quinta-feira, 10 de julho de 2014

A FUGA

A FUGA

Não. Mas não, mesmo. Decidi. Não vou escrever hoje. Tampouco amanhã, nem depois, nem depois, nem, nem. Só não digo mais nunca porque estou me lembrando do amigo Jânio. Dizia ele, quando eu falava o mais antes do nunca: “Tião, nunca mais diga mais nunca”.
A origem dessa decisão é que estou tonto desde a tardinha de terça-feira, oito deste sete. Não adianta torturar a mente. A tontura me apagou, bloqueou tudo. Menos a desconcentração. Tenho a consciência de que é preciso falar, escrever, desabafar. Há muita coisa a ser dita. Só dizendo,
pode-se construir a ponte para o fazer e erguer o guindaste do destruir. E construir e reconstruir. Porque nada se constrói se antes não se destrói. Assim é a vida. O contraditório binômio está presente no luxuoso prédio, no monstruoso pensamento, no harmonioso pensar. Sei muito bem disso, mas a fixação nela me impede de falar, escrever, desabafar. Desculpem a repetição, já que essa foi a maneira que me ocorre de dizer o já dito.
Só penso em botar o matulão nas costas e sair por aí, sem lenço, sem planos, sem documentos.  Vou dar uma colher de chá ao tempo, o senhor de tudo. Talvez vá à Pasárgada. Boa ideia. Finco lá a Bandeira da desilusão, escancaro a boca cheia de dentes e espero o tempo passar.
Quanto sofrimento a lourinha me impôs, gente. Era coisa de cinco meia da tarde de terça-feira quando a vi pela última vez. Ela estava num barzinho com um bocado de marmanjos. Carmen não levou em conta nossos encontros e esfregões anteriores. Simplesmente me ignorou. Nem um olhar sequer dirigiu a mim. Era a insensibilidade em pessoa. Passou-me pela autoestima feito um trator. Uma goleada de indiferença.
A blusinha avermelhada, presente meu, lembro-me bem, que encobria os algos de mim tão íntimos, era agora a causa de meu amarelão, da apatia, das pernas trôpegas. E sabem por quê? A danada estava trocando a blusinha com outra moça. Ainda gritei:  Carmen! Mas Carmen não me deu ouvidos.
Não devo pensar mais nisso. Acabo de decidir. Vou fugir. Vou para Pasárgada mesmo. Não sei quando volto a escrever, não sou dado a previsões. Sou contrário a essas estimativas temporais.
Então até amanhã ou depois.

Julho/14

TC