sábado, 22 de março de 2014

MARX, KEYNES, TIÃO E O JOGO DO BICHO




MARX, KEYNES, TIÃO E O JOGO DO BICHO

Trabalhei muito tempo no jogo do bicho. Naqueles idos, uma atividade lúdica. Tornei-me experto e esperto no assunto. Formei-me em venda de bicho e me formei vendendo bicho. Saí do leão do jogo da lenda para o leão do imposto de renda.
Comecei a decifrar o ser humano no jogo do bicho. Vivia logado a esse grande portal do comportamento. Comprazia-me com a fidelidade, espantava-me com a insensatez, surpreendia-me com a estratégia. Confabulava com todas. Com elas e seus opostos, naturalmente. Anos depois, sorri ao ler este aforismo do Einstein: “O homem é inconsistente”.
Em termos de fidelidade, o jogador do bicho é tão fiel ao cambista quanto ao barbeiro. Já insensatez e bom senso convivem numa boa com o jogador, embora
a afoiteza de apostar além do recomendado dê pequenina vantagem à insensatez. Artimanha comum em qualquer jogador é a tática de adivinhar o bicho da sorte. A estratégia vai do interpretar o sonho, passa pelo pitaco do cambista, transita pelas combinações numéricas. Grande diversão, o jogo do bicho. E excelente universidade no campo das relações humanas.
Deu-se no jogo do bicho a minha programação sociocultural. Programação que se aliou à teimosia da genética, ajudou a me autoprogramar e me transformou no insano e babaca processador mental de hoje. Então, minhas nobres, as ressalvas ao meu comportamento devem ser imputadas a esse trio programador que, a rigor, começa na jogatina do bicho. Afinal, no jogo da vida, é impossível satisfazer a todo mundo. E, para ser sincero, amigos, corro léguas de tamanha missão. Certamente viveria envaidecido se de todos arrancasse sorrisos, mas, também certamente, viveria de boca cheia de sapos, ouvidos encerados de bom senso, olhos esbugalhados de conivência. Não fiquei estouvado como talvez esteja supondo você, leitor. Pelo contrário, sou fundador da regra do um/dois. Daí eu ser extremamente sensato, já ter engolido alguns sapos e ter sido conivente com algumas atitudes, principalmente nas ilicitudes do amor.
Meu número preferido no jogo do bicho era o dois, a águia. Dessa simpatia - e de tanto observar os fregueses - criei a louca teoria do um/dois. O um é o comportamento linear, corriqueiro, esperado. O dois é o desvio, o incomum, o atípico. Bom é viver no conforto do um, porém a imprevisibilidade do dois é inevitável. Quem ainda não engoliu um sapinho levante a mão direita. Levante a mão esquerda aquele ou aquela virgem de burlar uma norminha. Agora levante as duas mãos os que nunca contrariaram a sensatez. Estão vendo?
Há certos dois, tipo o do sapo, de cujo arroto tentamos nos livrar. Em contrapartida, existem uns, tipo o do bom senso, que é de bom alvitre (vixe!) contrariá-los. De tempos em tempos, é lógico. Não vamos sair mundo a fora desmoralizando o razoável. Já imaginou trafegar a vida inteira lotado do insosso bom senso, sem ao menos uma aventurazinha? Precisamos de emoção, de sal. Emoção parida de uma transgressãozinha, de preferência. Quão chata é uma vida morna, não? Em que forno de seu dia a dia isso será aquecido é que são outros quinhentos. Um porre daqueles? Uma improvisação daquelas? Uma... Uma... Você é quem sabe. Calma aí!
A transgressão - e o correspondente risco -, nem sempre está explícita na atitude dois. O que precisa estar presente é a fuga do lugar comum, a quebra de modelos, o afastamento da manada. Mas isso tem custo: quem assim se comporta pode ser tachado de excêntrico, teimoso e coisa e tal.
Usei o sistema dois quando cursei Economia, à noite, na UFRN, no início dos anos oitenta (é o novo!). Para desgosto de alguns colegas, que queriam me ver trabalhando em atividades mais “nobres”, dei um chute na insípida normalidade, esmurrei o tolo status, acariciei a bela ousadia, juntei-me aos mestres Marx e Keynes e ficamos, os três, traçando mais valias, rascunhando gráficos de demanda e jogando milhar invertida no birô do bicho. Imaginava que num emprego formal, em que pese ganhar um pouquinho mais, o tempo de estudo seria absurdamente reduzido, o que comprometeria a qualidade de minha formação. Não queria um simples canudo. Queria fazer um curso bem feito. E fiz. O comportamento dois deu certo.
É bom compreender a atitude dois e mantê-la na cabeça a fim de que não haja precipitação em certos julgamentos.
Falar em dois e em cabeça, será que vai dar o dois - águia - na cabeça? O que vocês acham Marx e Keynes?
 Vão jogar do 1º ao 5º?
Boa sorte!