quinta-feira, 22 de maio de 2014

A COPA DO MUNDO DOS MEUS DEDINHOS



A COPA DO MUNDO DOS MEUS DEDINHOS

Existem pessoas que conversam com os botões, outras consultam o travesseiro, algumas confabulam com os dedos. Pertenço ao bando dos dedos. Pouca gente sabe, mas botei até nome nos cinco assistentes. Bião e Mião, por exemplo, conhecidíssimos de Adauto e Janice, são os paus-mandados que agora estão tocando as teclas do notebook. Cerão, Becão e Chatão completam a confraria. De nascença, Cerão chama-se Mindinho; Becão, Seu Vizinho; Bião, Maior de Todos; Mião, Fura Bolo; Chatão, Cata Piolho. Na maternidade do povão, diga-se, já que o batismo anatômico lhes deu registros diferentes.
Pois bem, estávamos de saída para uma oficina literária. Dado o ambiente da oficina, pedi-lhes que se trajassem convenientemente. Todos apostos, esperávamos o Mindinho. Nisso, Mindinho aparece socado num macacão sujo de óleo. Fato é que o Mindinho é meio mouco, daí não ter mentalizado a locução correta quando lhe falei “oficina literária”.
Meus auxiliares são cheios de cacoetes, digamos assim. A mania do Mindinho, o Cerão, é coçar o ouvido. Já Seu Vizinho, o Becão, é formal ao extremo. Vive de beca e tem o costume de usar discreta argola a fim de exibir seus compromissos com alguém. Maior de Todos, o Bião, é o safado da turma. Cultiva a insanidade de se estirar, num gesto obsceno, segundo sensíveis pessoas. Além de inquieto. O bicho não para, gente. Adora mexer, coçar. Diverte-se gozando com a cara dos outros. Fura Bolo, o Mião, passa o tempo estudando Direito. Vive apontando os deslizes dos colegas. Cata piolho, o Chatão, tem uma preguiça que nossa! O vocabulário dele resume-se a ok e não ok. Deram-lhe o apelido de Chatão por causa da cabeça chata.
Afinal, saímos para a oficina. A palestrante deu várias dicas de construção literária, sobretudo da organização escritural, mas se omitiu acerca do principal: o pontapé de tudo, o início da criação, o pensar da história. Por isso o Bião perguntou: “A senhora pode dar uma dica de como criar uma prosa, bolar a ideia, aguçar a imaginação? Por exemplo, quero escrever um texto erótico. Posso até pensar na senhora, mas aí...”
A plateia caiu na risada. A escritora sorriu amarelo, ensaiou uma resposta, mas não disse nada com nada. Aplaudi a intervenção do Bião. Principalmente a indagação de como enraivecer a imaginação. Aprender a mentir, ter uma ideia e dela desenvolver algo ficcionalmente aceitável é o meu sonho. Por isso estava ali. Mas cadê? Minha imaginação é um zero à esquerda, vive dormindo, tranquila, nada a enraivece. A réplica da moça nem de longe a aborreceu.
Bom, para não aborrecê-los mais, direi agora como terminou a oficina. Sucedeu que a professora aproveitou o clima de Copa do Mundo no Brasil e pediu que cada aluno escrevesse um microconto a respeito do evento. Microconto, sabem vocês, é dizer muito com poucas palavras. É a vitória das entrelinhas. Representa precioso exercício para o intelecto do leitor, visto ser dele a responsabilidade pelo preenchimento das lacunas contextuais. “Copa do Mundo, gente. No máximo quarenta caracteres. Os senhores terão meia hora, ok?”
Escrevemos, sim. O primeiro a ser lido foi o do Cerão, o Mindinho. Mouquinho da silva, o danado trocou Copa por cópula e escreveu:
“Cópula no Brasil? Sei não, mas...”
O formal Becão, Seu Vizinho, saiu-se com esta:
“Tudo bem. E outros compromissos?”
O depravado Bião, o Maior de Todos, nada escreveu. Preferiu desenhar. Fez uma caricatura em que se encontra em posição de sentido, mas apoiado nos irmãos Seu Vizinho e Fura Bolo. Sensacional o gesto do desavergonhado.
O certinho Mião, o Fura Bolo, redigiu:
“Há muitos furos nos meus apontamentos”.
O monossilábico Chatão, o Cata Piolho, passou dos limites e escreveu:
“Meu ok para os incontáveis não ok”.
E eu? Sai-me assim:

Não escrevi nada, pessoal. Não já lhes disse que a minha imaginação é zero? Mas, para não dizerem que não tomo partido, direi o seguinte:
Relaxemos e gozemos. Dá-lhe, Seleção!

Maio/14

TC