sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O FILME

O FILME

            O cineasta queria fazer um filme sobre Andiroba, continental país sul-americano. O filme mostraria o cotidiano andirobense e seria rodado na praieira Cristal, nordestina cidade do país. Queria, mas parou no orçamento. Por baixo, dois milhões de reais. Como levantar tamanha mufufa, se potenciais patrocinadores balançavam o dedinho do não? Consultou o travesseiro, confabulou com os botões, pediu conselho ao pijama. Nada. Deram-lhe a indiferença como resposta. Cochilou. Aí o babão do lençol deu-lhe porreta dica de produção.
Produção cuja despesa seria mínima, pois faria sozinho a filmagem. De mais a mais, não precisaria remunerar atores. Simas, o cineasta, logo pôs o babado conselho em ação: esboçou um roteiro, muniu-se de camuflada filmadora, pegou um ônibus e caiu em campo. Dali a quinze minutos: ordens violentas, arrastão, passageiros em pânico, um tiro no motorista, dois assaltantes – pivetes – em disparada.
Tudo filmadinho da silva.
Simas subiu num táxi e seguiu a ambulância
em que foi socorrido o motorista. Supunha certos cenários. Suposição confirmada: corredores servindo de ambulatórios, que utilizavam macas como substitutas de camas, que formavam filas de desespero. O hospital parecia uma arena de lamentação, tantas as dunas de gemidos.
Tudo filmado, sim.
Choroso por causa das cenas, mas sorridente em virtude do profissionalismo, Simas, foi apanhar o filho no colégio. Chegou atrasadíssimo. O táxi andava dez metros e parava, porquanto os donos de transportes opcionais, numa desastrada iniciativa de pressão, acharam de colocar seus carros no meio das ruas mais transitadas de Cristal.
- Toda a esculhambação foi filmada, não? E aí? Quanto tempo você ficou filmando esses negócios?
Bom, Simas, leitor, conversava com o executivo da empresa encarregada de transformar as filmagens em cinema oficial. Estavam num restaurante. Faziam hora para almoçar e, como ocorre com quem já está com vários uísques na cabeça, reprisavam o assunto. As duas perguntas aí de cima, por exemplo, Jorgel já tinha feito umas duzentas vezes. Curtiam o futuro sucesso do filme, por assim dizer. Filme, cujos atores não sabiam que iriam ganhar o oscar da espontaneidade.
- Tudo filmado, sim. Fiquei dois anos nesse trabalho. Mas, como já tenho lhe dito, demorei esse tempo todo porque julguei oportuno pesquisar certas autoridades. Então a coisa ficou complicada. Descobri cabeludas mutretas, meu caro Jorgel. Tenho gravadas mais de 120 horas de carcerárias bombas. As imagens e áudios são de arrepiar. Vão bombar, sem dúvida.
- Não tem medo, Simas? Você vai jogar caixas e mais caixas de maribondo caboco em cima dessa gente, meu caro.
- Medo? Medo de registrar a verdade? Jamé, Jorgel. Sou artista. Você teria?
- Da verdade, não. Mas de um maribondo na testa, sim. Esse povo é cruel, amigo. Só espero que as tais poderosas autoridades não procurem a Justiça a fim de sustar o filme.
- Torço por isso, Jorgel. Já imaginou a propaganda que eles estariam fazendo do filme? Aguardemos a jogada deles, certo? Vamos pedir o almoço?
Jorgel dá o sim de cabeça e chama a garçonete. Simas, de olho nas curvas da moça, acha por bem soltar um galanteio:
- Sabe, minha jovem, você tem todos os atributos de uma atriz. Além de belíssima. Falo como mestre no assunto. Sou cineasta e...
“Sei que é cineasta. O senhor acertou em cheio. Sou atriz, sim”, disse a garçonete, sorriso maroto, podo as mãos nos bolsos do avental. Do esquerdo tirou um envelope vermelho e jogou na direção de Jorgel. Do direito sacou uma pistola e atirou na testa de Simas.
Acertou em cheio.
Atirou, sorriu e correu para uma rua lateral, onde um automóvel a esperava.
Jorgel abriu o envelope e empalideceu. Estavam lá cinco fotos da família e a mensagem:
“Entendeu o que vai acontecer se não destruir a porra dessas fitas?”

Fevereiro/14

TC