sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O TEMPO – E ALGUNS APONTAMENTOS – DO DRUMMOND (II)

O TEMPO – E ALGUNS APONTAMENTOS – DO DRUMMOND (II)

          Na última postagem de 2013, referi-me ao Tempo, do Drummond (veja post do dia 29, abaixo), e relatei certo arranco-rabo que tive com o amigo José. A desavença ocorreu pelo fato de o José ter tachado de merda os meus textos. Segundo ele, por excesso de toxinas, tipo cacófatos, e por carência de tônicos, a exemplo de metáforas, minhas prosas lhe chegavam às narinas com fetidez muito forte.
Fui embora e deixei implícito que voltaria com algo mais cheiroso em 2014. Escreveria o texto e falaria assim:
E agora, José?
Tentei, gente, mas nada de aprazível me ocorria. É difícil mostrar-se perfumado quando o entranhado estilo fica viciado no banho estragado da literatura. Tentava, tentava e nada. Queria escrever, pagar a promessa, mas não podia. Olhei pra cima, fechei os olhos, aí, aí... Aí aconteceu. Apareceu o Drummond. De carne e osso, pessoal. Mais osso do que carne, é lógico. Certamente me confundindo com o Alípio, Drummond apontou-me o dedo e foi logo dizendo:
– Seja mais tolerante com o cabotinismo de seu amigo; quase sempre esconde uma deficiência, e só impressiona a outros cabotinos. (1)

– Procure ser justo com os outros; se for muito difícil, bondoso; na pior eventualidade, omisso.
– Procure não mentir, a não ser nos casos indicados pela polidez ou pela misericórdia. É arte que exige grande refinamento, e você
será apanhado daqui a dez anos se ficar famoso; e se não ficar não terá valido a pena.
            Mas Seu Drummond, seus conselhos vão...
“Não me interrompa”, disse ele, limpando o piche que um imbecil lhe jogou na cara em Copacabana.
– Ao escrever, não pense que vai arrombar as portas do mistério do mundo. Não arrombará nada. Os melhores escritores conseguem apenas reforçá-lo, e não exija de si tamanha proeza.
– Não fique baboso se o amigo lhe disser que seu novo texto é melhor do que o anterior. Quer dizer que o anterior não era bom, o que todo o mundo já sabia.  Mas se ele disser que seu novo texto é pior do que o anterior, pode ser que fale a verdade.
– Não cumprimente com humildade o escritor glorioso, nem o escritor obscuro com soberba. Às vezes nenhum deles vale nada, e na dúvida o melhor é ser atencioso para com o próximo, ainda que se trate de um escritor.
            Mas homem de Deus, eu...
– Procure fazer com que seu talento não melindre o de seus companheiros. Todos têm direito a presunção de genialidade exclusiva.

– Evite disputar prêmios literários. O pior que pode acontecer é você ganhá-los, conferidos por juízes que o seu senso crítico jamais premiaria.
– Aplique-se a não sofrer com o êxito de seu companheiro, admitindo embora que ele sofra com o de você. Por egoísmo poupe-se qualquer espécie de sofrimento.
            Mas homem, eu só quero escrever um texto legal pro meu amigo. Mudar meu estilo. O senhor pode me ajudar? O senhor só me deu lição de comportamento, Seu Drummond.
            Estilo, sô! Você não tem estilo, tampouco escreve. Você apenas redige. Seu estilo chama-se maneira de redigir. Mas não vou desanimá-lo. Treine, treine muito. Leia muito e esqueça o mais que puder. Mas quando julgar que atingiu o ponto de escrever, lembre-se disto:
– Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar.

Foi Drummond dizer isso pra luz apagar, ele sumir e deixar-me sem discurso. Sozinho no escuro, qual bicho-do-mato, sem teogonia e sem parede alguma para me encostar.
E agora, José, qual será o meu destino literário? E o seu, José, leitor desgraçado? Vamos para onde, José?
José, para onde?
Janeiro de 2014,
TC

(1) - Crônica a um jovem - Carlos Drummond de Andrade. Ed. Rio de Janeiro. Editora do autor, 1962.