sábado, 8 de março de 2014

A HOMENAGEM DE SIMIÃO NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER



A HOMENAGEM DE SIMIÃO NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Hoje acordei com a sensação de que viveria momentos incomuns. Porque previsíveis, abandonei os amáveis e protocolares parabéns pelo Dia Internacional da Mulher. Certo é que a percepção foi confirmada logo pela manhã no auditório da fábrica onde trabalho. Mas teve tudo a ver com a data.
            Meu nome é Clara. Trabalho de costureira nas Confecções 1857, unidade/Cristal. A 1857 é a maior indústria de confecções do país. E o dono, Dr. Simião, o melhor patrão do mundo. Opinião compartilhada pelos quarenta mil funcionários da empresa. Ganhamos 20% a mais que os demais empregados do setor, temos benefícios sociais ausentes em outras fábricas e não somos simples registros trabalhistas. De mais a mais, inexiste empregador mais atencioso que o Dr. Simião. Dr. Simião é daquelas pessoas incapazes de fingir. Parece que quando Dr. Simião nos cumprimenta, o coração fica dizendo que nos ama. Os homens não comentam essa impressão, mas as mulheres fazem dessa visão uma festa.
            Bom, acariciando rosas vermelhas, personalizadas e distribuídas no acesso ao auditório,
estamos lá esperando Dr. Simião. Às nove horas ele deve chegar acompanhado da mulher, D. Antônia, e ler a mensagem sobre o Dia Internacional da Mulher. Depois será servido o café da manhã. Em seguida, os funcionários – inclusive os homens –, terão o dia de folga. Nove horas em ponto e nada de Dr. Simião. Às nove e dez chega um elegante e desconhecido casal e acomoda-se na divisão elevada do auditório. Executivos de fora, imaginamos.
            Após minutos de aflitivo silêncio, o homem pega o microfone, apresenta-se e confirma a minha percepção de surpresa: o casal estava vindo do hospital. Dr. Simião sofrera uma queda no banheiro e quebrara a perna. Estava sendo operado. Não podia, pois, prestigiar a nossa festa. A mensagem de felicitações pelo Dia Internacional da Mulher seria lida pela senhora ao lado, a Dra. Alexandra. Mas, mesmo na maca, Dr. Simião redigira umas linhas e recomendara que o bilhete fosse lido por uma funcionária. Dito isso, o senhor Getúlio me chama para ler o bilhetinho.
            Tímida, relutei, mas os gritos de “Clara, Clara, Clara” deram-me força e comecei a ler o escrito. Com certa dificuldade, é verdade, pois o texto era uma garrancheira só:
            “Queridas amigas, não posso estar com vocês. Levei um tombo no banheiro. Estou no hospital. Dra. Alexandra vai ler a minha mensagem de congratulações pelo dia de vocês. Espero que tenham um dia de sorrisos. Divirtam-se. Nossa empresa tem um sonho: alcançar a completa harmonia comportamental entre homem e mulher. Estamos chegando lá. Abracemo-nos, amigas, pois muito em breve a voz masculina e a feminina da 1857 formarão belo discurso único, tornando irrelevante a tonalidade da voz. Espero que essa igualdade também ocorra em seus lares e em todos os ambientes deste amado país. Parabéns e um beijo no coração. Gostaria de dizer mais umas coisinhas, mas a linda moça de branco aqui na minha frente já está afiando a faca, doida para me cortar.”
            Cessados os aplausos, Dr. Getúlio agradeceu e passou a palavra à Dra. Alexandra, a quem competia ler o discurso de Dr. Simião. Silêncio, agora de expectativa, a doutora tirou um papel da bolsa e deu sonoro bom-dia.
                A princípio enchemos as bochechas, depois os sorrisos foram enchendo o auditório. Aí nos juntamos às gargalhadas de Dr. Getúlio e de Dra. Alexandra. Gargalhada feminina, a dele, e masculina, a dela, o que terminou amplificando a nossa. Zorra total, a sala chorando de rir, o casal conferencista se abraça, se beija e se revela: Dra. Alexandra é agora o Dr. Simião e o Dr. Getúlio é a esposa, a D. Antônia.
            Entre abocanhadas de melancia, mordidas de prazer, talhadas de mamão, copadas de satisfação, ouvíamos a gozação de D. Antônia: “Ô homem desastrado, esse meu marido. Passou um ano treinando, seis meses só para se equilibrar nos saltos altos, mas, na hora agá, esquece que é mulher e dá estrondoso bom-dia de homem”. A ideia, completava ela, era se despirem dos personagens apenas no fim do café. Dr. Simião sorria e confessava que não tinha a competência da mulher.
            Um beijo e até o ano que vem,
            Março/14
            TC