quarta-feira, 26 de março de 2014

A GRAMÁTICA POÉTICA DO COMBINADO FINGIMENTO



A GRAMÁTICA POÉTICA DO COMBINADO FINGIMENTO

A gente finge que... Eles fingem que... Tenho ouvido bastante essa combinação. A última, duma médica, numa declaração dum jornal. Num momento de desabafo, mas bafejando a cheirosa sinceridade. Engraçado, digitei sem pensar a combinação daqui de cima, a do ouvido. O duma da médica, o numa, o dum e o num do jornal também vieram no automático. Certamente, frutos da antiga gramática. Duma, dum, numa e num falados até que são. Já escritos... Parece que o pessoal sente vergonha de escrevê-los. Acreditam que sejam combinações mensaladas. Mas não foram revogadas, mesmo porque estão longe de ser infringentes. Ou foram e são, François? Será que...

Agora, determinadas combinações e algumas reticências deveriam ser revogadas da semântica brasileira. Semântica, todo o mundo sabe, é palavreado de certas autoridades. Combinar e fingir é a mesma coisa? Ou só combinação e fingimento o são? Combinar é verbo. Fingir é advérbio. Oficial e de intensidade. Intensifica simulação. O pior dos piores é quando o indivíduo finge que combinou.
Vou ser sincero, embora dela vocês possam desconfiar. Deixei de fingir. Já fingi, sim. Não fingia bem, é certo. Mas hoje não finjo mais. Pouco me importa se vocês acharem que a negação é prosa minha. Não finjo, mas segunda-feira, no Roda Viva, da TV Cultura, quase me dobrei quando vi a angelical poeta Adélia Prado, bandeira na voz, trombeta nos gestos. Ele leu um poema (poema se lê, simplesmente?), tornou-se um rio de emoção, os entrevistadores debateram-se na enxurrada e eu fiquei na margem da ignorância, doido pra fingir. Queria deles o calor, mas nadica de nada de nadar. Minha predisposição poética é pelega da penúria proficiente. Ideias tenho, são amigas, mas, de acordo com JB e FP, colegas de copo, vivem emburradas com a poesia. “Poesia é palavra, não partículas de pobres pensamentos. E você, Tião, sabe disso”, dizem eles.
Até que sei, mas sinto dinossáurica dificuldade de distinguir poéticas palavras de pensamentos pobres. Respondo desse jeitinho. O FP se põe puto, pois pensa que palavreio pulhas. Você é uma pessoa fingidor (ele adora discordar), rebate o poeste, normalmente com um murro na mesa. Porque rascunho neste blogue, imaginam ele e outros que domino a arte maior. Não me é alheia, é verdade, mas daí a amassá-la são outros versos. Falo com toda a pureza da alma. Não percebo palavras se paramentando de poesia e pondo paixão na vida. Sou incapaz do gozo orgástico daquela entrevistadora da AP. Nossa!
Certa vez, querendo paz, li isto pro FP. “A lua majestosa passeia no tapete das nuvens na imensa quietude do universo. E com seus raios argentinos rompe o véu negro da noite com claridade branda e suava, e faz da terra um manto de virgem (Gil Dumont)”. “Isso não é poesia, seu filho da puta. É uma lua de lugar comum, chulé da vaidade”, avaliou ele, caindo na risada. Mas a risada saía porque eu também ria. Então o FP supôs que eu estava gozando com a cara dele, porquanto já previra aquele julgamento, entenderam? Aí deu-se o inusitado: FP ficou sério e disse que o poema era bom. Agradeci, é claro.
Sabe o que penso, falou o João Batista, o JB. Você, bicho, é perito em camuflagem. Finge que não conhece poesia, mas joga nos textos os pês da poética. Como faz isso? Com jogo de potentes palavras. Discordo, discordou o FP. Esse infeliz não sabe porra nenhuma de poesia. O potente jogo de palavras a que se refere você, JB, é a tentativa de fazer o incauto leitor imaginar que o azoreta é poeta. Cadê o lirismo? Cadê a ruptura? Cadê a alma? Cadê a Carmen dele? Cadê o Bandeira dele? Cadê a Iracema dele? Cadê o Gular dele? Cadê a Adélia dele? Cadê o Aduato dele? O gato comeu tudo, JB?
Vamos combinar, né, JB? Esse sacana é um tremendo gozador. E fingidor.
Março/14
TC