sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

VIM DE ONDE NUNCA FUI

VIM DE ONDE NUNCA FUI

Não fui porque não quis, é certo. Convite e transporte não me faltaram. Nem me faltam. Basta estalar o dedo. Mesmo assim não quero ir. Será que existem amor e prazer por lá? Mas haverei de ir. É o meu destino.
Será que nunca fui mesmo? Pensando bem, se vim é porque fui, não é verdade? O intelecto pode muito bem ter saído para um rolezinho e ter se esquecido de registrar a minha escapulida. Mas talvez nem intelecto eu tivesse quando fui. Nem quando vim. Certo é que hoje eu o tenho e ele armazena tudo. Mas resta misterioso vazio entre o fui e o vim.
Não tive mais ânimo para filosofar. Apenas para imaginá-la. Ela acabava de entrar no restaurante. Vestia seda vermelha, coladinha ao corpo. Caminhava faceira, descolada de pudores. Olhava sedutora, impregnada de paixão. E olhava exclusivamente pra mim!
O silêncio do restaurante a reverenciava. Ela me curtia, marcava-me, não me compartilhava com ninguém.
Caramba, exclamei, orgulhoso. Essa moça deve estar me confundindo com alguém, pensei. Parte do público masculino também a imaginava, percebi pelo olhar. Parte do feminino a invejava, notei pelo sorrisinho irônico. Digo parte já que em todo lugar há os indiferentes. E os contraditórios, o que é compreensível. Mas até esses seguiam a sedutora e despudorada faceirice da dama sedosa. E, assim sedenta, ela se pôs diante de mim.
Abobalhado, fiquei a fitá-la, sem sequer me mexer. Nisso, ela me dá um oi orgástico e estira a mão, no claro intuito de quem queria afagos. Levantei-me, abracei-a, beijei-a. Beijamo-nos, aliás.
- Nossa, como você está compenetrado. Pensava em quê? Conseguiu me dar um quinal, meu caro. Mas logo o encontrei. Está vindo de onde?
- Estou vindo de onde nunca fui.
- Ah, é? Engano seu. Vir pressupõe um ponto de partida, é lógico, mas não obrigatoriamente dum ponto de chegada. Você pode vir sem ter ido, entendeu? Ao menos por vontade própria. Já voltar...
- Não é isso! Você acabou de concordar comigo. Vim sem ter ido, entendeu? A propósito, estava papeando com os meus botões exatamente sobre esse assunto quando você entrou. Perguntava-me por que havia vindo ao mundo, como tudo começara, se já viera outras vezes e coisas que tais. Pensava em amor, prazer, milagre da vida. Por não dispor das respostas, respondi-lhe com o “estou vindo de onde nunca fui”.
Outra coisa... Bem, acho que você está me confundindo com alguém, pois não a conheço. Então, para que não haja mal entendido, é bom...
- Desculpe interrompê-lo. Primeiro, quero parabenizá-lo pelo juízo da questão de ida e vinda. Você está certo. Foi aprovado no teste. Desculpe a pegadinha. Segundo, suas dúvidas serão tiradas em esplendoroso salão secreto. Mas ainda não chegou a hora. Terceiro, conheço-o muito bem, sim. Sou apaixonada por você, destemido, bonitão e viril como ninguém. Vivo na sua cola, policial Silva. Você é quem não me dá bola. Por último, fui criada pelas forças cósmicas e vim lhe dar um presente. Quero gozar junto com você.
- Quê? Qual é o seu nome?
A bonitona não respondeu, pois um arrastão estava sendo anunciado. Mas riu do comando dos mascarados:
“Todo o mundo deitado. É um assalto”.
Quatro pistolas enquadravam os clientes. Uma especificamente pra mim, como se o bandido soubesse que eu era policial. Morrendo de rir, minha acompanhante começou a se virar para os meliantes, não sem antes me segredar. “Esses vão para onde não deviam ter vindo”. Foi ela acabar de se virar para os bandidos ficarem esperneando.
Puf! Caíram durinhos.
Restaurante de queixo caído. Ninguém entendia nada. Somente eu. Mesmo assim porque, ao voltar-se pra mim, a dama passou uns dez segundos para trocar a veste branca pela seda vermelha, a banguelice pela perfeita dentadura, o queixo fino, chupado, os olhos fundos, sombrios, a magreza total pela... Enfim. Ah, a foice era de mola. Cabia na palma da mão. Escondeu-a na calcinha, notei. Branca. As duas. A foice e a calcinha.
A danada transmudou-se em dez segundos, rindo. Também ri. Embora amarelo. Aí caiu a ficha. O gozar comigo que ela falara era a mangoça que fazia dos caras. E o presente a que tinha se referido era a vida que ela acabava de me dar. Mas não era nada disso. Ou não só apenas isso. Do contrário...
“Agora vamos para o meu apartamento”, disse a danadinha, dengosa toda.
“Mas volto?”, indaguei, sabe lá Deus de onde tirei tamanha coragem.
Ela tornou a rir, piscou o olho, puxou-me pela mão.
Agora pergunto. Você, macho véi, teria coragem de contrariar tão bela senhora?

Fui!
E vim.
Fevereiro/14

TC