quinta-feira, 7 de agosto de 2014

A DESPEDIDA DO ZÉ

Olá, gente,
Vocês já devem ter percebido que sou meio juju nesse negócio de blogue. Por exemplo, não consigo pôr figuras nas postagens. Outro. Os parágrafos. Aqui acolá os bichos aparecem desalinhados, mesmo alinhados na passagem do word para o blogue. O Pocilga, aliás, foi criado na marra. O Google dizia faça isso, faça aquilo, faça assim, faça assado. Então eu fiz tal qual ele orientou. Mas ainda me atrapalho num bocado de coisas. De uns tempos pra cá, o danado deu para excluir postagens. Acho que teclo em algum botão e o insensível manda certas postagens caírem no buraco negro. Agora mesmo dei por falta duma postagem de outubro de 2013. Vou republicá-la.
Um abraço e boa leitura,
Tião


A DESPEDIDA DO ZÉ

Fiquei bege, como costuma falar uma amiga.
Atônita, vi meu marido fechar a cara e comprimir os punhos. Insensível aos gestos, Zé Feinho parecia de gelo. Carlão quis se levantar. Puxei-o pelo cós das calças. Não seríamos protagonistas de barraco num restaurante chique daqueles.
“Como é que é, Zé Feinho?”, a voz do Carlão soou espremida, o trincar de dentes como aliado:
“Não. Só uma coisa me salva, Carlão. Comer essa aí, a sua mulher, a Lurdinha”, repetiu o imoral, a pouca vergonha como parceira.
De dedo estirado, fui me levantando. Carlão me fez sentar e aconchegou-me pertinho dele. Era a sua vez de impedir o barraco.
Eu e o Carlão temos a mesma idade. Vinte e oito anos, três de casados. Zé Feinho tem quarenta e seis, todos de solteirice. Somos de São Mateus, cidadezinha do interior. Marcão e eu somos professores. Zé Feinho trabalha de serviços gerais no colégio onde dou aula, emprego arrumado por mim. Zé Feinho é mais do que conterrâneo e amigo.
É de minha casa, embora more sozinho, a dez quilômetros de distância. Quando toma as caiebas pesadas dorme na nossa sala, assim como o faz nos fins de semana em que estamos ausentes. Zé não estudou, mas tem uma inteligência prática sem limites. Todo defeito lá em casa é ele quem conserta. Nada cobra, mas o gratificamos.
Aí um homem desses dá tremenda chibatada em nossos brios, como se o desejo carnal tivesse visto a lasciva tramela arreganhada. Olhei bem a babugem da cara do infeliz, o pé de ódio se agigantando no leirão mental.
“É verdade, Lurdinha. Quero te comer”, vomitou o verme, sem ao menos se coçar perante as faíscas de meus olhos.
Peguei um prato disposta a jogar na fuça do Zé. Mas não joguei. O taradão foi salvo pelo beijo que o Carlão me deu. Ante o olhar invejoso do sacana, Carlão fez uma careta e apanhou um copo disposto a atirar no focinho dele. Mas não jogou. O devasso salvou-se pelo carinho que fiz no Carlão. Carlão ainda teve estômago para perguntar se fazia muito tempo que o animal sentia tesão por mim:
“Um ano e doze dias”, respondeu a precisão do cínico.
Surgira numa tarde de sábado, quando aparava a grama do jardim nas vizinhanças de nosso quarto. Escutara gemidos, o som mais belo que já ouvira, visualizara a cena, queria esquecê-la, mas a imaginação não deixava.
 “Então cheguei a este ponto. Estou sendo sincero, desculpem”.
Carlão lhe fez outras perguntas, porém só retive fragmentos das respostas. Pensava no ponto mencionado pelo Zé Feinho: a obsessão sexual.
Havia mais ou menos um mês que o Zé Feinho se despedia dos amigos. Começou por aqueles que via esporadicamente. Dizia-lhes que na sexta-feira, treze do mês seguinte, iria fazer uma viagem sem volta. Falava, abraçava-os, deprimia-se. Soubemos disso por meio de um amigo comum. Apenas sorrimos, pois o Zé é chegado a esse tipo de brincadeira. Até que ontem, terça-feira, ele começou a se despedir dos companheiros de colégio. Os colegas se aperrearam - Zé Feinho parecia não estar brincando - e comentaram comigo. Conversamos, eu e o Carlão, e julgamos por bem convidá-lo para almoçar fora. Tencionávamos passar a história a limpo. Rodeamos a conversa, o Carlão entrou no assunto.
Zé Feinho respondeu que ia se matar, sim. Confessou-se chateado, já que algumas pessoas achavam que ele era gay, mas esse não era o motivo. O motivo era a paixão. Estava apaixonado por uma amiga. Vivia sonhando com essa mulher. Possuí-a na imaginação. Não mais suportava vê-la diariamente e não poder tocá-la. A vida não tinha mais sentido. Só queria transar com a dama uma vez. Depois disso se mandaria no meio do mundo e pronto. Não seria difícil pegá-la a força, mas assim ele não queria. Queria que ela o beijasse e gemesse tal qual ele escutara certa vez. Como sabia que esse cenário era impossível, optara por morrer com uma peixeirada no coração.
Arrepiei-me ao ouvir a confissão e tornei-me alerta, pois o apaixonado contexto do Zé se encaixava em mim. Coisa da intuição. Mas disso o Carlão não se deu conta. Até brincou e perguntou se o Zé já se declarara para a mulher, a salvação da vida dele. Zé remexeu-se na cadeira e soltou a indecência:
“Não. Só uma coisa me salva, Carlão. Comer essa aí, a sua mulher, a Lurdinha.
Que bicho escroto, pensei, voltando ao momento. Zé Feinho devia ter dito algo mais descabido, visto a raivosa exclamação do Carlão, ainda que em tom controlado.
“Te manda daqui, porra. Vaza. Fuja de mim, tá? Foda-se pra lá!”
Mal tocamos na comida. Pegamos o carro e fomos pra casa, o Carlão de quando em quando pousando a mão em minhas pernas.
Carlão me deu uma lata de cerveja, deitei-me no colo dele e começamos a estudar o caso. Bruto do jeito que era, Zé Feinho seria capaz de cumprir a promessa de suicidar-se. Pensávamos assim, mas, ao mesmo tempo, entendíamos não ser ele capaz da atitude extrema. Apesar disso, concluíamos sempre com um “diabo é quem duvida”.
“Quero mais que ele se lasque”, repetia-me, olhando a fileirinha de latas encostada à parede.
“Mas que vamos sentir remorsos, ah, isso vamos, não é, amor?”, rebatia e repetia-se o Carlão, com a devida concordância de minha cabeça. E assim a tarde cumprimentou a noite. Preparei uma tábua de frio, Carlão preparou algo não convencional, começamos a misturar com a bebida, ficamos extasiados.
- O que danado o Zé Feinho falou que te aborreceu a ponto de mandá-lo se foder, amor?
- Perguntou se era verdade que eu era gilete, pois não queria morrer com essa dúvida.
Formamos um casal liberal, por isso muita gente imagina que a liberalidade viva avançando para a diversidade libidinosa. Se bem que ao conhecer o Carlão, eu já ouvira esse boato. Nunca dei bolas. Até porque na cama o Carlão é um homem completo.
Passava da meia noite quando demos por encerradas a farra e as conjeturas. Embora tenha ido dormir doidona, acordei na quinta-feira com a lengalenga do “vamos sentir remorsos” na cabeça. Carlão adormeceu falando isso.
Quando escovava os dentes a ficha caiu. Meu marido queria que eu transasse com o Zé Feinho. Era isso. O refrão do “vamos sentir remorsos” era a chifreira autorização, representava a ordem libertina, bancava o ok erótico. Eu seria a prancha de salvação do Zé Feinho. Ele se salvaria, apenas o ganso seria afogado.
Sei não, mas se o Carlão não tivesse dado a ordem... Sou dissolutamente humana, pessoal.
Eu ia dar aula à tardinha. Carlão tinha um compromisso às quatro horas. Nesse meio tempo, ficamos lendo e pensando no dia seguinte, a última sexta-feira do Zé Feinho. Tão logo o Carlão saia, ligo pro Zé. Cumprirei as ordens mentais de meu marido, pensava. Coisa de duas horas, Carlão vai ao supermercado comprar sorvete e sacar dinheiro.
“Volto já, Lurdinha”, avisou. Três minutos depois, eu na cozinha, escuto pisadas, viro-me e me deparo com o Zé Feinho. Tínhamos esquecido que o Zé tinha cópia da chave do portão.
Zé, mãos nas costas, olhos avermelhados, sem camisa, peixeira na cintura, jeitão de quem emborcara muitas, sorriu desdentado e perguntou se podia entrar. Tornei-me aterrorizada. Decidi que não ficaria com aquele animal. Preferia morrer a ser acariciada pelo sócio do diabo. Fiquei com nojo. Mesmo morta de medo, disse-me que precisava tratá-lo bem a fim de evitar acessos de ira.
Mandei-o entrar, é claro, e perguntei se tinha almoçado. Diante da negativa, informei que a carne tinha acabado, mas iria passar ovos pra ele comer com arroz e verdura. Falava e botava a frigideira meia de óleo no fogo. Zé entrou e foi estirando as mãos. De pernas bambas, arregalei os olhos. Era um cacho de rosas vermelhas. “Pra você”. Falou, botou a peixeira na mesa e ficou acocorado. Zé não tirava os olhos de meu shortinho curto.
“Relaxe, Lurdinha. Não vou machucar você. Só quero sentir o perfume de seu cabelo”, gaguejou, levantando-se e encarando meu short. O tesão deixava-o trêmulo e de voz estremecida. Eu também tremia. Tremia de pavor, sentia asco, respirava pânico. Mesmo assim, meus olhos se recusavam a desviar-se de tão incomum e perfurante excitação. Zé se pôs às minhas costas e aguçou as narinas. Peguei firme na frigideira. Se fizer terra, meto óleo na focinheira desse peste, pensava.
Fechei os olhos e comecei a rezar...

Escuto vozes, distantes, incompreensíveis. Onde estou, meu Deus! Será que morri? Estou num hospital? Não me lembro de nada. Ou melhor, lembro-me do Zé Feinho beijando-me os cabelos. Concentro-me e reconheço a voz de D. Zefa, a vizinha.
Ela estava dizendo que a última vez que tinha me visto fora ontem à tarde e que na boquinha da noite ouvira umas risadas e barulho de som. Depois, os galos já cantando, escutara quatro tiros. Depois disso, não tinha ouvido mais nada. Ficou inquieta, ligou pra gente, mas ninguém atendeu. Comentou o assunto com os vizinhos, aí eles acharam por bem chamar a polícia.
- Estão mortos, doutor?
- Estão, senhora. Mas de bêbados e de outros babados. Contei quatro espumantes, dois litros de uísque e cinquenta latinhas de cerveja Vamos embora, pessoal.
Ouço uns risinhos sacanas e a advertência do tal doutor:
- Vamos, senhora. Ou quer que eu afaste a mão da moça para a senhora bater a foto do pé de mesa do magricela?
Afastaram-se. Abro os olhos:
Quê?! Nossa!
Estávamos na cama, nus, os três. Zé Feinho no meio, eu com a mão esquerda nas coisas dele. No outro lado, o Carlão, rosto coladinho ao do Zé e a mão direta sobre a minha, como se estivesse a empurrá-la.
Zé Feinho parecia sorrir. Carlão também. Cambaleante, fui ao banheiro e me vi no espelho.  Estivara sorrindo, sem dúvida.

 
 Julho/14
 TC