domingo, 6 de abril de 2014

A HONESTIDADE DO ELEITOR FALOCIANO



A moda atual é texto curto. Ninguém lê mais de meia página. Isso não me impede de contar uma história de três laudas. Se preferir, você pode parar na dita meia lauda, na língua presa do Feliciano. Boa leitura. Ou boa meia leitura.

A HONESTIDADE DO ELEITOR FALOCIANO

Vive-se o mês o de Sant’Ana. Dias agitados, politicamente. De hoje a três domingos, já no mês de agosto, dois mil e tantos eleitores vão eleger o presidente da província de Falocidade. Dois candidatos disputam a presidência: o jovem Luizinho do peixe e o igualmente jovem Marquinhos do leite. Do leite, por causa do avô, Chico do curral, dono de novilhas e vacas, únicas posseiras de suas glebas. Do peixe, por causa da avó, Mariquinha da lagoa, dona de cacetões e tucunarés, exclusivos atletas de seu açude. Únicas e exclusivos, porquanto mortais falocianos estejam proibidos de lá aportarem. Exceto em época de eleição. 
Chico do curral é mal de fogo
e sangue com a avó de Luizinho, Mariquinha. E Mariquinha não deixa barato: é mal de sangue e fogo com o avô de Marquinhos, Chico. Essa fogueira de sangue foi acesa pelos pais de Chico e Mariquinha. Todo o mundo sabe disso. E ainda herdará muito alpendre de conversa. Nos ditos telheiros, dizem, às caladas, que luxurioso apetite dos avós dos candidatos também vive às turras. Como às lascivas turras viveram as libidos dos avós deles, dos bisavós, dos tataravós, dos pentavós, dos heraxavós. Aliás...
Aliás, o povo de Falocidade desteta o assunto, mas, nas poucas idas à capital, a gente se controlava para não sair do sério em razão de algumas brincadeiras. O assunto brincalhão era a origem do nome da província. Oficialmente, a denominação proveio do gaguejado de seu fundador, um abobalhado e valente falastrão. Dizia ele à mulher que estava bastante feliz naquelas paragens e que o local iria ser chamado de Felicidade. A esposa entendeu Falocidade, repetiu o nome e elogiou a criatividade do marido. Feliciano riu da misturada, reprisou o Falocidade e preferiu não contradizer a cara metade. Foi assim que a língua presa de Feliciano trouxe Falocidade quando o objetivo era Felicidade.
O que tangia a seriedade dos falocidianos era a tese de que o fundador gaguejava, sim, mas Falocidade nascera do gigantesco e violento falo do falastrão e velho Feliciano. A hipótese vinha acompanhada de verdadeiro suporte cultural, já que até hoje os falocidianos mantinham viva a fama de violentos falastrões. Especialmente no meio das falocidianas.
Comentava-se que Feliciano, conquanto valente falastrão, tornava-se, por vezes, tocado de brandura tal, que implantava desconfiança na mulher, D. Ana. Estaria o consorte sofrendo de algo pecaminoso, contagiante? O que estaria deixando o marido tão calado, enrustido, com aquele jeitão, a ponto de nem conversar com ela querer? Certo é que o jeitão adquiriu ares lamarqueanos, posto os sintomas terem permanecido no meio da masculinidade falocidiana. Não apenas aquele jeitão permaneceu: a dificuldade do falar com clareza era outro bubu presente na boca de homens e mulheres, segundo o bisavô de quem me contou esta história, vezes por vezes aqui apresentado como o “a gente”.
Bom, Falocidade é a província polo da região, ainda que despovoada quando se alarga a vista para as brenhas além de Vaginha, a sede da província. Despovoamento de vela na mão, haja vista o futuro estar exigindo trabalhadores de outras paragens para aqueles confins. E não são simples promessas. Noticiosos da capital dão contas de que algumas veredinhas de areia serão transformadas em modernas vias piçarrentas, pois se planeja construir várias fábricas no entorno de Vaginha. Uma de sabão e duas de óleo - um de comer, outro de polir cristaleira - já estão com o terreno sendo ajeitado em Milharal, lugarejo distante quatro léguas de Vaginha. Agora, a notícia que está deixando excitados os falocidianos é a construção do redondel, ou arena, no linguajar dos candidatos. Será erguida em Vaginha. Afinal, em Falocidade se pratica o melhor futebol no país. Não à toa, são os falocidianos quem primeiro saem da bola de papo de galinha para a de meia, desta para a de borracha, daí para a de napa e, finalmente, os primeiros no país a bicarem a pelota de couro. Nº 5, por oportuno. Grandes boleiros, os falocidianos.
Nossa atmosfera política está tendo o condão de acordar a madorra deste povo. Destarte, que me abismarei se despertar tão estrídulo não provocar exemplar redemoinho na atitude do eleitorado e, em assim sendo, servir de paradigma para o resto do mundo. Múltiplas foram as missas em que o influente reverendo Anchieta assim encerrava a homilia dominical. E múltiplas foram as vezes em que a gente via as beatas se benzendo.
Tinha razão o doutrinador Anchieta. Aos poucos, o linguarudo povo de Falocidade saía da fofoqueira fala pobre e entrava no produtivo discurso rico. A anunciada arena estava se tornando o pontapé da boa prática. Partidários da suntuosa construção ganhavam de goleada, mas os contra-ataques argumentativos ameaçavam a supremacia. A tese de a arena terminar servindo de pasto para brancos jumentos estava pondo em risco o argumento do multiuso, porque pastoril, lapinha, boi do reis, joão redondo, pau de sebo, gato no pote e eventos similares não pagariam tamanho empreendimento. Essa discussão se dava apenas entre os eleitores, já que os candidatos apoiavam a iniciativa. Em tudo eles rivalizavam, menos nesse ponto. Isso a gente não entendia. Não entendia, mas entendia. Mas só entendia quando visualizava a ruma de contos de réis sendo derramada em Falocidade.
A bodega de Zeca Beição e o barraco de Pedro da zenebra tornaram-se fecundos sítios democráticos. E de porradas. Não raro o fim de semana em que eleitores de Marquinhos do leite e Luizinho do peixe não saíam no bofete. Não iam além de bofetes porque a turma do deixa disso não deixava. Depois, passado o efeito do vinho de jurubeba ou de caju, ficavam todos numa boa.
Recorrente nessas discussões era o caráter subserviente dos eleitores em relação aos demagogos candidatos. A politiqueira avó de Luizinho do peixe, por exemplo, tinha um oceano de açude, mas empatava o povo de pescar nele. Havia menino que não sabia o que era anzol. Imagine, landuá, jereré e assemelhados. Outra raposa velha, Chico do curral, o avô de Marquinhos, não deixava ninguém chegar perto do curral dele. Possuía vacas e novilhos no que a vista dava, mas vê se o infeliz deixava alguém de fora tomar um copo de leite tirado na hora! Havia moleques que só diferenciava garrote de novilha por causa dos íntimos documentos, quanto mais saber pear uma vaca ou tirar o leite dela.
Agora, perto da eleição, os puxa-sacos deles batiam de casa em casa dos eleitores entregando manteiga, doando leite, distribuindo tucunarés, presenteando curimatãs. Então, quando alguém, já avinhado e cheio de licor de mandioca, chamava o outro de sabugo de fulano ou sicrano o cacete comia. Todos farinha da mesma fornada, isso sim. E os candidatos e avós uns grandíssimos dos safados.
A três domingos da votação, em plena festa de Sant’Ana, a coisa coisava na venda de Beição, quando chega a notícia: um braço humano havia sido encontrado na calçada do chalezinho onde o reverendo Anchieta reunia os fiéis. Com dois detalhes: uma fita azul amarrada na munheca, com algo escrito, e os dedos escondidos por um pano. Azul, mas quem primeiro viu o braço jura que a fita era vermelha. Azul, diga-se, era a cor da campanha de Marquinhos, e vermelha a de Luizinho. Ficou-se sem saber o que estava escrito, já que ninguém se dispôs a desprender a fitinha. Brabos que só a bexiga, mas supersticiosos pra burro, assim eram os Falocidianos. Mexer num braço morto? Nem morto, diziam.
Estabelecida a agitação, eleitores dum lado acusando o do outro, os dois lados querendo se fazer de vítima, um gaiato levanta pertinente questão. Aquele era um braço de homem ou de mulher? Logo descobrem que o braço era de homem. Braço esquerdo ou direito, perguntou o traquino. Aí, a gente quis saber por qual motivo o perguntador fizera o questionamento. O travesso gaguejou e não disse nada com nada.
Então, imaginando o povo que o arteiro queria apenas bagunçar, a preocupação passou a ser o destino que iria se dar ao desamparado apêndice. Achou-se por bem pedir a opinião do padre Anchieta. O reverendo ordenou que o sacristão socasse o braço num saco cheio de farinha de mandioca - a fim de prender o mau cheiro - até que os parentes do braço viessem enterrá-lo. O braço deveria ser do interior, porque se de Vaginha os familiares já teriam aparecido. Enquanto isso, vou mandar tocar o sino de todas as paróquias de Falocidade, disse o reverendo. O sino era tocado a fim de avisar que alguém havia morrido. Naqueles dias, a intenção foi invertida, pois o intuito era saber se o povo tinha conhecimento de que alguém morrera em razão da perda de um braço.
Passados dois dias de badaladas e nada de parentes do braço, o pároco convidou algumas pessoas para cobrir de terra o desprezado. Mas cadê o braço? O sacristão botou a mão na cabeça. Tinha largado o braço na sacristia e esquecido de pôr o danado na farinha. Mas a notícia não chegou a correr. Ouviram um ruído no quintal e... Minha nossa, exclamou o reverendo ao testemunhar a cena. Dois cachorros disputavam o infeliz do braço. Se estava fora da farinha, por que o danado não fedia? Então viram. O braço fora feito dum tronco de bananeira.  A escrito estava ilegível, mas descobertos os dedos da mão do braço. O artista desenhou a peça, mexeu pra lá, mexeu pra cá, deu-lhe pinceladas de tinta de açafrão e aprontou a sacanagem. Até porque os dedos do braço não eram dedos e sim uma glande cabeça.
A brincadeira bate pernas em Vaginha, o que abranda a tensão política. A uma semana do grande dia, nota-se breve favoritismo para Marquinhos, o neto de Chico do curral. Faltando três dias para a votação, Vaginha amanhece com pessoas de fora ultimando os preparativos da eleição. Os engravatados trabalham, riem e zombam do nome Falocidade. Revoltados, moradores mais sensíveis criam uma comissão de notáveis a fim de falar com o chefão eleitoral. A ideia é aproveitar a eleição e mudar o nome da província. Vão se aconselhar com o reverendo Anchieta:
- Em que nome que os senhores estão pensando?
“Vaginolândia, santo padre”, responde uma das notáveis.
O reverendo esboça um risinho, desaprova o nome e explica o motivo:
Escute, D. Messalina. A sede de Falocidade chama-se Vaginha porque o solo daqui produz raquíticas vagens de feijão. Pelo querer da senhora, teríamos Vaginolândia e Vaginha. Combinação de muito mau gosto. A Vaginolândia da senhora não tem nada a ver com a Vaginha de nosso feijão, entendeu? Outra coisa. Essas mudanças custam a pegar. O que vai acontecer. Por tempos, iríamos conviver com os nomes Falocidade e Vaginolândia. Zorra completa. Isso aqui vai virar tremenda babel, D. Messalina.
- Beréu, santo padre?
- Babel, D. Messalina. Falei babel, confusão, buchicho, e não beréu, um local devasso dos pecadores. Entendeu, D. Messalina? Também a senhora! Sugiro Feliciano, o nome do fundador da província. Faremos um referendo. Daí que na eleição para presidente da província também se votou a troca do nome Falocidade para Feliciano.
Bem, sábado, véspera da eleição, a campanha pegando fogo, os candidatos tomam rumos diferentes na questão do referendo. Marquinhos, em mãos uma sondagem que mostra a vitória do nome Falocidade e que tal simpatizante também vota nele, acha-se vitorioso e tenta fidelizar os eleitores. Faz entusiasmado discurso e afirma que não há motivo para mudar o másculo nome Falocidade. Esse tal de referendo é ideia de fresco, de maricas. Meu eleitorado é composto por gente fiel, homens e mulheres verdadeiramente machos e fêmeas. Afeminados, sapatões e chifreiras façam favor de votar no neto de Marquinha, reforça ele, alto e bom som, terminado o arroto de arrogância: votem com a lealdade, levem o respeito para a urna, derrotem a safadeza.
A gente fica matutando acerca dessa fala de Marquinhos do leite. Pra dizer aquilo, ele só pode estar bastante seguro da vitória. Era compreensivo Marquinho ter sido contra o referendo, porquanto a população adora o nome da província e gosta da putaria do nome Falocidade. Embora, em alguns momentos, certos moradores se façam de melindrados. Mas é tudo migé. Chamar, porém, o eleitor de Luizinho de fresco e chifreira esbofeteava a boa educação, ainda que essa prática também vivesse sendo esmurrada por todos de Falocidade.
Luizinho do peixe percebe a euforia de Marquinhos, aproveita-se do preconceituoso discurso do adversário, afirma que Luizinho não tem condições de governar povo tão autêntico, diz que quer o voto do afeminado, do sapatão, da chifreira e arremata assim: votem com a consciência, levem a autenticidade para a urna, derrotem o preconceito.
É nesse clima que a população vota. Vota, mantém o nome Falocidade, mas anula o voto para presidente da província. Explica-se: 95% dos votos foram dados a Luizinho, mas havia manifestações proibidas pelo chefe eleitoral. Entre os diversos rabiscos, estes se destacavam:
Adoro o verbo de Falocidade. Amo a vage de Vaginha. O que é meu de todos é. Fora a mesmice.
O resultado serviu para esclarecer o comportamento enrustido de Feliciano, o fundador do lugar, justificou as turrentas “intrigas” entre os ascendentes falocianos, abonou o irônico risinho de D. Messalina, ao confundir babel com beréu e avalizou a perversão embutida no braço de bananeira. Ah, e mostrou que a língua presa de Feliciano não era tão presa assim.
Pelo visto, o aspecto cultural pesou na decisão dos eleitores. O povo de Falocidade gostava mesmo de uma sacanagenzinha. Mas não resta dúvida de que era um eleitor honesto.

Abril/14
TC