quinta-feira, 8 de maio de 2014

DESCULPE, MÃE




DESCULPE, MÃE

Imaginei que daria certo. Por que não daria? Por que a gestação não redundaria em sucesso? Mas sempre há risco. Risco que precisaria ser enfrentado, pois não costumo me amedrontar com nada. Enfrentaria possíveis ameaças em busca do fruto perfeito. Não temia que alguém achasse a minha concepção troncha e feiosa. O que danado parece feio quando confrontado com a altiva beleza? Nessas horas, feioso mesmo é o julgamento de feio. Não existe motivo, porém, para condenar o parecer do contra. A crítica jamais deverá ficar no presídio da mente.
Encontrava-me na cama, o sítio ideal para a criação,
mas não necessariamente o único, haja vista rede e sofá também quebrarem o galho. Fechei os olhos, impus-me um volver e me vi dez anos atrás, quando tudo começara. Do namorico adveio o compromisso e daí a paixão. Neste momento, no aconchego do colchão, esperaria o ápice dessa idolatria. Imaginava, por assim dizer, o que em questão de minutos sairia de mim e ganharia o mundo. Ou, à luz, como ensina a gramática para anunciar o momento em que a mulher pare, torna-se mãe. Descansa, segundo o antigo linguajar de meu interior. “Fulana de tal descansou”. Cansei de ouvir essa aliviada sentença.
Dei uma piscadela e vislumbrei uma senhora de branco segurando um estojo. Pareceu-me Clarice Lispector.  Não era. Agora era um homem. Era Flaubert. Mas não segurava estojo. Segurava um livro. Arregalei os olhos a fim de tirar a dúvida. Os dois haviam desaparecidos. Meiguice e ousadia deixavam-me sozinho. Peguei o bloquinho de papel, rabisquei algumas maluquices e fiquei matutando acerca das visitas fantasmas. Passei, sem exagero, mais de uma hora me remexendo na cama e nada de o mote aparecer, mesmo com a aparição da Clarice e do Flaubert. De repente comecei a sentir uma dorzinha na região lombar, acompanhada de cólicas. Mas não passaram três minutos e o desconforto foi embora.
Fiquei preocupado. Sem dúvida, as dores nasciam do empenho em eu gestar algo primoroso. Começava a antever o fracasso nesses sintomas. É o sinal de que o mote que germinará o texto sobre o Dia das Mães não virá. O literário fruto perfeito é tão somente um sonho. Pensava assim, então escutei a algazarra da turma que preparava um churrasquinho no quintal de casa. Não contei conversa e pulei da cama. Tomaria generosa lapada de uma caninha de primeira cabeçada. A última tentativa, pensei. Se o mote não surgir por força da aguardente está mais do que na hora de desistir.
Jamais sentira tamanha lerdeza para redigir uma prosa. Como disse, sou apaixonado pela literatura. Idolatria total. Escrevo, espero ser lido, é evidente, mas a minha avaliação está em primeiro lugar. Se alguém achar o texto troncho ou feioso é problema dele, embora acate o julgamento numa boa.
Meu método de escrever começa com um mote, a ideia central do texto. Com ele em mente, escolho uma frase de abertura e dois dos dedos – Bião e Mião - encarregam-se de tocar a obra. Não planejo nada para dali até o fim do texto. Uma palavra puxa outra, que sorri pra outra e assim, de conversa em conversa, vão até o ponto final. Minha preocupação é que o contexto apresente a ideia predeterminada, o mote, ou o norte do que imagino. Era essa imagem que fugia de mim ontem à noite, quando imaginei escrever sobre o Dia das Mães, a ser comemorado domingo, onze deste maio de 2014.
 Escreveria sobre as mães, mas distante da pieguice do dia de festa. O mote era escriturar o Dia das Mães sob a ótica delas e não a dos filhos que as presenteiam. Porque iguais - diferente só o endereço -, sabem elas que a data é simbólica e que as mensagens midiáticas, conquanto bem intencionadas, são artificiais. Perseguia eu o mote do sublime, do celestial, do encantador, do supremo, do magnífico. Imaginava chegar ao íntimo da alma materna e fazer aflorar tais sentimentos neste textinho. Cada um com a correspondente emoção.
O que sente a mãe ao contemplar o filho? Pensava que ao ler meu escrito as mães dissessem algo assim: Minha nossa! Mas que prosa mais verdadeira. Esse rapaz acertou em cheio. É desse jeitinho que vejo meus filhos. Então elas se juntariam, ririam, chorariam e diriam pro mundo. Viram o que sente uma mãe?
Mas fracassei. Já ia na sexta emborcada, no terceiro espetinho e nadica de nada da alma materna. Meio tonto, peguei o notebook e passei a registrar a frustração que hora você lê. Qual a explicação para a descomunal incompetência?, perguntei-me, esvaziando a nona lapada.
Há sentimentos só explicáveis pelo dono, meu caro, falou alguém, a voz parecidíssima com a do Freud. E continuou: sabes, por acaso, o que sente a criança quando lhe tiram um brinquedo? E o condenado à morte que vê passando os minutos finais? Então! Como queres conhecer o sentimento da responsável por botar no mundo esses personagens? Da mesma forma que a mãe de nada tem culpa, culpa não deves ter por não conseguir descrever os sentimentos dela. A coisa é complexa, meu caro. A humanidade é cruel e inconsistente, entendeste?
Deve ser, sim, falei pra mim, aliviado pela fala do além. Escutei essas coisas ou tudo não passa do efeito da branquinha? Lembrei-me de mãe. Se ainda conosco, diria: “Tá bom. Vai beber mais não. Esse menino quando começa.... Pois não é que ia tomar a décima bicada, mas desisti?
Desculpe, mãe. Não deu certo.
Mas aproveito o embalo para mandar um forte abraço e um beijo no coração.
Ah, essas rosas vermelhas são pra você.
Cuide-se, tá?
Maio/14
TC