segunda-feira, 18 de agosto de 2014

CRÔNICOS ASSALTOS E O ASSALTO DA CRÔNICA

CRÔNICOS ASSALTOS E O ASSALTO DA CRÔNICA

O rapaz com jeitão de mau postou-se perto de Cristina e botou a mão direita no bolso. Instintivamente, Cristina apertou a bolsa nos peitos e começou a rezar a fim de que o ônibus chegasse logo ou que chegassem outros passageiros.  Já fora assaltada três vezes. Vivia com os nervos derrubados, andava com o celular na calcinha, botava só uns trocadinhos na bolsa. Com o rabo do olho, Cristina viu o cabo de um revólver na cintura do fechadão. Tratou de se afastar. Não deu tempo. O coletivo estava chegando.
Subiram, o mal-encarado primeiro. O carrancudo mostrou uma carteirinha ao motorista e acomodou-se numa bancada do meio. Policial, pensou a nervosa Cristina, sentindo-se aliviada e sentando-se ao lado do aprazível protetor.  Os passageiros da frente respiraram aliviados e soltaram um imperceptível “ufa!” Afinal, todos ali já haviam passado pelos famosos e corriqueiros arrastões. Um casal daqueles - a mulher tensa, o homem sombrio - despertava milhões de suspeitas.
Eles só não imaginavam é que dali a instantes seriam assaltados.
Relaxada, Cristina tirou um papel da bolsa e começou a ler um texto que xerocara do livro Intuitor Bião – um Homem de Palavra:


RABUDA BEM-ESTAR – PROSA PARA ADULTO

Dr. Arimã Abadom senta-se e dá sonoro bom-dia. Está em majestoso conjunto arquitetônico no centro de Cristal, capital do Rio Pequeno do Norte, nordeste de Andiroba, país parede e meia com o Brasil. Dr. Arimã tem trinta anos, é bonito, simpático quando lhe convém, cruel por natureza. Esperto tal qual o capeta, é dono da Rabuda Bem-estar S/A. Tão esperto que, com vinte e cinco anos, aproveita crônico equívoco dos governantes andirobenses e funda a Rabuda. Começa na área de Educação, segundo ele, a pedra angular (o doutor adora essa expressão) da sociedade. Da Educação para a Segurança é um pulo e desta para a Saúde é um salto de pulga.
A Rabuda Bem-estar tributa 18% da renda dos andirobenses. 10% a título
de Segurança, 5% destinados à Saúde e 3% direcionados à Educação. Dr. Arimã é proprietário de grande parte do Estado andirobense. É o cão de sabido. Em relação à Saúde, o doutor, quando de pileque, costuma chacotear com as autoridades. Fala assim para os subalternos:
“Não entendo esses governantes. Deixar a população morrer por falta de assistência médica é o cúmulo da burrice. A despesa saúde, gente, é irrisória quando comparada ao retorno. O infeliz morre, deixa de produzir, eles param de arrecadar. Gastamos, em média, 1% dos 5% arrecadados. Só aí, em contribuição direta, percebam, eles perdem 4%. Gastamos só 1% e ninguém fica nos corredores a mendigar socorro”.
“Vamos começar a reunião”, disse Dr. Arimã, após reprisar o cumprimento e sorrir para a secretária, a linda e diabólica Lúcia Fé.  
Espero que não tenham se acomodados com o resultado do biênio 2019/2020. Foi bom, é certo, mas poderia ter sido melhor. Deter-me-ei, senhores, tão somente a questões pontuais. Antes, quero anunciar estratégica decisão para o biênio 2021/2022.
Vejam. No biênio 19/20, a carga tributária do Estado andirobense ficou em 39%, contra 18% de nossa taxa de Contribuição Voluntária. Vamos deixar o Governo maluco e baixar a CV para 16%. Essa medida aliviará o bolso do meliante operário e servirá de argumento para trazer o restante dos marginais trabalhadores, cerca de 30%, para nossa proteção. Muito bem. Vejamos as questões pontuais.
Persuasão - Alguns colaboradores continuam indo à casa dos adeptos do aparelho estatal - os autodenominados cidadãos - sem a devida identificação. Precisamos usar o crachá da Rabuda Bem-estar S/A, senhores. Outra coisa. Providenciem evidência maior para nosso slogan. Estão praticamente invisíveis. Notadamente o dos prédios. É importantíssima a visibilidade do “Perdeu, boy”. Temos de mostrar força ao suposto cidadão, pessoal. Pra isso, nada melhor que a combinação pistola/distintivo/legenda da instituição. Caso o conjunto não convença o recalcitrante, ponha-lhe a pistola na cabeça e o leve a um hospital do Estado. Depois o leve a uma de nossas casas de saúde.
Educação – Fiquei estarrecido com o que vi numa escola do centro. Quatro alunos não souberam definir falcatrua, caixa dois, estelionato. Duas estudantes não sabiam ocultar um sujeito, identificar um agente da passiva, conjugar o verbo prostituir na variante pronominal. Outros permanecem apegados a desvalores arcaicos, a exemplo de honestidade, ética, cidadania. Cuidem disso, por favor. Se for o caso, demitam os professores. Tenho até alguns nomes que dariam excelentes mestres.
Sonegação – Precisamos combater a sonegação, senhores. Não podemos dar trégua ao sonegador. Esse é a praga do Rabuda Bem-estar S/A. Os coletores não devem esquecer de que o fato gerador do sistema Rabuda é a renda familiar e não apenas o ganho de um dos trabalhadores. Some-se a renda de todos, aplique-se os 15% e emita-se a notificação em nome do desgraçado chefe de família. Não tem essa de rendimento informal. Flagrado no ilícito, lavremos a ata de transgressão e joguemos o cabeça da prole em nossas cadeias.
É isso, senhores. Como de costume, gostaria de encerrar a reunião com a advertência sobre o binômio comodismo/risco. Urge conquistar os 30% que estão fora do sistema Rabuda. Mais importante, porém, é não perdemos os 70% conquistados. Em hipótese alguma podemos nos acomodar, senhores.
Acomodem-se e vejam esta desastrosa sequência. Os 70% irão se juntando aos teimosos 30%, começarão a ver debilidade em nossas normas, criarão uma cultura coletiva e arriscarão restabelecer a tal ordem republicana. Tentarão regressar ao comodismo de que vieram, entenderam?
Toda a atenção à variável risco, senhores. Sabem os senhores que a Rabuda Bem-estar S/A só existe por causa de autoridades que não souberam avaliar riscos como os da sonegação e os da violência.
Nosso protegido tem consciência de que irá para a cadeia ao menor indício de sonegação. Então! O risco, extremo, é aliado da gente. Diminua-lhe o risco e veja se logo, logo não quebraremos, pois ele se aventurará voltar à zona de conforto em que estava habituado.
Nosso protegido tem consciência de que pode matar, assaltar e sequestrar os rebeldes 30% que nada lhe acontecerá. De mais a mais, também está consciente de que irá imediatamente para a cadeia se cometer tais atos contra um confrade. Então! O risco, extremo, é aliado da gente. Reduza-lhe o risco e veja se logo, logo ele não estará assaltando os aliados a torto e a direito, prestes a retornar ao ambiente da impunidade.
O risco é a bússola do procedimento. Do namorar ao delinquir. Aliás, a vida é eterno risco, disseram. Só não me perguntem quem disse. Procede-se assim ou assado, seja o risco avaliado assado ou assim. Agora, há riscos e riscos. Então, senhores...

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“Não olha pra mim não, porra! E essa rapariga tá escrevendo o que nesse cacete? Me dê o caralho desse papel”, irritou-se o marginal, com uma pistola apontada para a dupla, a leitora e o policial. 
Só aí Cristina se deu conta de que estavam sofrendo um arrastão, tão absorvida estava na leitura. Ela grifava algumas expressões que lhe pareciam inadequadas.
Estamos condicionados a não esboçar o menor sinal de reação nessas horas. Agora, o condicionamento é uma coisa, o momento do assalto é outra coisa. Não sabemos como vamos reagir, não é verdade? Daí que a medrosa Cristina pegou ar quando o assaltante arrebatou-lhe o papel. Injuriada, levantou-se, avançou pra cima dele e gritou:
“Deixe-me terminar a leitura, seu ladrão veado!”
O marginal apontou a pistola pra Cristina, mas correu em vez de puxar o gatilho. O policial percebeu que a arma era de brinquedo, pulou em cima dele, algemou-o, pegou o papel e devolveu a Cristina. O motorista ficou tão contente com o desfecho do assalto que parou na primeira lanrause, mandou tirar cópia do texto salvador, fez o assaltante pagar a despesa e obrigou o infeliz a dar uma cópia a cada passageiro.

Agosto/14

TC