quinta-feira, 15 de maio de 2014

CRUÉIS DESAMOLADAS NO MACHADO DE ASSIS


CRUÉIS DESAMOLADAS NO MACHADO DE ASSIS


Não sei se o nobre leitor está acompanhando a controvérsia envolvendo a escritora Patrícia Secco e o meio intelectual brasileiro acerca de O ALIENISTA, festejada obra de Machado de Assis, publicada em 1882. A escritora acha a linguagem do conto complicada e quer simplifica-la, ao tornar as frases mais diretas e substituir palavras. Sagacidade, por exemplo, vira esperteza. Supõe a escritora que a ação editorial fará o leitor iniciante se interessar pela leitura. Com incentivos do MEC, a primeira tiragem, de trezentos mil exemplares, está prevista para junho deste ano.
Ocorre que parte da população acadêmica é contra a iniciativa, principalmente, alega, por descaracterizar a obra do grande Machado. Está rolando na internet, li agora, um movimento pedindo ao MEC que impeça a publicação. Já conta com mais de seis mil votos. Certo é que está montada a polêmica.
Matutava sobre o quiproquó, então lembrei-me do primo Bião, especialista em Machado. Queria a opinião dele. Bião, inclusive, obrigou-me a postar sacana texto sobre uma crônica de Machado. O texto mexe em “A CARTEIRA DE MACHADO DE ASSIS” e foi postado aqui em 13/11/11. Não ponho o link porque o bicho não quer vir.
Bom, liguei para o Bião. Bião, envelopezinho na mão, chegou, entrou de casa a dentro, serviu-se de largona dose de uísque, aboletou-se numa cadeira e bafejou logo o sou contra. Não me deixou falar e continuou:
“Sou contra, primo. Machado demorava um tempão
para se decidir por uma palavra. Decidido, abria um sorriso e fechava a sentença. Só a esposa, D. Carolina, podia alterar alguma coisa. Daí que ele não vai concordar com a mexida da escritora. De mais a mais, como dizia ele e dizes tu, Tião, eu, a torcida do Fluminense e a da seleção brasileira sabem que ninguém vai ler Machado só por causa dessa cutucada na obra dele. Isso é conversa pra boi dormir. Leitura, Tião, é hábito. E hábitos são criados, não montados. Não são boatos de que os escassos hiatos de Machado serão tapados que farão os incautos alienados lerem O Alienista. Machado, morto vivo que é, sabe disso mais do que ninguém.
Machado deve estar bolando um texto sobre a ideia da moça. O bruxo era mestre em brincar com enredos, Tião. Transformava em literatura os fatos do dia a dia, escrevia duas, três versões e publicava a que o deixava bem na fita.
Tá vendo este envelope? Aqui tem um texto que meu bisavô me deu. É de 16 de junho de 1888. Refere-se a um requerimento dele a fim de tirar uma licença na Câmara Legislativa. Meu bisavô endereça o requerimento a Machado, recebe brutal despacho de reprimenda, mas Machado publica, e assim passou para a história, um despacho que o torna simpático. É a vida, Tião. Pegue, leia os dois despachos.”
Li, leitor. Ri da sagacidade (ou seria esperteza?) de Machado e a apresento agora a você. Primeiro o requerimento histórico, o que ficou conhecido, em seguida o original, aquele em que Machado espinafra Simião, o bisavô de Bião.
São duas delícias. Boa leitura.
Maio/14
TC

16 de junho
                                Bons dias!
                                Recebi um requerimento, que me apresso em publicar com o despacho                        que lhe dei:
“Aos pés de V Exa. vai o abaixo assinado pedir a coisa mais justa do      mundo.
Rogo me preste atenção por alguns instantes; não quero tomar o precioso tempo de V Exa.
Não ignora V. Exa. que, desde que nasci, nunca me furtei ao trabalho. Nem quero saber quem me chama, se é pessoa idônea ou não; uma vez chamado, corro ao serviço. Também não indago do serviço; pode ser político, literário, filosófico, industrial, comercial, rural, seja o que for, uma vez que é serviço, lá estou. Trato com ministros e amanuenses, com bispos e sacristães sem a menor desigualdade. Cheguei até (e digo isto para mostrar atestados de tal ou qual valor que tenho), cheguei a fazer aposentar alguns colegas, que, antes de mim, distribuíam o trabalho entre si, distinguindo-se um, outro sobressaindo, outro pondo em relevo alguma qualidade particular. Não digo que houvesse injustiça na aposentadoria: estavam cansados, esta é a verdade. E para a gente de minha classe a fadiga estrompa e até mata.
        Ficando eu com o serviço de todos, naturalmente tinha muito a que acudir, e repito a V. Exa. que nunca faltei ao dever. Não tenho presunção de bonito, mas sou útil, ajusto-me às circunstancias e sei explicar as ideias.
        Não é trabalho, mas o excesso de trabalho que me tem cansado um pouco, e receio muito que me aconteça o que se deu com os outros. Isto de se fiar uma pessoa no carinho alheio, na generalidade dos afetos, é erro grave. Quando menos espera, lá se vai tudo; chega alguma pessoa nova e (deixe V. Exa. lá falar o João) ambas as mãos da experiência não valem um dedinho só da juventude.
        Mas vamos ao pedido. O que eu impetro da bondade de V. Exa. (se está na sua alçada) é uma licença por dois meses, ainda que seja sem ordenado; mas com ordenado seria melhor, porque há despesas a que acudir, a fim de ir às águas de Caxambu. Seria melhor, mas não faço questão disso; o que me importa é a licença, só por dois meses; no fim deles verá que volto robusto e disposto para tudo e mais alguma coisa.
        Peço pouco, apenas um pouco de descanso. Deus, feito o mundo, descansou no sétimo dia. Pode ser que não fosse por fadiga, mas para ver não era melhor converter a sua obra ao caos; em todo o caso a Escritura fala de descanso, e é o que me serve. Se o Supremo Criador não pode trabalhar, sem repousar um dia depois de seis, quanto mais este criado de V. Exa.?
        Não faltará quem conclua (mas não será o grande espírito de V. Exa.) que, se eu algum direito tenho a uma licença, maiores e infinitos têm outros colegas, cujo trabalho é constante, ininterrupto e secular. Há aqui um sofisma que se destrói facilmente. Nem eu sou da classe da maior parte de tais companheiros, verdadeira plebe, para quem uma lei de Treze de Maio seria a morte da lavoura (do pensamento); nem os da minha categoria têm a minha idade, e, de mais a mais, revezam-se a miúdo, ao passo que eu suo e tressuo sem respirar.
 Contando receber mercê, subscrevo-me, com elevada consideração, de V. Exa. admirador e obrigado verbo Salientar.

O despacho foi este:

Conquanto o suplicante não junte documentos do que alega, é, todavia, de notoriedade pública o seu zelo e prontidão em bem-servir a todos. A licença, porém, só lhe pode ser concedida por um mês, embora com ordenado, porque, trabalhando as Câmaras Legislativas, mais que nunca é necessária a presença do suplicante, cujo caráter e atividade, legitima procedência e brilhante futuro folgo em reconhecer e fazer públicos. Se tem trabalhado muito, é preciso dizer, por outro lado, que o trabalho é a lei da vida e que sem ele o suplicante não teria hoje a posição culminante que alcançou e na qual espero que se conservará honrosamente por longos anos, como todos havemos mister. Lavre-se portaria, dispensados os emolumentos.
                               
                                Requerimento do bisavô de Bião, o Sr. Simião 
Assim redigiu Machado de Assis:
Recebi um requerimento, que me apresso em publicar com o despacho que lhe dei:

“Senhor chefe, peço que dê um despacho e a seguir leia esse pedido abaixo.
Escute só, desde que me entendo de gente que trabalho. Nunca tirei uma licença aqui, ainda que trabalhe feito um jumento de carga. Num enjeito serviço, venha ele de ministro escrevente, bispo, o escambau. Sou pau pra toda obra. Veja o senhor que vários colegas que distribuíam trabalho entre eles aposentaram antes de eu. Estavam cansados, é verdade. E para a gente de minha classe a fadiga deixa a gente mocoronha e até mata.
Vai que adoeço, chega um João qualquer aí a minha experiência vai pro espaço, num vale um tostão furado. Daí eu não poder esperar pela sua boa vontade e estar pedindo uma licença por dois meses, acompanhada de uma graninha que é pra eu tomar umas caiebas, se é que é o senhor que manda neste assunto. O senhor vai ver como volto maneiro e disposto pra tudo e mais alguma coisa.
Peço pouco, apenas um pouco de descanso. Deus, feito o mundo, num deu um tempo no sétimo dia? Pode ser que não fosse por fadiga, mas para ver não era melhor converter a sua obra à bagunça; em todo o caso a Escritura fala de descanso, e é o que me serve. Se o homem lá de cima não pode trabalhar, sem repousar um dia depois de seis, quanto mais este criado velho, né?”
Contando com a sua vontade,
Simião Silva

O despacho de Machado foi este:
O suplicante não faz por merecer a sinecura apostada, porquanto mostra-se deveras desastrado no que tange à hierarquia funcional e ao cuidado linguístico. Se diz incansável labutador legislativo, o que nos induz a pensar em cioso podador da linguagem, mas começa me pedindo um despacho e a seguir a leitura do pedido abaixo. Então, ilustre Simião, emitiria eu o despacho sem ler o correspondente pedido? E “esse” pedido abaixo, nobre Simião? Pode? E os desnecessários “uns”? Num deu tempo, mocoronha, escambau, caebas? Que é isso, prezado Simião? Isso para não citar outras aberrações, a exemplo de “entre eles aposentaram antes de eu”.
Senhor, Simião, V.exa. precisa estar ciente de que as palavras acomodam-se num contexto, têm almas, emocionam-se. De outra parte, choram, enraivecem-se e esperneiam quando expulsas do aconchego paterno ou materno. Que sejam abraçadas as palavras novas, até as sórdidas usadas por V. Exa, mas é de bom alvitre acarinhar as antigas. A velhice merece respeito, Sr.Simião. Entrelacem-se as mãos, pois. O senhor não pode dirigir-se a mim com vocábulos tão picarescos e ficar impune. Desculpe a reprimenda. De mais a mais, necessito dar-lhe essa ensaboadela para não passar por omisso. Não conte com o incentivo deste escriba. O porvir é cheio de arapucas, Sr. Simião.
Destarte, negaceio o pedido.
Lavre-se a Portaria e abata-se os emolumentos na próxima féria do suplicante.
Joaquim Maria Machado de Assis