quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

PRA VOCÊ TAMBÉM

PRA VOCÊ TAMBÉM

Pretendia montar uma estatística de postagens, acessos, comentários etc. Fim de ano é bom pra essas coisas, concordam? Pois então. Sentado numa redinha branca, tinha acabado de contar os textos aqui postados quando a campainha toca insistentemente. Corri pro portão. Era meu primo Bião. O Bião e a prima/esposa, a Vião.
“Imbecis”, disseram os dois, mal me cumprimentando e entrando de casa a dentro. A bronca era por causa do riso irônico da rua. A galera se divertia com a disparidade física do par. O Bião é baixinho, baixinho, gravetos de canelas, verdadeiro caçador de pulgas. A Vião é altona, altona, maçarandubas de pernas, autêntica caçadora de tigres. O Bião usava camisão quadriculado, bermuda por acolá. A Vião trajava blusinha generosa, bermuda por aqui. A Vião é um avião, gente. O Bião nem minúsculo carrinho de brinquedo é. E ainda querem que a turma não zone com as mãos dadas deles. A cena tornava-se mais risível, porquanto, acreditem, a dupla caminhava tomando chimarrão, meio dia em ponto.
Certa vez, Bião cresceu pra cima de mim só porque perguntei como ele e a esposa namoravam, já que a Vião dava duas dele. Como vocês namoram, Bião, se tu não dá na cintura da prima Vião? Se ela dá duas de tu, então a coisa fica complicada. O homem viu sacanagem na pergunta, pegou ar e sugeriu que eu perguntasse à Vião se ele não a satisfazia. Fechei a cara e disse que ele estava misturando as coisas. Eu estava falando de namorar, o ato de olhar com ternura, acariciar, sussurrar, tocar, beijar. E que, dada a diferença de altura entre os dois, para beijar o rosto da Vião, por exemplo, ele teria que ficar trepando num tamborete. Falava disso e não de transar, como estava supondo ele.
Pode-se namorar sem transar, o que não torna verdadeira a recíproca. Ele confundia namoro com transa, assim como muita gente não distinguia sensualidade de erotismo. Sensualidade é ternura, voz, olhar, carisma, atenção, comunicação, postura, atitude. O indivíduo sensual tem isso aos montes. Erotismo é consequência desse conjunto. Não precisa ser belo ou bela para ser sensual, da mesma forma que beleza não garante sensualidade. Aí flechei-lhe o ego com esta mentira. Você, Bião, é feio pra burro, mas transpira sensualidade.
Brequei a lembrança, pois a dupla voltava da cozinha, cuia de chimarrão numa mão, copo de uísque noutra. O Bião

sábado, 27 de dezembro de 2014

O PONTO CRUCIAL

O PONTO CRUCIAL

É bela e difícil. Às vezes, ingrata. Mas como vale a pena! O matolão dos momentos sublimes é infinitamente maior que o bisaco das amarguras. E só é maior porque essa é a expectativa de enchimento. Estou a escrever (se preferir, leia escrevendo) sobre o rosário de segundos, minutos, horas, dias, meses, anos. Refiro-me ao percurso nascente/poente. Reporto-me ao axioma começo/fim. Ou simplesmente vida.
Não há contradição entre beleza e dificuldade, como dá a entender o primeiro olhar. São estágios, ciclos inerentes ao ciclo maior. No mais das vezes, a dificuldade torna mais bela as belezas da vida, assim como o risco deixa mais saborosa a vitória. Também no mais das vezes, amargura ou doçura dependerá da decisão tomada a partir da análise de singularíssimo ponto. Ponto comum nesses caminhos e obrigatório em todas as paradas da vida.
É esse ponto que me desestimula de matar a morte. Responda-me com frieza e franqueza. Vale a pena matar a morte? Pois! Este é o ponto. Ou melhor, o ponto é aquele.
É esse ponto que o enche de dúvidas na hora de tocar aquele projeto amoroso, secreto, às vezes simples fantasia, e somente admissível na esperança do prazer supremo. Vale a pena matar o bom senso?
É esse ponto que nos faz optar por este ou aquele, por isto ou aquilo, por mais ou menos.
Esse é o ponto que o fará decidir por tanto, por quanto. Portanto, porquanto lhe é tão íntimo, urge dar-lhe a merecida importância. Vale a pena matar a avaliação? Não vale. Vá por mim.

Que conviva com menos reticencias em 2015, respeite as vírgulas que certamente aparecerão, faça de tudo para atrair as boas interjeições, tenha a firmeza de pôr o ponto final no que lhe convier.
Agora, dê especial atenção ao norte da vida, à bendita interrogação. Pergunte-se, indague-se, interrogue-se. Depois use o freio. Ou o acelerador.
Esse é o ponto. O ponto de interrogação é o cara.
O ponto crucial.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A PESQUISA


A PESQUISA

A média situa-se entre dez e treze centímetros. Nesse intervalo não há tanto desconforto, exceto para as iniciantes. Mas nada que não valha a pena usá-los. Abaixo de dez centímetros, o efeito tende aliar-se à frustração, notadamente se a expectativa era observar voluptuosos olhares. Acima de treze, tem que ser muito mulher para encará-los. Usá-los, quero dizer. A depender do tamanho, machucam, sim. Por vezes fazem sangrar, deixam umas sequelinhas, mas aguentamos numa boa, pois a sensação poderosa supera tudo.
Essa é uma amostra do resultado de minha informal pesquisa sobre sapatos de saltos altos. A propósito, nenhuma das quinze amigas pesquisadas usam ou usaram saltos acima de dezesseis centímetros. Tais informações me surpreenderam. Imaginava uma média em torno de dezoito centímetros. Na minha inocência, não era incomum saltos de vinte, vinte e dois centímetros.
Ah que tonto sou eu. Comecei a coisa de trás pra frente. Deixem-me explicar. “Mulheres de salto alto exercem maior poder sobre homens”. Essa manchete está na Tribuna do Norte de 21/12/2014. A matéria, do Thomas Adamson, Associated Press, exibe a conclusão de pesquisa feita por cientistas franceses.
Li a reportagem, achei legal e cismei de aplicar um inqueritozinho similar com algumas amigas, vez que sou fascinado por sapatos de saltos altos. Fascínio angustiante. Angustiante, mas delicioso. E safado, confesso. Delicio-me com a gritante sensualidade nascida do bamboleio dos saltos, angustio-me com o iminente tombo da dona deles e censuro o instinto safado que me obriga a dela não desprego o olhar. Sobretudo se estiver de saia, vestimenta apropriada para os ditos cujos.
Estou sem tesão para escrever. Por isso não vou expor o restante de minha pesquisa. Contudo, pela disfunção estatística, duas informações do estudo francês se fazem necessárias relatar: ao deixar cair uma luva na rua, uma mulher de salto alto

sábado, 13 de dezembro de 2014

ANOTAÇÕES NOSTÁLGICAS NUM SÁBADO SEM GELA


ANOTAÇÕES NOSTÁLGICAS NUM SÁBADO SEM GELA

Mãos dadas, o homem e a mulher olhavam-se com ternura. Não diziam nada. Mas falavam. Cultivavam o estranho hábito de pensarem por ordem alfabética. Ele começava pelo “E”; ela, pelo “A”. Do A, ela conduzia o pensamento para o “S”. Do E, ele dirigia a mente para o “M”. A coincidência acontecia no “J”. Mas não era coincidência. O casal tinha apenas essas cinco letrinhas para pensar. Vivia num autêntico paraíso.
Ele foi o primeiro ente a distinguir imaginação de visualização.
Ela a primeira criatura imaginada e visualizada.
Ficaram por lá, vieram pra cá, vivem a zanzar. E nesse voluptuoso vai e vem a vida virou varejo.
Hoje, cada vez menos homem e mulher olham-se com ternura. Mas ainda se olham. E falam. Mas cada vez menos. Mas cada vez mais se... Entreolham-se e se descobrem. Cada vez mais perscrutam a árvore do conhecimento. Perscrutam e decidem.
Mas ninguém mais pensa por ordem alfabética. Pensa-se muito por ordem numérica.
É isso! É o que penso.
Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhes três.

DEZ/14
TC



segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A VENDEDORA DE PALAVRAS


A VENDEDORA DE PALAVRAS

A senhora armou o tripé, ajeitou as plaquinhas e começou a anunciar: tenho beleza, extorsão, amor, propina, sexo, traição, carinho, hipocrisia, lealdade, delação...
- Tem saúde?
“Tem mas tá faltando”, respondeu ela à velhinha, na linguagem brincalhona, peculiar aos camelôs.
- Tem segurança?
- Também não.
- Quando chega?
- Não sei, senhora. Faz um tempão que fiz o pedido de segurança, saúde e educação, fico renovando, mas os fornecedores estão me enrolando. Vai dum sexozinho?
- Vou. Me dê duas plaquinhas.
Foi só a velhinha sair para o guarda aparecer e mandar a vendedora se retirar, pois era proibido banquinhas naquele local. Conversa vai, conversa vem, o guarda aceitou uma gorjetinha e deixou a senhora e o marido em paz. O marido vendia laranja, vizinho a ela. A senhora e o esposo ficaram rindo. Dera uma nota falsa ao guarda. Até porque o guarda era um impostor, deduzira a vendedora.
- A senhora tem honestidade?
“Tenho, senhor”, respondeu a vendedora, gaguejando. O empaletozado perguntador era muito bonito, sedutor, parecia de fora, tinha pinta de executivo. Além do mais, fazia anos que ela não vendia uma honestidade.
- Tem quantas aí?
A senhora abaixou-se, abriu uma caixa velha, deixou lá uma plaquinha e espalhou o resto na banquinha.
- Tem treze, senhor. Material antigo, mas da melhor qualidade. Pra dizer a verdade, faz um tempão que eu não vendo sequer uma honestidade. Veja se lhe serve.
O empaletozado examinou uma plaquinha, coçou a barba e soltou a voz grave:
- Estão em bom estado. Vou levar todas. Embale aí. O que é que sai mais aqui, minha senhora? Imagino que seja sexo. A senhora tem gasolina?
- O que vendo mais é propina e extorsão. Vende que só água. Sexo quase não sai. Sabe, senhor, parece mentira, mas hipocrisia está vendendo mais do que sexo. Gasolina não vendo não, senhor. A gente tem um contrato com aquele posto ali, ó. Lá não vende palavra nem laranja. Em compensação, a gente não vende gasolina. Muito obrigada. Volte sempre.
O empaletozado balançou a cabeça e saiu. A mulher balançou a cabeça para o marido, mandando-o seguir o baludo cliente. Ficara desconfiada. Nunca vendera de uma vez só tantas unidades da mesma palavra. Pra que diabos aquele homem queria aquela ruma de honestidade? Meia hora depois o marido voltou.
- E aí? Quem é o bonitão? Onde ele ficou?
            - Você não vai acreditar, Nilma. O homem foi pra praia. Chegou, abriu o pacote, beijou as plaquinhas, jogou tudo no mar e danou-se a rir.
            - Minha nossa! Que ecológico. Será que ele notou alguma coisa?
            - Nada! Notou não, Nilma.
            O que o empaletozado, sedutor, bonitão, barbudo e de voz grave não havia notado era que

sábado, 6 de dezembro de 2014

A CRIAÇÃO DO BAFÚMETRO NAS DIVAGAÇÕES DUM FUMANTE

A CRIAÇÃO DO BAFÚMETRO NAS DIVAGAÇÕES DUM FUMANTE

Não sou certinho. E, acreditem, nunca quis sê-lo. Correios, feiquecebuque, zapzap e afins passam longe de minha rotina. E só bato parabéns para criança. Sou da roça, do contra e de doze. Por essas e outras, passaram a me tachar de antissocial. Mas não sou. Antissociais são desnutridos de aventuras. Não se alimentam de prazeres. Desde que criei penas que jogo, bebo, fumo, danço e sou perdido por mulher. Mesmo sem o copiar/colar – que detesto -, sou igualzinho ao Moisés Sesiom, porreta personagem da poetíssima cidade de Açu.
Jogar, beber, fumar, dançar constitui minha ração diária. E comer, que ninguém é de ferro. Se interajo com tais verbos, como posso, então, ser antissocial? Apenas detesto pressões para nadar em certas marés. Minha lagoa é discordar e improvisar. Já no madureza, fórmulas e concordâncias não me seduzia (estão vendo a rebeldia?).  
Tem mais uma coisinha. Desconfio dos todos certinhos. Tem muitos errinhos embaixo desses todos. De quando em quando vemos algum toldo se desparafusar e a camuflada sonsice aparecer toda faceira, a espantar o caritó. A sonsice mora debaixo dos panos, adora pessoas certinhas. Mas não há censura nisso. Cada um age como quer e ponto final. Retrair-se ou exibir-se é o que dá consistência a axiomática inconsistência humana. Inconsistência que dá consistência à afirmação de que os indivíduos não mudam. Eles simplesmente nunca foram como imaginávamos, ainda que jamais tenhamos a prova disso. Mudamos os atos externos, é certo, mas somente o próprio indivíduo pode afirmar se a mudança decorreu de conveniências ou proveio da natureza inconstante. Como sei disso? Ora, ora! Sou um indivíduo.
O homem apagou os pensamentos, acendeu um cigarro, deu duas baforadas e tornou a ligar para o Bião, amigo e advogado dele. Dissera ao Bião que

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O PIPOQUEIRO


O PIPOQUEIRO

Doido pra descolar, o pipoqueiro escorou-se no carrinho e ficou a observar o vai e vem das pessoas. Observava e pensava: ninguém mais compra pipoca. Crianças não gostam mais de pipoca. Deixaram até mesmo de brincar. A tal da internet virou o mundo de cabeça pra baixo. Aí o pipoqueiro botou umas pipoquinhas na boca e ficou remoendo. Remoía o que o filho lera na internet e lhe contara: escândalos, escândalos, escândalos.
Parou de pensar em escândalos. Queria pensar no que ninguém nunca pensou. Então parou de remoer. Parou porque ficou de boca aberta. Boca aberta por causa da mulher que dele se aproximava puxando um menino. Jamais o pipoqueiro vira mulher tão linda. Continuou de boca aberta quando o menino apontou pro carrinho e perguntou à mulher o que era aquilo. O pipoqueiro deu-lhe um saquinho de pipoca. A mulher olhou pro pipoqueiro e sorriu. Não era sorriso. Era uma trava no queixo do pipoqueiro. O pipoqueiro não podia fechar a boca. De boca aberta não podia falar. Mas os olhos podiam. O olhar da mulher também falava. Era paixão em estado líquido. Líquido porque pingava... Pingava o quê? Ou era ódio em estado sólido? Sólido porque parecia... Parecia o quê?
A mulher sorriu e se alvoroçou. Alvoroçou-se, prendeu o cabelo e partiu pra cima do pipoqueiro.
O pipoqueiro começou a pensar no que nunca havia pensado. Pipocaria?
Pensava em escândalos.
Dezembro/14

TC

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O LAVA JUMENTO E A MINA DO MELANCIA


O LAVA JUMENTO E A MINA DO MELANCIA

No meu tempo de menino sambudo o pau comia. Hoje a rapaziada não tá nem aí. São autênticos bundões. No Araçá, quando um moleque botava apelido no colega, logo aparecia um terceiro e fazia dois riscos no chão: “A mãe de fulano e a mãe de sicrano”, apresentava o infeliz beltrano. Um pirralho apagava a mãe do outro com os pés e pegue porrada. Hoje apelido tá fora de moda. Indignação também. Tanto coisa digna de indignação neste país, mas os bundões ficam chupando o dedo e dando rabanadas.
Vi muita troca de bofetes. Dois colegas eram famosos. Dudu de Bijane, o melancia, e Chico da Serra, o eucalipto.  
Chamavam Dudu de Melancia porque, por dentro, o cara torcia pelo América (camisola vermelha), mas, por fora, torcia pelo Alecrim (camisa verde).
Chico tinha o DNA de empreendedor. O sonho dele era fazer óleo de eucalipto, árvore comum na região. Daí veio o apelido de Eucalipto.
Agora eu adorava quando as meninas me chamavam de Tigrão. Por óbvias razões, já devem ter entendido vocês.
A gente tinha entre treze e quinze anos. Só brigávamos para não levar o desaforo pra casa. Mas no dia seguinte estávamos jogando bola juntos e tomando banho no rio do governo.
Como estava dizendo, Eucalipto estava determinado a extrair óleo de eucalipto. Até que um dia ele convidou a mim e ao Melancia para colocarmos a ideia em movimento. Ficamos, eu e o Melancia, encarregados de elaborar o projeto. Eu por ter fama de intelectual, Melancia por ter uma queda para assuntos químicos. Eucalipto captaria os recursos. Com um mês o projeto estava pronto. Pelo projeto original, em dois anos tiraríamos o investimento. Original porque o Melancia baixou o prazo para um ano, já que a partir dali seria misturado no produto o óleo do araçá, frutinha também comum nos nossos tabuleiros. Só faltava o dinheiro para adquirir os equipamentos. Principalmente as prensas. Pensamos em alugar prensas de casas de farinha, mas os donos riram na cara da gente.
Eucalipto teve um encontro com um prospector de negócios, o cara interessou-se, disse que levaria o assunto a uma estatal do ramo, mas exigiu uma grana a fim de que as assinaturas de certos diretores ficassem mais legíveis. Eucalipto ofereceu 10% dos lucros, mas o abre portas não concordou. “Vai que a coisa dá pra trás”, disse, na maior cara de pau.
Ficamos nesse impasse, até que...
Até que as cinco horas da manhã duma segunda-feira, o Melancia e o Eucalipto me acordavam para uma reunião. Fomos para o lava jumento, na croa, onde ficava o escritório da gente. Lava jumento, mas lá também lavava bicicleta, fazia-se uma fezinha no jogo do bicho, apostava-se em futebol, jogava-se sinuca, tomava-se umas e outras e via-se de pertinho a mulherada batendo roupa. O lava jumento era do pai de Eucalipto, Seu João da Serra. Família empreendedora, aquela.
            “Temos a grana”, disse o Melancia. Aí ele detalhou. O bisavô aparecera em sonho e lhe dera uma mina. A mina, um cachote de dinheiro, estava enterrada no pé do décimo terceiro eucalipto, ao norte, contado a partir do lava jumento. Melancia deveria arrancá-la aos treze minutos da próxima sexta-feira. E assim se deu. Não se deu, aliás. Deu mas não se deu.
            Melancia arrancou o caixote, mas dentro só havia molambo. Quer dizer, foi o que ele nos falou. Eucalipto ainda desconfiou, achando que Melancia não quis trocar o certo pelo duvidoso. Discordei. Esse negócio de mina é segredo. Dá furo se a história vazar. Como Melancia havia nos contado, a grana foi por água a baixo. Certo é que nosso projeto de ficar rico acabava ali. Fui vender jogo do bicho, Eucalipto foi pra Marinha, Melancia foi vender banana nas feiras.
            Por que estou relatando este episódio? Vou justificar.
            Sabe o Lava Jato, o Petrolão, o escândalo da Petrobras? Pois!
            Como sabem, a polícia Federal prendeu um bocado de gente. Aí, li no UOL, sexta-feira, 21/11,

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O REI DA COCADA PRETA


O REI DA COCADA PRETA

É comum aos bons cronistas fazer da falta de assunto o assunto dum texto. Comportam-se assim na esperança de que o puxa-puxa de palavras termine por lhes dar um assunto. Às vezes a coisa dá certo. Mas se não der não haverá problemas, já que ele é especialista no assunto texto sem assunto. Por óbvio, não sei usar tal expediente. Aqui, por exemplo, eu poderia enrolar linguiças e comentar sobre questões gramaticais do primeiro período. Estaria apropriada a concordância? Seria cabível trocar o verbo fazer por outro mais adequado? E valer-se do “de um” em vez do “dum”? Mesmo que fosse bom de linguiça não usaria tal expediente, pois seria o mesmo que fazer da falta de assunto o assunto do texto.
A vantagem do mau cronista é não lhe faltar assunto. No anseio de aprender, o mau cronista não se preocupa com a substância da prosa, escreve a respeito de tudo e respeita tudo o que lhe ensina o bom cronista. Foi com os bons cronistas que aprendi:
Aprendi a fugir de sentenças longas, intercaladas com asneiras, cheias de vírgulas, ainda que necessárias para o entendimento, e mesmo que se apresentem melódicas.
Aprendi a correr de tolos, enfeitados, presunçosos, espetaculares e harmoniosos adjetivos.
Aprendi a me livrar de viciosos pleonasmos. Subo em cima deles e os encarro de frente.
Aprendi a ficar refém da voz ativa e a não ser contaminado pela voz passiva.
Aprendi a descrever certas cenas, a exemplo da do sujeito que não briga com as circunstâncias.
Mas não aprendi a escrever sentenças curtas. Sou prolixo.
Mas sou incapaz de adjetivar uma mulher. Menos para rotulá-la de linda.
Mas sinto dificuldade de enfatizar uma expressão. Coisa minha. Própria de mim mesmo.
Mas sofro para dizer que agradeço aos meus pouquíssimos leitores.
Mas me engasgo com as cachimbadas na direção dos circunstanciais empecilhos e me machuco com as cambalhotas dadas para as censuras humanas.
A desvantagem do mau cronista

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O FLIN DAS COISAS

O FLIN DAS COISAS

Pra mim a coisa funciona assim, mas nem sempre com essa tina de rima: o pau-mandado do cérebro obedece à mente, que obedece a gente. Somos o dono do pedaço. Do contrário, a coisa desbandaria e sairíamos mundo a fora fazendo tudo o que a mente quisesse. Mente e cérebro vivem nos testando, doidinhos por emoções. Não estão nem aí para as consequências.
Então essa coisa de que nasci assim, sou assim, assado e não posso mudar é papo furado. No mais das vezes contrariamos coisas concebidas pela mente, damos uma banana pro cérebro e mudamos de atitude. Mas coisas há com que a gente se emburra e não mudamos nem a pau. Coisa, por exemplo. Tinha uma raiva da bexiga dessa palavra. Hoje acho um encanto de expressão. Coisar e coisando são altamente gostosas e semânticas. Quer ver uma coisa? Andou coisanho de ontem pra hoje? Não coisa mais não, é? Deixe de mentira. Quero ver o culto ou a culta que não coise sequer uma vez no dia. Pense numa palavrinha metida! A gente a pronuncia no automático. Ela é amigada com a língua. Vai e vem, vira e mexe e falamos sem querer.
Mas existem umas coisinhas de que não gosto e que embirro em me mudar. Ou seria “em não me mudar”?
Shopping serve de ilustração. Implico com ele. Não com o prédio em si, é evidente, mas com o jeitão de certos visitantes. Não circulam lascados por ali, tampouco endividados, tal a imponência dos gestos. A maioria anda reto, a cara por acolá, a simpatia também. Teve um tempo que isso me divertia. Hoje me condói. O hoje é exagero. Faz cinco anos que não vou a um.
Já de aeroporto eu gosto. Há ali muita soberba e importância, mas, no íntimo, dá pra intuir um quezinho de submissão. Houve um tempo que isso me condoía. Hoje me diverte. O hoje não é tão exagerado assim. De quando em quando vou deixar ou apanhar alguém lá.
Gosto igualmente de barzinhos. Gosto, não, adoro. Adoro, entendam, observar a galera. Neles não baixam lascados, endividados, nem coisas do gênero. Pode até baixarem, concordo, mas com meia hora tá todo mundo rico, andando maneiro, atencioso, a cara por aqui, a simpatia também.
A exemplo de shopping, há outro trocinho de que tenho aversão: celular. Ando com um forçado pelas circunstâncias. Uso um nóquia, modelo não sei das quantas. Tão borocoxô que até a peliculazinha que cobre os algarismos já está caindo. Já caíram o 4 e o 5, e o 1 e o 3 estão cai não cai. Não passam quatro anos, creio. Mas, por segurança, vou comprar um moderninho. Vai que sou assaltado! Quando o cara vir o peste vai me cobrir de porradas. E com razão.
Agora deixe-me falar dum tema do qual me eximia de arbitrar. Refiro-me a feiras literárias. Feira, festa, festival, tanto faz. Pois bem, de seis a oito deste onze de quatorze foi realizado o Festival Literário de Natal (Flin). Passei lá. Pela primeira vez compareci a um evento desses. Achei legal, devo voltar. Dizem que há muito oba-oba nas palestras, mas a elas não assisti. Não convém opinar.
Mas opino e dou nota dez acerca deste papo. Sucedeu de eu me encostar num quiosque e pedir um suco de laranja. Duas senhoras saboreavam uma salada e conversavam:
- Estás a ver a minha situação...

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

CONSIDERAÇÕES ELEITORAIS DE UM ABESTADO


CONSIDERAÇÕES ELEITORAIS DE UM ABESTADO

O pão deu três reais. O menino deu uma nota de dez. A moça deu-lhe dezessete de troco. O guri deu-lhe sorridente muito obrigado e deu meia volta pra casa. Voltou dando risadas, lembrando-se da lição que a mãe lhe dera minutos atrás. Perguntara a ela por que não podia votar:
- Porque você só tem doze anos. Faltam quatro. A lei não permite votar com menos de dezesseis, entendeu?
- Por que não mudam a lei?
- Ah, filho, tanta pergunta! Os meninos de sua idade não sabem o que são valores, ética, moral, honestidade.  Não têm discernimento. Não sabem votar, entendeu?
            - Como assim, mãe! Então faço tudo no computador, tenho facebook, whatsapp e mesmo assim não tenho discernimento? Não saber digitar dois números num teclado é imoral, mãe.
            - Não tô falando disso não, meu filho. Estou dizendo que você e os coleguinhas não sabem distinguir o certo do errado. Tome esse dinheiro. Vá comprar o pão. Vá e volte voando que ainda vou votar, viu? De que tá rindo?
            De sua ruma de “v”, mãe. A professora disse que o nome disso é colisão ou aliteração.
            “Pronto, mãe. Voltei voando. Sabe, mãe, a moça me deu o troco errado. Deu dezessete reais em vez de sete.
            - Foi? Mas aqui só tem os sete. Cadê o resto?
            - Devolvi.
            - Como assim, devolveu? Ô menino besta!
            O moleque fez cara de choro. Mas ficou rindo por dentro.
                       
&&&&&&&

            Lembrava-me dessa historinha enquanto preparava a operação apuração de votos. Fiquei matutando. Sou matuto, gente. E a operação é coisa de matuto mesmo. Vejam. Pego notebook, carregador de bateria,

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O JOGO

O JOGO

Mas mesmo assim vou explicar. Mas você precisa estar atento para entender. Mas, por favor, não me veja o repreendendo no período anterior. Mas, bom, não sou lá essas coisas em explicação, mas, se você for lá essas coisas em compreensão, a tendência é a gente se entender. Mas no começo, confesso, o assunto é difícil de entender. Mas tende a piorar na continuação. Mas o assunto não é essa ruma de “mas” iniciando sentenças, esse jogo besta de palavras.
Viu como o mas é terrível? Brocha qualquer cristão. Ou cristã, por óbvio. Não o mas isolado, mas o repetitivo, o tal e qual. Entendeu?
O jogo não é besta. Envolve grana, popularidade, intriga, poder. E bola, evidentemente. Não é jogo de palavras, mas é um jogo falado.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

COISAS DE MALUCO

COISAS DE MALUCO

Sou cultivador de palavras. Não na acepção de escrevê-las e sim na de curti-las. Curtir não exclusivamente por gostar delas. Algumas são curtidas por despertarem em mim a sensação de bani-las do dicionário.
Coisa de maluco, não?
Coerência é uma delas. Já viram palavra mais gilete? Quando o sujeito conserva particular opinião está sendo coerente, verdadeiro. Mas quando muda de opinião é sinal de mente aberta, evolução. E, no mais das vezes, a inversão se dá só pela conveniência. Agora, apavorante mesmo é a esquisita multifacetada. Pense numa palavrinha cheia de nhenhenhém.
Algumas palavras são supimpas. Interesse, circunstância, risco. Essas são doze em reflexão. Mas profunda e linda ao extremo é PERPLEXO. Pronuncie e veja o sabor. Os beiços se unem, depois se abrem, em seguida fazem um biquinho. Uma delícia. Aliás, palavras com esse tipo de xis são sobretudo agregativas. Nexo, anexo, plexo mostram essa união.
E sexo?

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A PROSA DOS NOVE

A PROSA DOS NOVE

Faz quinze dias que não entra sujeira aqui. Pensei em postar alguma coisa acerca do horário eleitoral, mas acabei dando preferência a outro escrito. Vejam como as palavras são traíras. Escrevi “não entra sujeira aqui” querendo ser engraçado com o Pocilga. Depois disse que tinha pensado no horário eleitoral, mas que dera preferência a outro escrito. Não ficou parecendo que tachei de sujo o horário eleitoral? Ficou, sim. Longe de mim tal intenção. Julgo importante e limpo aquele momento, podem acreditar. Às vezes ele se mostra limpo de bom senso, mas não há de se exigir perfeição em tudo.
Ah, o outro escrito. Que também não é sujeira, diga-se.
Ou é?
Sujeira pode até não ser, mas idiotice certamente o é. Seguinte. O Pocilga tem 135 postagens. Então cismei de transformar em livro

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

CRÔNICOS ASSALTOS E O ASSALTO DA CRÔNICA

CRÔNICOS ASSALTOS E O ASSALTO DA CRÔNICA

O rapaz com jeitão de mau postou-se perto de Cristina e botou a mão direita no bolso. Instintivamente, Cristina apertou a bolsa nos peitos e começou a rezar a fim de que o ônibus chegasse logo ou que chegassem outros passageiros.  Já fora assaltada três vezes. Vivia com os nervos derrubados, andava com o celular na calcinha, botava só uns trocadinhos na bolsa. Com o rabo do olho, Cristina viu o cabo de um revólver na cintura do fechadão. Tratou de se afastar. Não deu tempo. O coletivo estava chegando.
Subiram, o mal-encarado primeiro. O carrancudo mostrou uma carteirinha ao motorista e acomodou-se numa bancada do meio. Policial, pensou a nervosa Cristina, sentindo-se aliviada e sentando-se ao lado do aprazível protetor.  Os passageiros da frente respiraram aliviados e soltaram um imperceptível “ufa!” Afinal, todos ali já haviam passado pelos famosos e corriqueiros arrastões. Um casal daqueles - a mulher tensa, o homem sombrio - despertava milhões de suspeitas.
Eles só não imaginavam é que dali a instantes seriam assaltados.
Relaxada, Cristina tirou um papel da bolsa e começou a ler um texto que xerocara do livro Intuitor Bião – um Homem de Palavra:


RABUDA BEM-ESTAR – PROSA PARA ADULTO

Dr. Arimã Abadom senta-se e dá sonoro bom-dia. Está em majestoso conjunto arquitetônico no centro de Cristal, capital do Rio Pequeno do Norte, nordeste de Andiroba, país parede e meia com o Brasil. Dr. Arimã tem trinta anos, é bonito, simpático quando lhe convém, cruel por natureza. Esperto tal qual o capeta, é dono da Rabuda Bem-estar S/A. Tão esperto que, com vinte e cinco anos, aproveita crônico equívoco dos governantes andirobenses e funda a Rabuda. Começa na área de Educação, segundo ele, a pedra angular (o doutor adora essa expressão) da sociedade. Da Educação para a Segurança é um pulo e desta para a Saúde é um salto de pulga.
A Rabuda Bem-estar tributa 18% da renda dos andirobenses. 10% a título

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

A DESPEDIDA DO ZÉ

Olá, gente,
Vocês já devem ter percebido que sou meio juju nesse negócio de blogue. Por exemplo, não consigo pôr figuras nas postagens. Outro. Os parágrafos. Aqui acolá os bichos aparecem desalinhados, mesmo alinhados na passagem do word para o blogue. O Pocilga, aliás, foi criado na marra. O Google dizia faça isso, faça aquilo, faça assim, faça assado. Então eu fiz tal qual ele orientou. Mas ainda me atrapalho num bocado de coisas. De uns tempos pra cá, o danado deu para excluir postagens. Acho que teclo em algum botão e o insensível manda certas postagens caírem no buraco negro. Agora mesmo dei por falta duma postagem de outubro de 2013. Vou republicá-la.
Um abraço e boa leitura,
Tião


A DESPEDIDA DO ZÉ

Fiquei bege, como costuma falar uma amiga.
Atônita, vi meu marido fechar a cara e comprimir os punhos. Insensível aos gestos, Zé Feinho parecia de gelo. Carlão quis se levantar. Puxei-o pelo cós das calças. Não seríamos protagonistas de barraco num restaurante chique daqueles.
“Como é que é, Zé Feinho?”, a voz do Carlão soou espremida, o trincar de dentes como aliado:
“Não. Só uma coisa me salva, Carlão. Comer essa aí, a sua mulher, a Lurdinha”, repetiu o imoral, a pouca vergonha como parceira.
De dedo estirado, fui me levantando. Carlão me fez sentar e aconchegou-me pertinho dele. Era a sua vez de impedir o barraco.
Eu e o Carlão temos a mesma idade. Vinte e oito anos, três de casados. Zé Feinho tem quarenta e seis, todos de solteirice. Somos de São Mateus, cidadezinha do interior. Marcão e eu somos professores. Zé Feinho trabalha de serviços gerais no colégio onde dou aula, emprego arrumado por mim. Zé Feinho é mais do que conterrâneo e amigo.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O PRAZER SUPREMO E AS SENHAS DO HOMEM

Olá, gente,
Postei um texto ontem, cujo título era a SENHA. A postagem ficou truncada. Comeu um bocado de texto. Estou republicando a estrambelhada com novo título. Fiquem à vontade para fazer dela o que quiserem. Mas se for ler, tenha paciência. A bicha é grandona, tem quatro páginas. E desaconselhável para algumas pessoas.
Obrigado e boa leitura. Ou boa não leitura.
Tião Carneiro


O PRAZER SUPREMO E AS SENHAS DO HOMEM

            Escrever é uma danação. Um vício de descabeçado. Vivo falando nisso há tempos. O sujeito começa rabiscando e quando menos espera está viciado. Tirem a prova dos nove: são 9 e 9. Acabei de jantar. Passeei no jornal, fiquei enjoado. Andei pela televisão, enjoado fiquei. Viajei num livro, aí é que fiquei mesmo. Entediei-me legal. E em apenas 39 minutos.
              Entediado todo, ligo-me a uma redinha, ligo o computador, ligo-me na literatura.
             O jeito é escrever algo. Mas que algo?

quarta-feira, 16 de julho de 2014

SABE DE NADA, INOCENTE!

SABE DE NADA, INOCENTE!

Pela primeira vez, Linda pensou na gravidade da situação. Coçou os ruivos, remexeu-se na cama, foi ao banheiro. Estaria ficando louca? Seria possível estar consciente da própria loucura?
Linda riu.
Não. Não estou pirando. Simplesmente estão tomando um arzinho fresco os meus mais escondidos pensamentos. Será isso mesmo? Será que todo o mundo vive sujeito a inconfessáveis aparições mentais? Vou colher a opinião de algumas amigas, pensou Linda, ao mesmo tempo em que abandonava a ideia, posto ter tido consciência da definição do termo inconfessável. Com certeza as castiças dirão que não sabem. Não sei e o parente esqueci são eficientes porta-vozes do cinismo. Nenhuma delas saberá de nada. São todas inocentes. Inocentes!
Linda tornou a rir.
Linda levantou-se do vaso, olhou pra cima,

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A FUGA

A FUGA

Não. Mas não, mesmo. Decidi. Não vou escrever hoje. Tampouco amanhã, nem depois, nem depois, nem, nem. Só não digo mais nunca porque estou me lembrando do amigo Jânio. Dizia ele, quando eu falava o mais antes do nunca: “Tião, nunca mais diga mais nunca”.
A origem dessa decisão é que estou tonto desde a tardinha de terça-feira, oito deste sete. Não adianta torturar a mente. A tontura me apagou, bloqueou tudo. Menos a desconcentração. Tenho a consciência de que é preciso falar, escrever, desabafar. Há muita coisa a ser dita. Só dizendo,

segunda-feira, 7 de julho de 2014

EM PRIMEIRA MÃO:

Só respirei Copa nos últimos dias. Daí o Pocilga estar desatualizado. Mas nem por isso deixou de ser acessado. Ganhei até um leitor(a) de Luxemburgo, a quem agradeço. Assim como agradeço a toda galera além-mar que tem me lido. Em especial aos alemães, holandeses e argentinos, semifinalistas que somos nesta Copa/14. Por que não mandam um imeio para tcarneirosilva@gmail.com? Passe um imeio e dê seu palpite, leitor.
Bom jogo pra vocês. Leiam agora esta prosinha sem futuro.


EM PRIMEIRA MÃO:
(OS JOGOS FINAIS DA COPA TERÃO DOZE ATLETAS EM CADA SELEÇÃO)

Tenho me divertido bastante nesta Copa. Não só pelo futebol, pelo qual sou apaixonado, médio volante que era do Araçá Futebol Clube. E era bom. Bom? Bom, talvez. Talvez razoável, digamos assim. Razoável? Razoável, não. Ah, sei lá. Sei que nunca fiquei fora duma partida e o jogo só começava quando eu chegava. Com a bola, é evidente.
Tenho me divertido bastante nesta Copa, dizia eu. Sobretudo, reforço, com os ajuizamentos dos torcedores. Sempre me diverti com as análises a respeito de resultados futebolísticos. Comentários de barzinhos e de redes sociais, então! Adoro ler internautas. Comentaristas de televisão também. Os últimos, vê-los e ouvi-los, é claro. Tem cada uma que dá dez. Nossa! Como esse pessoal muda rápido de opinião. E como são passionais. Nada contra a paixão futebolística. Futebol - assim como outras balizas e bolas - é realmente apaixonante. Mas

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Vai ter Copo, sim


Vai ter Copo, sim

Em 50 eu não usava copo. Tinha dois meses. Bebia nas fontes de minha mãe. Dessa prática sugatória originou-se o rascunho de meu Bigode.
Em 54 meu copo era uma canequinha.  Bebia leite de cabra, a minha Pinga preferida.
Em 58 não bebia mais o leite de cabra. Mas, às vezes, tal qual Pelé, furava o bloqueio de mãe e emborcava uma canequinha do bicho.
Em 62 só bebia mesmo água. Água trazida por mim da cacimba de Seu Luís Quixaba, no Araçá-Extremoz. Feito Garrincha, driblava a magreza e equilibrava o galão d’água nas costas.
Em 66, já em Natal, bebia apenas grapette. A moda era beber no canudinho, mas eu preferia copo. Minto, não bebia apenas grapette. Bebia também suco de Manga. Num copo, é claro. Data daqui a minha primeira namorada.
Em 70 bebia suco de laranja. A laranja daquela época era muito boa. Todo o Tostão que eu pegava transforma em suco. Bebia em taças. Nesse tempo, em cada “assustado” eu arrumava uma paquera.
Em 74 as laranjas passaram a ser produzias de forma mecanizadas. Abandonei o suco e comecei a xavecar um pirata de nome montila. A garrafa do peste tinha um rótulo azul. Bem Marinho, lembro-me bem. Eu tomava o montila em copões cheios de gelo e limão. Bebia acompanhado. E bem.
Em 78 perdi uma aposta e raspei o bigode. Perdi também uma namorada e tomei um porre daqueles. Não caí em depressão graças a um amigo, treinador de mentes, chamado Coutinho.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

PROPOSTA INDECENTE


PROPOSTA INDECENTE

Assisti à entrevista do presidenciável Eduardo Campos, segunda-feira, pela Roda Viva, TV Cultura. Vi tudo da cama. Três aspectos chamaram-me a atenção. O apreço que o candidato nutre pelo ex-presidente Lula, a vontade de ter certas figuras como oposição ao Governo dele, a exemplo de Sarney e Calheiros, e a intenção de extinguir metade dos ministérios. Esses tópicos ficaram-me na memória.
Fui tomar banho matutando. Ah, as conveniências...
Retornei e dei uma circuladinha pela sky. Procurava um filme novo. A sensação era de que o da TV Cultura eu já assistira várias vezes, embora com atores diferentes. E não gostara de nenhuma das versões.
Saí apertando o controle. Parei no canal 43. Estava passando um filme de exorcismo, cujo título me foge no momento. Sei que nunca assistira a ele. Sei ainda que a personagem Maria Rossi havia matado três religiosos, e a filha dela procurava a todo custo entender aquilo, descobrir a verdade da mãe. Deixava o futuro em segundo plano. Abandonei a fita por causa da violência. Mas a tenacidade da jovem ficou na memória.
Fui tomar água matutando. Ah, as circunstâncias...
Volto e torno a aperrear o controle. Estaciono no canal 70 e dou de cara com nada mais nada menos que a Demi Moore. O canal passava Proposta Indecente, produção de 1993. A Demi, então com 30 anos, no auge, contracena com Robert Redford. No auge da forma artística, diga-se, a fim de evitar tendenciosas especulações. Diga-se, também, que Proposta Indecente já assisti a umas quinhentas vezes. Tornei-me tão íntimo da Demi que me sinto à vontade para pôr o artigo antes do nome dela. Reporto-me a ela como a Demi sem a menor cerimônia.
Sintonizo o 70 e dali a minutos John Gage (Redford) oferece um milhão de dólares a David (Harrelson) para que este permita que sua mulher, Diana (Demi), passe uma noitada com ele, John Gage. Nesse ponto congelo a cena e vou ao banheiro. Vou com a pouca vergonha na memória.
Fui derramar água matutando. Ah, o sexo...
Retornei, mas, pensativo, deixei a cena parada, John prestes a dar uma encaçapada. John e David estavam jogando sinuca, lembram-se? Certo é que o casal aceitou a proposta, sabem vocês.  Mas John foi tão sacana que quis saber da Diana de quem tinha sido a decisão. Grandessíssimo fdp.
Bom, não assisti mais ao filme. Espreguicei-me e levantei-me da cama para dar uma olhadela nas portas, pois um alarmezinho mental aconselhava-me tal vistoria.
Fui matutando. Ah, a comunicação...
Quão poderosa é a nossa mente. Veio-me então à memória a mente de Eduardo Campos querendo injetar na nossa a ideia de melhor candidato. Só fiquei em dúvida se a mente injetora era substantivo ou verbo. Em dúvida, mas... Mas dei uma checadinha na porta da sala.
Olhei a porta da cozinha, vi o sangueiro na cozinha de Maria Rossi e comecei a pensar no que a mente dela havia pensado naquela hora. Pensei, antevi as agitações mentais da filha e concluí: mentes adjetivadas. De ódio e de amor, por certo.
Terminada a ronda, voltei para a cama. O que teria passado pela mente de John, Diana e David? Posse, indecisão, ciúme? Certamente que sim.  E tudo com os mais fidedignos dos advérbios. Em especial os terminados em mente. Já estava cochilando quando me lembrei de coincidente detalhe. Os olhos, gente. Eduardo cunha, Demi Moore e Maria Rossi têm olhos verdes (ou são azuis?). Mas o olhar é diferente. O de Eduardo é errante, o da Demi é encanto, o de Maria é espanto.
Adormeci com a televisão na cabeça. Quer dizer, conveniências, circunstâncias e sexo, evidentemente. Despertei com a ideia de jogar essas três coisinhas numa panela de barro, botar num fogo de lenha, mexer, coar, pôr a substância numas cumbunquinhas de cabaço e sair mundo a fora gritando: “Comunicação da melhor qualidade. Quem vai querer? Cem cruéis a cabaça. Sabendo usar nada lhe faltará”. Acho que logo, logo arrumarei um milhão de dólares. O que você acha?
Estava rindo dessa doidice quando recebi uma mensagem pelo zapzap. Diga de quem era? Aposto que está pensando na Demi Moore. No Eduardo Campos? Vou digitar um “leia mais” a fim de matar sua curiosidade. O leia mais só vai ter o tal nome, ok? Proponho que tecle e leia.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

A COPA DO MUNDO DOS MEUS DEDINHOS



A COPA DO MUNDO DOS MEUS DEDINHOS

Existem pessoas que conversam com os botões, outras consultam o travesseiro, algumas confabulam com os dedos. Pertenço ao bando dos dedos. Pouca gente sabe, mas botei até nome nos cinco assistentes. Bião e Mião, por exemplo, conhecidíssimos de Adauto e Janice, são os paus-mandados que agora estão tocando as teclas do notebook. Cerão, Becão e Chatão completam a confraria. De nascença, Cerão chama-se Mindinho; Becão, Seu Vizinho; Bião, Maior de Todos; Mião, Fura Bolo; Chatão, Cata Piolho. Na maternidade do povão, diga-se, já que o batismo anatômico lhes deu registros diferentes.
Pois bem, estávamos de saída para uma oficina literária. Dado o ambiente da oficina, pedi-lhes que se trajassem convenientemente. Todos apostos, esperávamos o Mindinho. Nisso, Mindinho aparece socado num macacão sujo de óleo. Fato é que o Mindinho é meio mouco, daí não ter mentalizado a locução correta quando lhe falei “oficina literária”.
Meus auxiliares são cheios de cacoetes, digamos assim. A mania do Mindinho, o Cerão, é coçar o ouvido. Já Seu Vizinho, o Becão, é formal ao extremo. Vive de beca e tem o costume de usar discreta argola a fim de exibir seus compromissos com alguém. Maior de Todos, o Bião, é o safado da turma. Cultiva a insanidade de se estirar, num gesto obsceno, segundo sensíveis pessoas. Além de inquieto. O bicho não para, gente. Adora mexer, coçar. Diverte-se gozando com a cara dos outros. Fura Bolo, o Mião, passa o tempo estudando Direito. Vive apontando os deslizes dos colegas. Cata piolho, o Chatão, tem uma preguiça que nossa! O vocabulário dele resume-se a ok e não ok. Deram-lhe o apelido de Chatão por causa da cabeça chata.
Afinal, saímos para a oficina. A palestrante deu várias dicas de construção literária, sobretudo da organização escritural, mas se omitiu acerca do principal: o pontapé de tudo, o início da criação, o pensar da história. Por isso o Bião perguntou: “A senhora pode dar uma dica de como criar uma prosa, bolar a ideia, aguçar a imaginação? Por exemplo, quero escrever um texto erótico. Posso até pensar na senhora, mas aí...”
A plateia caiu na risada. A escritora sorriu amarelo, ensaiou uma resposta, mas não disse nada com nada. Aplaudi a intervenção do Bião. Principalmente a indagação de como enraivecer a imaginação. Aprender a mentir, ter uma ideia e dela desenvolver algo ficcionalmente aceitável é o meu sonho. Por isso estava ali. Mas cadê? Minha imaginação é um zero à esquerda, vive dormindo, tranquila, nada a enraivece. A réplica da moça nem de longe a aborreceu.
Bom, para não aborrecê-los mais, direi agora como terminou a oficina. Sucedeu que a professora aproveitou o clima de Copa do Mundo no Brasil e pediu que cada aluno escrevesse um microconto a respeito do evento. Microconto, sabem vocês, é dizer muito com poucas palavras. É a vitória das entrelinhas. Representa precioso exercício para o intelecto do leitor, visto ser dele a responsabilidade pelo preenchimento das lacunas contextuais. “Copa do Mundo, gente. No máximo quarenta caracteres. Os senhores terão meia hora, ok?”
Escrevemos, sim. O primeiro a ser lido foi o do Cerão, o Mindinho. Mouquinho da silva, o danado trocou Copa por cópula e escreveu:
“Cópula no Brasil? Sei não, mas...”
O formal Becão, Seu Vizinho, saiu-se com esta:
“Tudo bem. E outros compromissos?”
O depravado Bião, o Maior de Todos, nada escreveu. Preferiu desenhar. Fez uma caricatura em que se encontra em posição de sentido, mas apoiado nos irmãos Seu Vizinho e Fura Bolo. Sensacional o gesto do desavergonhado.
O certinho Mião, o Fura Bolo, redigiu:
“Há muitos furos nos meus apontamentos”.
O monossilábico Chatão, o Cata Piolho, passou dos limites e escreveu:
“Meu ok para os incontáveis não ok”.
E eu? Sai-me assim:

quinta-feira, 15 de maio de 2014

CRUÉIS DESAMOLADAS NO MACHADO DE ASSIS


CRUÉIS DESAMOLADAS NO MACHADO DE ASSIS


Não sei se o nobre leitor está acompanhando a controvérsia envolvendo a escritora Patrícia Secco e o meio intelectual brasileiro acerca de O ALIENISTA, festejada obra de Machado de Assis, publicada em 1882. A escritora acha a linguagem do conto complicada e quer simplifica-la, ao tornar as frases mais diretas e substituir palavras. Sagacidade, por exemplo, vira esperteza. Supõe a escritora que a ação editorial fará o leitor iniciante se interessar pela leitura. Com incentivos do MEC, a primeira tiragem, de trezentos mil exemplares, está prevista para junho deste ano.
Ocorre que parte da população acadêmica é contra a iniciativa, principalmente, alega, por descaracterizar a obra do grande Machado. Está rolando na internet, li agora, um movimento pedindo ao MEC que impeça a publicação. Já conta com mais de seis mil votos. Certo é que está montada a polêmica.
Matutava sobre o quiproquó, então lembrei-me do primo Bião, especialista em Machado. Queria a opinião dele. Bião, inclusive, obrigou-me a postar sacana texto sobre uma crônica de Machado. O texto mexe em “A CARTEIRA DE MACHADO DE ASSIS” e foi postado aqui em 13/11/11. Não ponho o link porque o bicho não quer vir.
Bom, liguei para o Bião. Bião, envelopezinho na mão, chegou, entrou de casa a dentro, serviu-se de largona dose de uísque, aboletou-se numa cadeira e bafejou logo o sou contra. Não me deixou falar e continuou:
“Sou contra, primo. Machado demorava um tempão

quinta-feira, 8 de maio de 2014

DESCULPE, MÃE




DESCULPE, MÃE

Imaginei que daria certo. Por que não daria? Por que a gestação não redundaria em sucesso? Mas sempre há risco. Risco que precisaria ser enfrentado, pois não costumo me amedrontar com nada. Enfrentaria possíveis ameaças em busca do fruto perfeito. Não temia que alguém achasse a minha concepção troncha e feiosa. O que danado parece feio quando confrontado com a altiva beleza? Nessas horas, feioso mesmo é o julgamento de feio. Não existe motivo, porém, para condenar o parecer do contra. A crítica jamais deverá ficar no presídio da mente.
Encontrava-me na cama, o sítio ideal para a criação,

sexta-feira, 2 de maio de 2014

CONVITE PARA O BACANAL DA SALTITANTE BRAZUCA



Olá, nobríssimos,
Tenho o costume de bolar uma brincadeira com os jogos da Copa do Mundo. Invento um Bolão e me divirto com os colegas de trabalho. Acabei de criar uma brincadeirinha e pensei em convidá-los para a festa. Peço-lhes licença a fim de fugir dos textinhos sem futuro e apresentar as regras do divertimento. A princípio, a coisa parece meio confusa, mas só parece. No fim, verão que o negócio é tão fácil quanto tirar confeito de criança. Faço um convite especial para a galera do exterior. Espero a participação de vocês. Nosso Bolão será internacional, gente.
Acho que o Brasil fará a final contra a Alemanha. Mas pode ser contra a Espanha, E. Unidos, França, Rússia, Argentina, Portugal...
Ah, o que ora lhes apresento é o regulamento da brincadeira. A planilha de apostas, em equicel, o blogue não configura.  Vira uma tremenda salada. Então, se quiser participar do Bacanal passe um imeio para tcarneirosilva@gmail.com que mando a tal planilha.
É isso! Leia o convite.

CONVITE PARA O BACANAL DA SALTITANTE BRAZUCA

Olá, seu danado e sinha danada. Estão receptivos para uma aventurazinha? Ou a fidelidade ao conservadorismo não lhes permite uma putuladinha pro riso? Será?
            Se for, deem-me (eita) um desconto, aceitem minhas desculpas e abandonem a leitura desta indecente cantada. Mas se a secular e sadia gozação é de vocês amiga, continuem lendo o convite deste vivente vidrado em viver a vida.  Isso posto (fala, Blidenor), passo-lhes a arregaçar a programação dos trinta dias de sacanagem, denominada Copa do Mundo (a FIFA é sacana, sim!). Começarei dando, digo, fornecendo, o Regulamento da Safadeza, aqui chamada BACANAL DA BRAZUCA. Falo assim para descontrair, pois neste BOLÃO não há tramenha, não, meus.  Daqui a pouco

quinta-feira, 24 de abril de 2014

A LINDA MÉDICA DO CHELSEA NO FEIOSO JOGO DE PALAVRAS



A LINDA MÉDICA DO CHELSEA NO FEIOSO JOGO DE PALAVRAS

Via de regra, a leitura da primeira frase oferece ao leitor estas opções: ou se sente enfastiado e larga as palavrinhas ou se mostra encantado e abraça as letrinhas. Tenho escutado bastante esse exagerado contraponto. De especialistas, diga-se. Como ilustrativa de tédio, os doutos apresentam a frase iniciada por chavão, tipo o via de regra. Aí os literatos dão uma penca de dicas de como escapar da oração fastienta e cativar o leitor na primeira silabada. Não dou bolas para tais conselhos. Mas já dei - por pouquinho tempo -, mas dei, confesso. Desisti quando notei que quanto mais lia sobre o tema escrever, mais rebelde e burro me tornava.
Escreva textos curtos, notadamente as crônicas. Se contos, não fuja do assunto. Em ambos, saia cortando adjetivos e advérbios. Não escreva a mesma coisa,

segunda-feira, 14 de abril de 2014

CANCÃO DE FOGO E PEDRO MALASARTES NA DECISÃO CARIOCA



CANCÃO DE FOGO E PEDRO MALASARTES NA DECISÃO CARIOCA

Nasci no Araçá, distrito de Extremoz, cidadezinha que vive se grudando com Natal. Fiquei por lá até completar o estágio de menino buchudo. Jogava bola e estudava. Jogava de meia esquerda, no Fumão. Não jogava bem, hei de confessar. O time do Fumão era horrível. A zaga, Nossa Senhora! A bem da verdade, time algum daquela região prestava, embora os apaixonados vivessem a enaltecê-los. A torcida do Mengão, então! Mengão e Cascão foi o último jogo a que assisti. Esse embate (embate é bom) ficou na história. Sucedeu que...
Bem, antes de narrar o fato histórico, vou esganar a curiosidade dos senhores a respeito do nome dos times. Fumão, Mengão e Cascão, contavam os mais velhos,