por fim, é certo que a senhora do senador perguntou o que tinha acontecido. Mas Sabino omitiu o desabafo da mulher:
“O que aconteceu, velho safado, pegador de menininha, ladrão do povo. O que tá fazendo com essa arma na mão? Tá com tanto remorso que quer se suicidar, é? Não respeita nem a criança, seu pão duro duma figa! Me dê isso!”
Aí, Tião, a consorte do velho voou pra cima dele e tomou o revólver. Ocorre que o senador tinha se distraído e deixado uma bala no trabuco. O trabuco disparou, a bala pegou na parede. Só que onde a bala pegou era de gesso camuflado. Havia um dispositivo lá. Então o tal dispositivo despedaçou-se, formou um buraco e a sala ficou cheia de notas de dólares e de reais.
Bom, o menino começou a brincar com o dinheiro. A mulher escancarou a boca, arregalou os olhos, porém fechou tudo. Fechou, abriu os lábios, sorriu e concordou com a sugestão do senador:
“Isso fica entre nós, não é, Santinha?”
Literalmente, não é, meu marido?”