segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

DE FALO E FALÁCIAS (Proibido para falsos moralistas)

DE FALO E FALÁCIAS
(Proibido para falsos moralistas)

             O leitor atento, característica dos visitantes deste blogue (eta, porra), passa a vista num texto e logo identifica o autor. Se dele for habitual, é evidente. E não apenas pelos torneios vocálicos, pois alguns assuntos são cadeiras cativas no jogo literário de certos autores. Um dos meus tópicos favoritos é sexo. Adoro o danado. Principalmente quando a ele está associado o falso moralismo. Mas odeio o falso moralismo, não tenham dúvida.
            O falso moralismo é o cão, gente. A propósito, lembro-me de um texto do François Silvestre, outro fã do falso moralismo. De condená-lo, entendam-me. François apanha um táxi - em Recife, salvo engano - e sai papeando com o motorista. O assunto? A falsidade de alguns políticos (ou seriam muitos?). Chegam ao destino, o revoltado, honesto e ético taxista olha o taxímetro, pega a planilha de conversão da despesa e o caráter empurra-lhe os olhos para uma tarifa superior. Acho que o François ainda tá rindo da situação.
Pois bem. Estávamos, eu e o Bião, tomando umas no MPbar.
Ah, outro a propósito. Dois, aliás. Primeiro. Nas minhas prosas sempre existem bares. Gosto deles. Ou no que neles são servidos, entendam-me de novo. Segundo. Bião, meu primo, é o maior filósofo de botequim que conheço. O bicho é fera. Em perfeita coerência com a feiura, diga-se. Bião estava me mostrando vários impressos colhidos na internet.
“Olha este texto aqui, cara. A ruma de desnecessários seu, sua, meu, minha. Veja quantas trocas de esses, essas por estes, estas e vice-versa. Tá vendo este parágrafo? 35 palavras. Só “que” existem 12, meu nobre.
“São textos informais, Bião. Deixe isso pra lá, meu”, argumentei, olhando uma galega que atravessava a rua.
“Informais uma porra! Falta de mochila literária, isso sim. Que que é isso. Esta é das minhas”, disse o contraditório Bião, seguindo o rebolado da jovem, caindo na risada. Riu, pegou o gancho da canchuda moça e filosofou, no vozeirão de seu metro e quarenta de magreza:
- Não sei quem foi mais esperto. Se a Eva ou o Adão. Quem teve mais faro, meu? O que tu achas?
- Sei lá, Bião. Como assim, faro?
- Veja, meu nobre. Não foi essa duplinha quem primeiro fez amor, deu a primeira transada? Quem desencadeou tudo? O faro do Bião no ferro de engomar da Eva ou o faro da Eva no ferrão do Adão? Sabia, meu caro, que o falo amado pelas mulheres é derivado do instinto chamado faro?
As mesas vizinhas caíram na gargalhada. Os clientes, é claro. Exceto um casal, a mulher aparentando uns cinco meses de bucho, o homem umas cinco toneladas de músculos. O cara não só não riu, como também expeliu:
- O senhor é muito vulgar. Ninguém aqui está querendo ouvir suas tiradas pornográficas, não, imbecil. O senhor devia dobrar a língua. Minha esposa...
Prestou não. O baixinho do Bião interrompeu o santo, pôs o diabo nas costas e correu nas tamancas:
- Imbecil é o senhor. Fazer amor, transar, foder, trepar são termos representativos da mais antiga e prazerosa atividade humana. Da mesma forma que o ferro de engomar e o ferrão aos quais me referi são, a exemplo, de vagina, pênis, xibiu, cacete, os instrumentos necessários para tal fim. Não há razão para esconder tais palavras ou pronunciá-las cochichando. Isso não evita nada. Taí sua mulher que não me deixa mentir. Quer dizer que ela ficou gestante assim, sem mais nem menos. Não houve tocantes instrumentos na história. Ela só ficou buchuda, doutor, porque alguém, tenho minhas dúvidas se o senhor.... Pelo visto, seu falo só fala da boca pra fora e de língua dobrada.
Prestou não. O brutamontes brecou o endiabrado Bião, pôs a falsidade nas costas, subiu nos cascos. E partiu pra cima do Bião.
Bião não contou conversa e pernas pra que te quero.
Corri também, não nego. Mas tão somente em solidariedade a meu primo. Que fique bem claro.

Janeiro.14

TC