sábado, 15 de fevereiro de 2014

O PROGRESSO VERDE DA DESORDEM AMARELA

O PROGRESSO VERDE DA DESORDEM AMARELA

          Criei esta gamela para acomodar os meus vinagretes mentais. Funciona assim. Agarro uma ideia, passo a dessecá-la, despejo o picadinho literário no cocho e me ponho a imaginar o leitor rindo do desastrado esforço de agradá-lo. Na minha cabeça, o hipotético leitor me visita depois da janta e está simplesmente esperando a hora do futebol na TV. Também pode ser uma leitora que fica cozinhando a visão para a leitura de um livro. Certo é que sempre imagino o abençoado ou a divina a procura duma atividade que os distanciem das contrariedades do dia a dia. Raramente consigo criar sorrisos, mas isso são outros quinhentos.
Hoje vou quebrar o modelo da amenidade. Vejam. No fim do ano passado, alguns torcedores do América de Natal mataram um torcedor do ABC, clube também daqui. Um crime entre vários. Vários que incluem abcedistas matando americanos. Agora acabo de ler no Jornal de Hoje esta declaração da competente delegada Alzira Veiga. Dizia ela, a respeito daquele crime: “Eles matam por instinto. Matam por matar. Não existe um motivo específico”.
Matam por matar. Minha nossa! Sei disso, delegada,
mas não deixei de me arrepiar com a cruel verdade. Então botei a mão na queixada e comecei a matutar, pois é assim que matuto matuta:
Há um ser infernal zombando do povo brasileiro. O infeliz fica sentado num tronco de maldade, esboça aquele risinho satânico e fica mangando da gente. Sente-se feliz por ter espalhado - há séculos, diga-se - o granulado do mau precedente e o pozinho da complacência.
Vejo somente essa explicação para o Brasil estar acolhendo a insanidade com tamanho entusiasmo. O azoreta lembra-se de como tudo começou: conhecido espertinho deu tremendo trambique num honesto parceiro e saiu se gabando da desonesta transação. O parceiro ficou na dele e foi à forra com outro desavisado. E esse com outro. Estava aberto o precedente do jeitinho brasileiro, o levar vantagem em tudo, eufemismos de roubalheira. Para deleite do infernal zombeteiro, de lá pra cá tais atitudes só fizeram vitaminar o progresso da desordem verde amarela.
Com a internet o negócio se modernizou. O sujeito recebe uma carta comunicando-lhe que determinada ação judicial lhe foi favorável (recebi uma, sim). Mas ele precisa fornecer uma conta bancária e transferir certa quantia, como custas judiciais, a fim de que a bolada seja depositada. Aí o demente transfere a mufufa na presunção de se dar bem. Mas como receber a grana, se o abestalhado nem demanda judicial tinha? Ladrões o golpista e o demente, não?
E as pirâmides financeiras? Conheço gente que largou o emprego para investir no negócio. Abocanhava três, cinco mil reais ao mês sem dar um prego numa barra de sabão. Pode isso? Estava na cara que o sonso iria roubar dos futuros incautos, não?
Em ambos os casos, o ser infernal cruzou os braços e ficou morrendo de rir, vangloriando-se da pujança do granuladinho do precedente.
Só amarelou o sorriso quando viu as ruas protestando contra as políticas de humilhação a que o Estado estava submetendo a população. Então o nojento chamou uns cabras de peia, soltou uma graninha, pediu que se disfarçassem, quebrassem vidraças, soltassem rojões, incendiassem carros. Só restava aos reais manifestantes saírem de cena, não é certo? Errado. Por que a autoridade maior não mandou prender os disfarçados, já que estavam na rua tão somente para bagunçarem? Era só prender os safados e deixar a democracia bater pernas. Por que não agiram assim? Boa pergunta. Será que queriam abrir um precedentizinho?
O poder do precedente é descomunal, gente. Viram o mensalão? O Sr. Genoino abriu uma conta, então a turma abarrotou-a de dinheiro a fim de que o ilustre pagasse a multa da condenação. Outro fez o mesmo, outro também e assim vai.
Precisa haver um breque na primeira manifestação do mau precedente. Do contrário, o bicho desembesta e pode se transformar em choro. Breque impossível no caso brasileiro, pois aquele pozinho da complacência, o parceiro do precedente, não deixa. Terrível a nossa situação. Infelizmente.
Falo sério, gente. Visualizem este absurdo. O Supremo Tribunal Federal, o intocável guardião de nossas leis, sendo ameaçado de invasão por uma turba de vestes vermelhas e foice na mão. Perigosíssimo precedente, concordam? A turba foi exemplarmente admoestada? Desmoralizaram o pozinho?
Não apenas torcedores matam por matar, delegada Alzira. Rusguinhas, antes decididas no tabefe, hoje são resolvidas com balas na testa? O precedente de não ir atrás do criminoso há tempos zomba das famílias enlutadas. Por isso é que a morte potiguar fica estirando a língua para a Justiça, com a boca funda mais debochada do mundo. No nosso Rio Grande Sem Norte, somente 5% dos casos são investigados, segundo os jornais. E o precedente dos assaltos? Nossa! Não faz um mês, três meliantes montaram numa carroça, pegaram um facão e assaltaram uma lanchonete. Depois saíram chupando o dedo. Pode um negócio desses?
Não apenas torcedores matam por matar, delegada Alzira. O mais desapiedado matador brasileiro é o Estado. Tira a vida nos hospitais, por carência de assistência médica; assassina nas periferias, por delegar às drogas a formação da meninada; mata o futuro da juventude, pela oferta de uma Educação de faz de conta.
A complacência do Estado é estarrecedora. Zorra total. A população vive ao Deus-dará, a bangu. O Estado desfunciona no improviso, na gambiarra. As instituições ficam no meio, cambaleantes, de braços abertos, ora pendendo pra esquerda, ora pra direita, ora um passo à frente, ora um passo atrás, feito o roceiro que quer pegar a arisca galinha do almoço (fiz muito isso). Todos, enfim, ficam imitando aquela coisa malcheirosa que se diverte balançando nas correntezas dos rios.
O Estado é mera abstração. Mas abstração com nome e endereço. Orientem-se, governadores e presidenta. Façam do palácio um matador da complacência. Convoquem os auxiliares e deem um murro na mesa. Mas um murro irado, daqueles de quebrar a pedra do anel. Olhe nos olhos dos caras e fale desta forma:
“Chega de moleza! Peguem aspiradores e exterminem esses indecentes pozinhos que infestam o país. De hoje em diante, de hoje em diante, de hoje em diante...”
Bom, daí em diante o discurso fica com os senhores, senhores governantes. O importante é que abram bons precedentes.

Desculpem, pessoal, se criei o precedente do texto longo.

Fevereiro/14

TC