quinta-feira, 31 de julho de 2014

O PRAZER SUPREMO E AS SENHAS DO HOMEM

Olá, gente,
Postei um texto ontem, cujo título era a SENHA. A postagem ficou truncada. Comeu um bocado de texto. Estou republicando a estrambelhada com novo título. Fiquem à vontade para fazer dela o que quiserem. Mas se for ler, tenha paciência. A bicha é grandona, tem quatro páginas. E desaconselhável para algumas pessoas.
Obrigado e boa leitura. Ou boa não leitura.
Tião Carneiro


O PRAZER SUPREMO E AS SENHAS DO HOMEM

            Escrever é uma danação. Um vício de descabeçado. Vivo falando nisso há tempos. O sujeito começa rabiscando e quando menos espera está viciado. Tirem a prova dos nove: são 9 e 9. Acabei de jantar. Passeei no jornal, fiquei enjoado. Andei pela televisão, enjoado fiquei. Viajei num livro, aí é que fiquei mesmo. Entediei-me legal. E em apenas 39 minutos.
              Entediado todo, ligo-me a uma redinha, ligo o computador, ligo-me na literatura.
             O jeito é escrever algo. Mas que algo?
O próprio algo, penso. Algo dá excelente crônica. Algo nos diz muita coisa. Aqui acolá a gente não diz que “algo me diz...”
“Grande babaquice essa de escrever sobre algo, meu. Criar assunto da falta de assunto tornou-se risível. Ninguém suporta mais a manjada ideia”, advertem-me meus fiéis botões.
Discordo. Falarei a respeito do amigo Algo, sim.
Mas quer saber? Antes verei se algum incauto culto acessou meu blogue, o http://www.pocilgadeouro.com/. O bicho pegou, gente. Cadê me lembrar da senha de acesso à porcaria? Não me lembrava de jeito e qualidade. Então me lembrei de inusitada sugestão lida numa revista.
A sugestão é que devemos nos distrair e esquecer aquilo que esquecemos. Faz de conta que o ato falho não ocorreu, sacou? Feito isso, o esquecido é recordado. Tirei a prova no Banco do Brasil. Eram somente três letrinhas. O esquecimento chegou no momento em que enfiava o cartão no terminal. Acabei de enfiar o bicho e nadica de nada de me lembrar das bichinhas. Virei, mexi, olhei pra cima. Breu total. A fila já me vendo burro, dedei uma senha de araque e disse ao cabra atrás de mim: “O teclado tá doidão, vê se tem mais sorte”.
Bom, saí do banco, acendi um veneno, dei umas baforadas, voltei assobiando. Mal vejo o terminal. Pimba! As três doidinhas começaram a sorrir para os meus dedos. Aprenderam? Devem-me essa, leitores.
 Pois então, com o terminal do BB na cabeça, levantei-me da tipoia, tomei um cafezinho, acendi um veneno, dei umas baforadas, voltei assobiando. Mal vejo o notebook... O resto vocês já sabem, não? Detesto repetir.
Neste momento ocorreu outra maluquice. Não estou dizendo que escrever é uma danação? A diabinha da senha lembrou-me outro episódio de senha e me fez abandonar a ideia da crônica de nosso amigo Algo. Aconteceu quando morri, vai fazer três anos agora em agosto (desculpe, Brás Cubas).
Foi assim:
Chego à sede do juízo final, entro numa enorme fila... Sim, ia me esquecendo: havia 6 acessos ao Pocilga. 2 americanos, 2 portugueses e 2 alemãs.
Como estava a dizer, entro numa gigantesca fila de adultos (crianças não entram em fila), os homens de cueca, as mulheres de calcinha. Frio de bater o queixo, a fila começa num enorme salão, pega a calçada do purgatório, enrola no oitão do inferno, termina no alpendre do céu. Isso em tese, pois a fila encontra uma triagem e se ramifica, dividindo a galera. Vou explicar como a coisa funciona.
Então! Pego a fila e vejo uma porrada de gente conhecida. A maioria por meio da imprensa, é verdade. Vocês nem adivinham quem está na minha frente, arrogante todo. Parecia o dono do mundo. Bem, a fila andando, daí a pouco o pessoal esbarra num pente-fino, controlado por um soldado, Santo Antônio. Santo Antônio fica pedindo que a pessoa ponha o polegar numa maquininha e, a depender do que observa, dá o comando:
“Limpo. Céu! Vá para aquele alpendre de flores vermelhas e aguarde as instruções. Difuso. Purgatório! Vá para aquela calçada de espinho de cardeiro e aguarde as instruções. Sujo. Inferno! Vá para aquele oitão de prego caibá e aguarde as instruções”.
No caso de o indivíduo ir para o céu, existe outra maquininha geradora de senha. O oitão do inferno é cheio de tobogãs ao lado, gente. Os pestes fedem a enxofre que só a bexiga.  Um vacilinho e o infeliz desaparece na catinga. Minutos depois Tonhão me dizia que todos terminam na caldeira 666. Bem, chegou a vez do bossal que estava na minha frente. Santo Antônio nem precisou da digital do infeliz. Mirou-lhe o focinho, estirou a língua, acionou um tobogã particular e o cara tibungo no escorrego fedorento.
Uivo ecoando, dou um passo a frente e quedo-me surpreso com a recepção:
“Toinho, seu danado. Precisa de uma senha a fim de passar na borboleta do Pedro. Ponha o polegar naquela máquina e retire a senha. Depois, entre no quarto ao lado e vista um chambre.  
“Valeu, Dr. Antônio”, agradeci, exultante com o atendimento. Não só pela alegria dele, mas também pelo carinhoso “seu danado”. A recepção me empurrou para a brincadeira:
- Tonhão, bicho, você está sendo muito cruel com a moçada. Um frio de arrepiar pinguim, aí você acha por bem deixar a galera somente de cueca e calcinha, meu? Por quê?
- São ordens do Homem, Toinho. Ninguém sabe explicar. Nem Freud. O caladão andou a fila todinha matutando e nada. Quebrou a cabeça em vão.
- Caramba! Escute, Tonhão, cadê o pessoal que estava na minha frente? Ali atrás não deu pra ouvir bem pra onde você mandou eles, de forma que... Cadê todo mundo, Tonhão?
- Foram para o oitão de pregos, nobre Toinho. Você não os vê ou porque já foram recepcionados ou porque escorregaram e entraram pelos canos, o que dá no mesmo. Ou seja, na caldeira 666. Qualquer desatenção e o cara apressa o atendimento, Toinho. Agora vá, seu danado, que a fila está aumentando. Pedro está esperando você. Próximo...
São Pedro estava cochilando, mas pressentiu meus passos:
“Toinho, seu danado. Entre. Tem que digitar a senha, do contrário a borboleta não abre. Sente-se aqui, seu danado”.
Digitei a senha, sentei-me, começamos a bater papo. Fiquei atarantado quando ele disse que no céu todos os santos tinham meu livro, o Intuitor Bião, um Homem de Palavra. Perguntei-lhe como o livrinho havia chegado lá. Por intermédio de um brasileiro, o Sr. Mindlin, respondeu. O Sr. Mindlin passou na catraca, trocou umas palavrinhas comigo, mas não despregava os olhos do livro. Curioso com tamanho apego, pedi para dar uma olhadinha, li a orelha, interessei-me pela história e pedi um exemplar, já que o Sr. Mindlin me dissera que tinha um de reserva. Mostrei o Intuitor ao Mestre, Ele gostou, mandou digitalizá-lo e deu o endereço eletrônico a todos daqui.
Sobre o porquê de eu estar sendo recebido tão bem, São Pedro riu e alegou que eu era bem-aventurado por já ter sido cobrador de impostos e por conversar com animais. Engraçada foi a resposta ao saber que, ao contrário do céu, na terra quase ninguém lia meus livros. Gracejou ele:
“Então, seu danado, você não sabe que santo de casa não faz milagres?” Conversa solta, mas passados longos minutos, eis que aparece uma jovem senhora:
- Digite a senha, minha filha. Cuidado para não errar, senão terá que estagiar no purgatório. Pode fazer três tentativas, filha. Não tenha pressa. Pelo visto apenas vocês dois entrarão hoje aqui. Aliás, esta catraca está ociosa faz um tempão.
Desconheço se a moça conseguiu entrar, pois precisei me retirar assim que potente voz ecoou no serviço de som:
- Pedro?
- Sim, Senhor.
- Por que não mandou o Toinho vir a mim?
- Perdão, Senhor. Começamos a resenhar o livro dele, o tempo foi passando... Mas ele já vai. Vou mandar o Gabriel deixá-lo aí.
- Assim seja!
Dali a segundos, eu nas asas do Gabriel, estava sendo recebido por Ele.
- Toinho, seu danado, como vai você? Como vai é força de expressão, não é, seu danado! Sei que está bem. Amei seu livro, viu? Você vai voltar para a terra, Toinho. Tem uma missão lá. É o seguinte, meu nobre danado...
Evidentemente que não posso lhes revelar tudo de tão sublime confidência. Mas posso adiantar dois pedidos Dele:
Que, nos meus escritos, a exemplo do escancarado no livro Intuitor Bião, eu insistisse em chamar a atenção para o principal dever dos governantes: proporcionar serviços de qualidade à população. Notadamente na área de Saúde.
Que permanecesse firme em mostrar a força do sexo, porque soberano, a fim de que as pessoas o praticassem sem preconceito, e que deixassem para o responsável livre-arbítrio, porque a imagem Dele, a missão de comandar as iniciativas sexuais.
Ele foi comigo até a porta:
- Tome esta senha. É a senha celestial. Qualquer dificuldade, digite-a mentalmente que resolvo o problema. Dificuldade, Toinho, e não a intolerância de seus irmãos. Para a intolerância, digite esta aqui, a senha mundana. Guarde os papeizinhos, só os abra no retorno a terra. Agora vá e continue escrevendo, seu danado.
- Senhor...
- Diga, Toinho.
- Bom, é, é.., bom, vou perguntar. O senhor responde se quiser. Mas... Mas por que o senhor deixa aqueles pobres só de calcinha ou de cueca no frio infernal daquela fila?
- Você é danado mesmo. O frio não é infernal, Toinho. É celestial. Preciso contextualizar a coisa, mas serei breve. Veja. Antes de viajarem pra cá, vocês tiveram cinco segundos de transição. Todos transitaram naquele espaço cósmico. Esse tempo lhes serviu para excluir da mente os atos cometidos. Eles foram apagados, independemente da natureza ou de como vocês os rotulavam. Então vocês viajaram sadios, limpos, puros. Em estado natural, por assim dizer, exceto num detalhezinho. Então vocês chegaram aqui pensando serem sadios, limpos, puros. Está entendendo, seu danado?
- Apenas balancei a cabeça, todo arrepiado.
- Pois bem. Só que nos cinco segundos da transição, todos os atos de vocês... Repito, todos, caíram naquela maquininha do Antônio e geraram uma estatística com gráfico e tudo. Daí ele olhar o gráfico e dar o encaminhamento apontado. É isso, Toinho.
- Data vênia, Senhor. Mas o senhor não respondeu...
- Sobre a variável frio. Tô ligado. Estava testando você. Adoro testes, Toinho.
- Lembra que disse que vocês chegaram puros, sadios, limpos, em estado natural, por assim dizer, exceto num detalhezinho?
- É claro.
- Pois! O detalhezinho, Toinho, é o prazer sexual. Isso não foi apagado de vocês. Vocês chegaram aqui com ele, portanto. Como a fila da triagem é única, e é única de propósito, como de propósito são as vestimentas íntimas, precisei criar aquele frio.
- Agora deu a... Desculpe. Não entendi nada, Senhor.
- Porque ainda não expliquei, seu danado.
- O prazer sexual, Toinho, é a origem de tudo. Vocês precisam dele para fins de reprodução e a consequente perpetuação da espécie. O sexo é tão somente o instrumento da operação. Sem o prazer, vocês não se sentiriam atraídos e adeus espécie humana. Há algo mais horrendo do que um apêndice de cabeça esfolada e um triângulo cortado? Essa feiura também é explicável, Toinho, mas não precisa ser agora.
Perceba, Toinho, que vocês estavam na fila com o prazer sexual ativo. De mais a mais – aprendi essa expressão em seu livro, Toinho -, aquela fila representa o último resquício cósmico. Logo, é de extrema importância que seus membros estejam concentrados e que o clima solene prevaleça. Ocorre que vocês deveriam estar aqui sem sinal algum de onde vieram. Ou seja, despidos. Essa era a ideia original. Sabe, Toinho, você é um tremendo sedutor. Só encontro essa explicação para estar abrindo os meus arquivos. Então! Nus, porém, o risco de uma pegada seria iminente. Por isso, as vestes mínimas.  Com essa providência, reduzi o risco da pegada a meros olhares lânguidos. O frio de bater o queixo serve para inibir ações de olhares lânguidos mais afoitos. Entendeu, seu danado?
- Entendi. Uma equação e tanto. Ninguém perde o tesão, mas ninguém pega ninguém. É muita cabeça, Senhor. Agora me diga. Por que tamanho cuidado, se todos ali já deram o que tinham de dar? Deram o que tinham de dar no bom sentido e literalmente, porquanto ao passarem pela máquina do Tonho, o ambiente que os aguarda, o inferno para a maioria, não permite usufruir do tesão.
- Aí é que tá, Toinho. Existe um especial acoplamento naquele instante. Funciona desta forma: no exato segundo em que alguém põe o dedo na maquininha do Antônio - e os registros terrenos são expostos – um ser humano acaba de ser gerado na terra. Com uma particularidade. Tal geração foi a primeira de alguém, seja a da mulher, seja a do homem, e pode ter acontecido em qualquer lugar. Mais: a máquina expõe as estatísticas, mas as deleta tão logo o Antônio dá a sentença. Ao mesmo tempo, ela já coleta o DNA do ente em gestação. É lógico que isso só acontece se a pessoa estiver ativada sexualmente. É lógico também que para um segundo filho daquele casal ser gerado não precisa de dedo em maquininha nenhuma, posto a matriz genética já ter sido desenhada.  Entendeu direitinho, seu danado?
- Entendi, Senhor. O dedo na máquina do Tonho é o momento crucial. Botou o dedo, fu... Desculpe, Senhor. Quer dizer, enquanto aqui o cara se acaba para sempre, lá na terra tem sempre alguém começando.
- É isso mesmo, Toinho. Tive que proceder dessa maneira para que a humanidade não viesse a sofrer solução de continuidade. Do contrário, vocês não existiriam. A espécie teria sido extinta na primeira geração. Ela subsiste apoiada no extremo prazer sexual. O único prazer que não se esgota por causa da rotina. Entendeu de novo, seu danado?
- Entendi, mas não entendi, Senhor. Sou meio burro para certas coisinhas, sabe? O senhor acaba de dizer, se entendi bem, que a rotina não acaba o prazer sexual. Por que, então, o senhor permite que a galera fique dando seus pulinhos? Ora, se dão os pulinhos é porque o prazer foi pro espaço, digamos assim, e alguém enjoou o parceiro ou parceira. O senhor devia ter bolado alguma coisa nesse sentido. Posto uma trava, a exemplo do que fez com a turma da fila. Já que não proibiu as puladinhas, o senhor as permitiu. Concorda comigo?
- Isso é pura provocação. O prazer é universal, Toinho. No seu discurso, ele apenas trocou de cama. Permanece, portanto. A pergunta é: por que trocou? Aí entram as variáveis estritamente individuais. Faltou diálogo, amor, companheirismo etc. etc. etc. Não vejo problema nessas trocas, Toinho. Bastam que sejam feitas com a verdade e consenso. E continuo não enxergando problemas, mesmo que não haja consenso. Só vejo problemas se o norte da coisa tiver sido a mentira, pois ela pode dar origem a sinistros eventos. 
Você falou de trava e de minha permissão. Entenda de uma vez por todas, Toinho. Coordeno dois ambientes. O habitado por vocês e este aqui. Aqui as iniciativas são minhas. Daí eu pôr a trava que me convier. Lá as iniciativas são dos senhores, ainda que de meu conhecimento. Forneço-lhes as linhas gerais de administração, oriento-os nas tomadas de decisões, indico-lhes o dia a dia menos espinhoso. Ajo assim, mas o comando é de vocês. Isso se chama livre-arbítrio, Toinho. Vocês são meus representantes, de certa forma são eu, mas são autônomos. Já imaginou que coubesse a mim, e somente a mim, a diretriz sexual de cada um? Isso para não citar questões mais complexas. Aí vocês não seriam vocês. É difícil de entender essas coisas, Toinho? Está vendo por que não posso usar nenhuma trava, seu danado?
- Tô. Mas o pecado não é uma trava não, Senhor?
- Ah, Toinho. Vai terminar pirando se eu falar de pecado com você. A conversa está boa, mas está na hora de eu dar uma esticadinha nas pernas, viu ser danado? Agora vá.
Té mais.
Ele falou, deu-me carinhoso empurrão e lá vem eu. Na gostosa banguela, abri os papeizinhos da senha e li. Senha celestial: AMOR. Senha mundana: PRAZER.
Juro por tudo que não é sagrado que até hoje desconheço o motivo para que todos ali me chamassem de “seu danado”.
Será que é por que considero o ato de escrever uma danação?

Julho/14

TC