quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

BIZARRO PRAZER

 BIZARRO PRAZER

Você conhece Phaseolus Vulgaris? Não? Nem tem ideia de quem ou do que seja? Então veja três dicas.
1. Vulgaris é uma criatura vaginal, da espécie trepadeira, de dois gêneros, cuja seção transversal da vagem, ou bagem, pode ser circular ou elíptica.
2. É um ser enrustido, de certa forma, porquanto precisa de atividades mecânicas, dedógrafas, por assim dizer, a fim de aparecer e de mostrar-se palatável.
3. Acomoda-se em estojo, envoltório, bainha. Ou vagina, em termos etimológicos, segundo - as três definições - o Dr. Gugo e o Dr. Houais.
E aí? Nada? Pois estamos falando do nada vulgar e delicioso feijão verde. Phaseolus Vulgaris é o nome oficial do ramoso trepador, que se esconde em vagens e que pede dedos para ser debulhado.
Sou estudioso – e comedor – de feijão verde. Vitamina K, C, A, fósforo, magnésio, cobre, ferro, tudo isso tem nele. A iguaria transforma anemia em sucata. Traço-o de qualquer jeito. Até puro, na água e sal, amassando-o, fazendo bolo com as mãos. Uma delícia!
Feijão verde, aliás,
é uma das poucas coisas a que me atrevo a fazer na cozinha. Sou ruim de fogão, confesso. Mal estrelo um ovo. Feijão verde é moleza. Basta ferver a água e jogar o prazeroso dentro. Mas o que gosto mesmo é de catar o feijão. Aqui em casa essa tarefa é minha. Adoro separar os caroços furados, murchos, amarelados. Esses vão pro lixo. Só vão pro fogo os sadios, o que, convenhamos, é uma senhora contradição. Incoerência, sim, pois enquanto os incorruptíveis vão ser castigados com o fogo da gula, os incautos grãos ficam tão somente aprisionados no saco do lixo.
Vivi tal contradição agora há pouco, ao catar o feijão verde do almoço, o cheiro de peixe cozido começando a coçar-me o olfato. O trabalho de hoje não foi muito bom não, já que o feijão era novinho. Praticamente não havia escolha. Adoro quando há muito caroço madurão, podre, furado. Hoje, havia, sim, caroços maduros, mas Tânia ficava no meu pé: “Deixe os caroços maduros, deixe os maduros”. Essa recomendação é constante e necessária. Se fosse por mim, botava todos os maduros fora, o que termina sendo outra aberração, haja vista o simplesmente maduro não implicar dissabor. A depender do verdinho, principalmente o da vagem fininha, há maduros que dão de dez a zero neles. Agora o madurão, mesmo, esse ponho de lado sem remorso.
Há poucos meses, fazendo um parêntesis, peguei um feijão massa. Só tinha caroço ruim. Babei, gente! A ruma da esquerda pau a pau com... Vou explicar a reticência. Faço assim. Vou botando num lado os caroços bons, noutro, é claro, os ruins. Por vezes, os bons ficam a minha esquerda, por vezes, à direita. A localização é aleatória. Então, naquele dia, as duas rumas estavam pau a pau. No pau, mas se o critério fosse mais cuidadoso dava para misturar tudo sem problema, visto os caroços aparentemente sadios já mostrarem sinais de podridão. Mas dava para engolir. Tinha que dar, do contrário iríamos almoçar o quê?
Bom, acabei de catar o feijão, dei uma sacudida na vasilha e tirei alguns caroços que haviam escapado da triagem. É recomendável a segunda olhadela, pois há caroços espertos, verdadeiros artistas, que se fazem de santos e se esquivam da gente.
Aliás, meu nobre, quero aproveitar o momento para convidá-lo a dar uma mãozinha na cozinha e fazer a próxima escolha do feijão verde. Espero apenas que não receba a visita dos grilos que há anos me atormentam.
O grilo aparece desta forma. Termino a seleção feijoeira, contemplo as duas porções, fico exultante com o contraste e me comprazo ao botar no lixo os caroços imprestáveis, como se tudo não passasse de desastrada metáfora. Não preciso ficar tão alegre, penso. Até porque não estou aqui para julgar ninguém. Menos ainda a um ser tão especial, a exemplo do deleitoso Phaseolus Vulgaris. Meus defeitos gastronômicos desautorizam tamanha ousadia. Esse pensamento me conforta e o grilo desaparece.
Estava confabulando com os grilos, Tânia gritou da cozinha:
- Já catou o feijão? A água começou a ferver.
Respondi-lhe com o sim, e ela veio pegar o feijão. Pegou, deu uma olhadinha na turma da esquerda e sorriu, aprovando o trabalho, imaginei, pois era de pequena monta os caroços maduros. Maduros oficias, diga-se.
Fiquei matutando. Daqui a vinte minutos já vai ter caldo. Vou escrever umas lorotas sobre o amigo Phaseolus enquanto tomo uma com o caldinho do amigo Vulgaris.
De uma em uma, já tô na terceira. Mas alternando o caldo. Ora o do Vulgaris, ora a da Lutjanus. Que? Lutjanus é cioba, cara. Caldo de cioba no coco, ó!
É servido?

Janeiro/14
TC