terça-feira, 21 de janeiro de 2014

LADRÃO DE SANTO

LADRÃO DE SANTO

            Zequinha teve a ideia na hora. Esperto todo, maquinou, sorriu e agiu: botou dois reais na sacolinha da coleta. Zequinha é brincalhão. E mente que é uma beleza. Também é cheio de safadeza. Até assaltar já assaltou. Mas só três vezes, costuma repetir quando está tomando umas com a galera. Conta assim, sem a menor reserva:
- Estava escurecendo quando saí da obra, seiscentos e trinta reais no bolso, a quinzena de servente de pedreiro. Então o cara emparelhou comigo, empurrou um treco nas minhas costas e levou a grana. E ainda me chamou de vagabundo.
Chorei e decidi recuperar a mufufa. Voltei pra obra, peguei um pedacinho de cano e caminhei pra parada dos ônibus. No mesmo lugar onde fui assaltado ia uma mulher. Enfiei o cano nas costelas dela, anunciei o assalto e tirei uma bolsinha pequena que estava entre as regadas dos seios dela. Dei um choro e vi uma nota de cem. Chamei ela de vagabunda e mandei ir embora. Quis só a bolsinha. Parece mentira, mas tinha lá exatos seiscentos e trinta reais. Esse foi o primeiro assalto. Depois de muito tempo assaltei mais duas vezes. Assaltar é moleza. O povo morre de medo e a polícia não tá nem aí. Só deixei de assaltar porque percebi que estava me acostumando.
Zequinha deixou de assaltar, mas se der bobeira ele apronta uma safadezinha. Então,
com três latinhas de pinga na cachola e oito cervejas no quengo, o chumbadão vangloriava-se da última façanha. Dizia aos colegas, na calçada de um barzinho:
- Visto esta camisa vermelha, pego uma bandeirinha e saio zanzando na procissão. Gente saindo pelo ladrão, políticos também, xeleléus apertando a mão deles. Fico de mutuca, escorado num poste, planejando tomar uma depois da procissão. Mas tinha apenas quatro reais na carteira. Duas notas de dois. Nisso aparece uma moça da coleta, a sacolinha rindo pra multidão. A moça esbarra noutro fiel, no momento em que uma senhorinha botava cem reais na sacola. Cem reais! Caramba! Só pode ser promessa, pensei.
Pensei, maquinei, sorri, fui atrás da moça da coleta e botei dois reais na sacolinha, uma nota novinha, dessas parecidas com as de cem. Viva São Sebastião, falei pra distrair a moça. Falei, botei a nota e saí seguindo elas. A moça e a nota. Estava pronto o primeiro ponto do plano.
- Como assim, pronto?
- Escute, homem!
Bom, dali a cinco minutos eu me apresento à moça e invento uma verdade. Disse que tinha na carteira uma nota de dois reais e uma de cem. Há pouquinho tempo eu havia botado uma oferta na sacolinha dela, mas em vez da nota de dois reais eu tinha colocado a de cem, pois as danadas eram bastante parecidas. Era o dinheiro de comprar um remédio para minha filha e comer durante a semana, moça. Dá pra senhora fazer a troca? Falei assim, quase chorando, amigos.
- E aí ela trocou na hora, não foi, seu cabrinha sem futuro?
- Sem futuro, mas tá bebendo a troca, né, meu? Trocou não, cara. Disse que oferta era oferta, que era pecado se arrepender, que eu seria castigado e coisa e tal. Então eu disse que ia falar com o padre, que São Sebastião não queria meu sofrimento e coisa e tal também. Resumindo, ela sugeriu que quando terminasse a missa eu fosse à tesouraria da igreja e procurasse um certo Luís, o responsável pelo caixa da coleta. Ela ia falar com ele e dar ciência do ocorrido. Se o senhor não me encontrar, meu nome é Solange e minha sacola é a 16.
E assim fiz. Luís me cubou todinho, despejou a sacola 16 e apareceu a dinheirama. No meio a nota de cem, doida por minha carteira. Só fiquei cabreiro quando ele comentou que a nota de dois reais era muito pichototinha para confundir com a de cem. Mas isso acontece, principalmente pela cor, disse, me entregando o dinheiro. Na conversa, até esqueci de dar os dois reais, acreditam?
Zequinha enxugava as lágrimas do riso, levantou a vista e deu de cara com a moça da coleta, a Solange, que passava na calçada. Olharam-se. Ele fez cara de paisagem, ela, de ironia. Solange desconfiou de tamanha alegria, nada podia provar, porém soltou sonoro “Te desconjuro, infeliz”.
Solange não deu dez passos e escutou o furdunço. O barzinho estava sofrendo um arrastão.
Levaram tudo dos clientes da calçada.

Janeiro/14

TC