quarta-feira, 5 de março de 2014

VOCÊ NÃO É VOCÊ



VOCÊ NÃO É VOCÊ

            Você não é você, nobre Miraia. Você não é autêntica. É simples pau-mandado.
- Que? Que disparate mais... Não gosto dessas brincadeiras. Não lhe dou o direito, Simônidas, de...
Miraia ficou tão raivosa que tomei a palavra e tentei segurar-lhe a mão. Frustrada a tentativa, sorri e expliquei:
Escute. Estamos aqui numa boa, eu vendendo meu joguinho de bicho, você despachando os clientes. E entre um aposta na vaca e um cafezinho servido fazemos o jogo da sedução. Jogo pedras de desejo, você empurra pedras de indiferença. Mas sua indiferença é só de faz de conta, pois o malicioso sorriso e o provocante corpinho já me falaram tudo: você me quer.
- Quê? Tá maluco? Vou lá sair com um homem que me chama de falsa. Nem morta!
Então veja a prova de que é embusteira, Miraia. Você estava
sorridente, mas bastaram três frasezinhas para ficar faiscando de furor. Alguma coisa mandou você ficar assim, não? Quem é você, afinal? A fascinante de minutos atrás ou a faiscante atual?
- Sou uma só, Simônidas. Agora, não tenho sangue de barata. Reagi como qualquer ser normal reagiria ante a tão brutal ofensa. Pau-mandado é a...
É claro que fisicamente você é única. Belíssima, charmosíssima, mulheríssima. Você é única porque únicos são os seus atributos e experiências de vida. A expressão “você não é você”, Miraia, refere-se a seu comportamento. É uma declaração de realce a fim de expor a natureza humana, embora a informação esteja pertíssima da verdade. Você, eu, nós, osso e água, corpo inerte, somos simples seres adjetivados, inúteis por assim dizer. Só somos substantivos e exibimos autoridade quando emitimos juízos de valor e agimos. Pensamos e agimos, minha amiga, mas sem garantia alguma de que sejam verdadeiros os pressupostos da ação. Decidimos em face do que mentalmente nos é recomendado. Se assim é, pau-mandado somos, concorda?
- Você está querendo é me enrolar. Não dou a mínima para esse tal de corpo inerte.
Mas devia dar, Miraia. Não a mínima, mas a máxima. Dei entonação tão especial ao “devia dar” que a espertinha caiu na gargalhada, comprovando o ponto de vista de que a essência do indivíduo é a conduta. Continuei jogando lábia pra cima dela:
Nada tem importância, Miraia, exceto aquilo que importância você dá.
Você deu importância ao fato de eu tê-la chamado de pau-mandado e julgou relevante a brincadeira do “devia dar”. Da primeira nasceu afobação, da segunda, animação. Já sobre o meu juízo filosófico, você disse que era enrolação e não deu a mínima. Sabe como concebeu os três sentimentos, nobríssima Miraia?
            - Taí o que quero saber, seu filósofo de meia tigela.
            Você os concebeu por intermédio da audição, daquilo que ouviu de mim. Mas podia ser pelo tato, paladar, olfato e pela visão. Esses bichinhos acomodam-se em seu cérebro e formam específico estado mental. Agora vem o pulo do gato. O cérebro não tem capacidade de processar todos os estímulos a seu dispor. Um número descomunal a cada segundo. Além de não processar todos, o esforçadão ainda corre o risco de acomodar aqueles intencionalmente instigantes, moleques, conquanto verdadeiros, tal qual o meu de há pouco tempo, o do pau-mandado. Resultado: seu momento mental, Miraia, pode não corresponder à realidade, o que nos leva à seguinte afirmativa:
            O que você está imaginando não significa, necessariamente, a verdade daquele evento. É tão somente a representação interna do que seu cérebro acolheu. Não é aconselhável, pois, ficar demasiadamente triste – ou alegre – acerca do porvir, do mais ou menos certo. Ou errado.
Estamos a mercê de estados mentais. Somos paus-mandados deles, Miraia. E nem sempre eles são fidedignos. Precisa ter isso em mente se quiser viver melhor. Não precisa fazer disso uma obsessão. Basta entender o processo de formação desses pestinhas e ter consciência de que está no comando de tudo. Você é a gerente de sua vida. Estou certo, Miraia?
            - Mais ou menos certo, seu safadinho sedutor. Mas fique certo de que sou autêntica. Nunca fui pau-mandado na vida, ainda que já tenha, já tenha...
            A reticência, as pupilinhas dilatadas, o alisadinho no cabelo e o risinho sacana diziam tudo. Mas Miraia achou por bem mostrar quem era o pau-mandado dali e ordenou com toda a autoridade do mundo:
            - Venha me apanhar às oito. Em ponto.
            - Sim senhora.
           
Março/14
            TC

Obs. Texto transcrito do romance A Senhora 2 e o Senhor 2, de Tião Carneiro.