sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O FILME

O FILME

            O cineasta queria fazer um filme sobre Andiroba, continental país sul-americano. O filme mostraria o cotidiano andirobense e seria rodado na praieira Cristal, nordestina cidade do país. Queria, mas parou no orçamento. Por baixo, dois milhões de reais. Como levantar tamanha mufufa, se potenciais patrocinadores balançavam o dedinho do não? Consultou o travesseiro, confabulou com os botões, pediu conselho ao pijama. Nada. Deram-lhe a indiferença como resposta. Cochilou. Aí o babão do lençol deu-lhe porreta dica de produção.
Produção cuja despesa seria mínima, pois faria sozinho a filmagem. De mais a mais, não precisaria remunerar atores. Simas, o cineasta, logo pôs o babado conselho em ação: esboçou um roteiro, muniu-se de camuflada filmadora, pegou um ônibus e caiu em campo. Dali a quinze minutos: ordens violentas, arrastão, passageiros em pânico, um tiro no motorista, dois assaltantes – pivetes – em disparada.
Tudo filmadinho da silva.
Simas subiu num táxi e seguiu a ambulância

sábado, 15 de fevereiro de 2014

O PROGRESSO VERDE DA DESORDEM AMARELA

O PROGRESSO VERDE DA DESORDEM AMARELA

          Criei esta gamela para acomodar os meus vinagretes mentais. Funciona assim. Agarro uma ideia, passo a dessecá-la, despejo o picadinho literário no cocho e me ponho a imaginar o leitor rindo do desastrado esforço de agradá-lo. Na minha cabeça, o hipotético leitor me visita depois da janta e está simplesmente esperando a hora do futebol na TV. Também pode ser uma leitora que fica cozinhando a visão para a leitura de um livro. Certo é que sempre imagino o abençoado ou a divina a procura duma atividade que os distanciem das contrariedades do dia a dia. Raramente consigo criar sorrisos, mas isso são outros quinhentos.
Hoje vou quebrar o modelo da amenidade. Vejam. No fim do ano passado, alguns torcedores do América de Natal mataram um torcedor do ABC, clube também daqui. Um crime entre vários. Vários que incluem abcedistas matando americanos. Agora acabo de ler no Jornal de Hoje esta declaração da competente delegada Alzira Veiga. Dizia ela, a respeito daquele crime: “Eles matam por instinto. Matam por matar. Não existe um motivo específico”.
Matam por matar. Minha nossa! Sei disso, delegada,

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

VIM DE ONDE NUNCA FUI

VIM DE ONDE NUNCA FUI

Não fui porque não quis, é certo. Convite e transporte não me faltaram. Nem me faltam. Basta estalar o dedo. Mesmo assim não quero ir. Será que existem amor e prazer por lá? Mas haverei de ir. É o meu destino.
Será que nunca fui mesmo? Pensando bem, se vim é porque fui, não é verdade? O intelecto pode muito bem ter saído para um rolezinho e ter se esquecido de registrar a minha escapulida. Mas talvez nem intelecto eu tivesse quando fui. Nem quando vim. Certo é que hoje eu o tenho e ele armazena tudo. Mas resta misterioso vazio entre o fui e o vim.
Não tive mais ânimo para filosofar. Apenas para imaginá-la. Ela acabava de entrar no restaurante. Vestia seda vermelha, coladinha ao corpo. Caminhava faceira, descolada de pudores. Olhava sedutora, impregnada de paixão. E olhava exclusivamente pra mim!