quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A DERROTA DA FICÇÃO

A DERROTA DA FICÇÃO

             Sentei-me na preguiçosa, empurrei pra perto a mesinha de rodas, liguei o notebook, loguei-me à internet. Chane, o gatinho branco daqui de casa, acomodou-se logo embaixo da mesinha. Certamente imaginava que eu iria escrever alguma tolice.
Chane já foi chefe político, cobrador de prestações, gerente de hotel, cambiteiro e bibliotecário. Hoje, está na transição da sexta para a sétima vida, de mecânico para crítico literário. Neneta corta-lhe as unhas, dá-lhe banho, deixa-o branquinho, mas aí ele se soca debaixo do carro e vem todo oleado criticar meus textos. A comunicação do danado se dá quando leio em voz alta cada parágrafo que escrevo. Se gostar, ele esfrega o focinho em minhas pernas. Se apenas não gostar, finge que está dormindo, antevendo, por certo, o real sono dos futuros leitores. Agora se realmente detestar,
fica se coçando de reprovação e passa um tempão com as boticas de olhos fixas em mim, na presunção, suponho, de que os leitores cultivem o grau de exigência dele. É nesse estado, aliás, que o Chane tem vivido ultimamente.
Bom, não pretendia escrever. Queria somente me atualizar. Daí, dei uma viajada na Rede, escarranchei-me na outra, peguei o Jornal de Hoje. De hoje, mas de ontem, 4ª feira, 4 do 12. Li, página 10: Governo não paga e PM fica com viatura bloqueada durante perseguição no RN. Lembrei-me de meu primo Mião e soltei uma de suas expressões preferidas: “Quê?!” Pensei em escrever sobre a manchete (e vou, vejam adiante), mas outra notícia desviou-me a atenção. Esta da tevê. Dizia a bela repórter: Prefeita de Mossoró é condenada pela décima primeira vez e sofre a terceira cassação. Sapequei um “Porraé!” do Mião e fui jantar. Não gosto de jornal em cima da mesa, mas a primeira página da Tribuna do Norte, de hoje, estava lá. Não pude deixar de ler: PERMISSÃO DO CAOS. Como já conhecia a história, limitei-me a um “pois diga!” Também do Mião, diga-se.
Jantei, voltei pro computador, matutei. Veio-me à mente o conceito de ficção e transportei-me para o livro o Intutor Bião – um Homem de Palavra. Nele, revoltado com a indiferença como o poder público trata a população, o intuitor retira do ar a internet (deixa ativo apenas os sistemas vitais) e avisa aos governantes que só terão dela o completo funcionamento quando a Segurança, Saúde e Educação estiverem realmente servindo ao povo carente.
Ficção? Até onde vai a ficção?
É ficção imaginar certo dispositivo eletrônico em que o prestador de serviços, a quilômetros de distância, corte o combustível de uma viatura e a faça parar? Pra mim não é. É tecnologia a serviço do prestador, pois do contrário ele jamais receberá pelo serviço contratado, já que as vias da cobrança liberal foram todas esgotadas. Ficção barata, porque inconcebível para o leitor de ficção, é a autoridade administrativa deixar a situação chegar a esse nível. Ridículo! Narre esse fato, e o romancista será tachado de quinta categoria.
Ficção acriançada, e o romancista que escrever isto terá o livro jogado fora, é uma governante ter sido condenada dez vezes, cassada duas, e a indefinição jurídica permanecer na mente do leitor. No mínimo, o leitor chamará o escritor de descuidado, porquanto julgar pasmoso tal saída ficcional, vez que a Justiça não seria tão titubeante.
Imagine esta cena. Por causa de brigas com companheiros, e por divergências com o poder público, dez senhores jogam seus carros de lotação no meio de três movimentados cruzamentos da cidade e transformam em inferno o bem-estar de parte da população. Isso por cinco horas. Imaginou? Agora visualize a cara de amélia de todo mundo. Principalmente dos poderosos. Não apareceu ninguém. A baderna ganhou por WO. Então! Digite o disparate e verá seu texto no lixo, pois a inverdade fictícia tomará conta do leitor (queria que vocês vissem o olhar de Chane pra mim). Escritor sem futuro, dirão inclusive os menos exigentes.
Não sei até onde suportaremos essas coisas, pensei, disposto a encerrar a prosa. Uma descarga de fio de aço e um poço oceânico seriam insuficientes para tamanha me... Aí Chane me deu tremenda cabeçada, deixou-me na reticência e saiu para o jardim. Completei a reticência, escrevi mediocridade e procurei o Chane. Estava enterrando algo.

Uma palavra para meu leitor da Malásia. Tenho um leitor lá, sim. Estão pensando o quê?
O caso do bloqueio da viatura aconteceu em São Miguel do Gostoso. Cidade situada na ponta oeste do continente sul-americano, onde o vento faz a curva, a 110 quilômetros de Natal. Mossoró, a cidade da prefeita cassada, localiza-se a 280 quilômetros de Natal. E a doideira do trânsito se deu aqui mesmo, em Natal, na minha cidade.
Salvei o texto e vim aqui no Pocilga, pensando em determinados governantes, certamente em sintonia com a atividade do Chane. Antes passei no UOL. A manchete do informativo, numa tremenda ironia, escancarava:

MORRE NELSON MANDELA AOS 95 ANOS.
Pena! Muita pena!

Abraços cheios de paz,

TC