terça-feira, 16 de setembro de 2014

COISAS DE MALUCO

COISAS DE MALUCO

Sou cultivador de palavras. Não na acepção de escrevê-las e sim na de curti-las. Curtir não exclusivamente por gostar delas. Algumas são curtidas por despertarem em mim a sensação de bani-las do dicionário.
Coisa de maluco, não?
Coerência é uma delas. Já viram palavra mais gilete? Quando o sujeito conserva particular opinião está sendo coerente, verdadeiro. Mas quando muda de opinião é sinal de mente aberta, evolução. E, no mais das vezes, a inversão se dá só pela conveniência. Agora, apavorante mesmo é a esquisita multifacetada. Pense numa palavrinha cheia de nhenhenhém.
Algumas palavras são supimpas. Interesse, circunstância, risco. Essas são doze em reflexão. Mas profunda e linda ao extremo é PERPLEXO. Pronuncie e veja o sabor. Os beiços se unem, depois se abrem, em seguida fazem um biquinho. Uma delícia. Aliás, palavras com esse tipo de xis são sobretudo agregativas. Nexo, anexo, plexo mostram essa união.
E sexo?
Quer palavrinha mais agregadora? A propósito, conquanto o “plexo” depois do “per” seja um termo anatômico, cujo significado é interconexão de nervuras, perplexo não tem nada a ver com sexo em pé. É simples espanto.
Coisa de maluco, não?
Perplexo é como me sinto com a postura (palavra feia, né não?) de muitos candidatos da próxima eleição. Os caras ou as caras são amigos, parceiros até ontem, mas botam quente na adjetivação do adversário. Ficam cuspindo excrementos nas caras dos outros. Nas caras, sim, posto só agir assim quem tem caras a torto e a direito. Ou a esquerda ou a direita.
Coisa de maluco, não?
Pois então. Perplexo todo, perguntei ao Dr.Gugo quanto ganhará um carinha desses na hipótese de ser eleito. Simples curiosidade, haja vista montante algum justificar a corriqueira profanação de caráter. Como simplificação, quis saber apenas a remuneração de deputado federal. “27 mil reais por mês, meu nobre”, disse-me o atencioso. E quanto o pretendente gasta para se eleger? “Por baixo, em torno de 5 milhões de reais. Onde você quer chegar, meu nobre? Olhe lá. Não faça julgamento precipitado”.
Não fiz julgamento, mas fiz as contas: 27 mil vezes 12 vezes 4 dá 1,3 milhão. 1,3 contra 5. Não bate. Mas os candidatos não estão nem aí pra essa continha. Querem é ganhar a eleição.
Coisa de maluco, não?
 Fui atrás da diferença e encontrei um tal de cotão mensal. O cotão varia de estado para estado. O do elefante é de 34 mil. Mas essa grana é para as despesas parlamentares. Então não conta para aquela conta.
Virei-me para o doutor: E aí, doutor? “Pesquise doações”, respondeu, caindo na risada, eu morrendo de vergonha por causa da ignorância. Pesquisei. Tá na lei, bonitinha, bonitinha. Pessoas físicas e jurídicas podem doar, sim. Doação mesmo. Tudo de mão beijada. Nestas eleições, já doaram mais de 400 milhões de reais. Entre as 10 mais volumosas doações 5 são de empreiteiras.
Cacilda! Botei a vergonha de lado e voltei ao doutor: tudo bem, doutor. As doações podem cobrir o rombo, mas... Mas essas doações, o doutor não acha... “Não acho nada, meu nobre. Quem acha é você. Procure. Aliás, você é muito desconfiado. Procure altruísmo”.
Bati na porta do Dr. Houaiss. Ele me explicou. Altruísmo: inclinação de natureza instintiva para o bem. Preocupação com o outro. Amor desinteressado ao próximo; abnegação.
Ah, bom. Tá tudo explicadinho.
Coisa de filantropo, não?
Altruísmo do lado de lá é devolvido com altruísmo do lado de cá. Mas matuto é bicho besta. Se fosse assim, pensei, o país não teria tanta miséria. Esse altruísmo é o nome do fumo entrando em certos lados da gente.
Isso é vaidade, concluí. Esse pessoal se descabela para ser eleito somente por vaidade.  Nem procurei o Dr. Gugo. Vaidade, a exemplo de perplexo, é uma de minhas palavras favoritas.  Ser chamado de governador, senador, deputado, prefeito, vereador. Taí o supra sumo do orgulho. E presidenta? É a glória. Mas hei de admitir.  A vaidade é bem-vinda. Sem fumo, é evidente. O não vaidoso é bunda mole, morno, apalermado.
 A vaidade soberana ocorre quando o indivíduo é adjetivado de modesto, simples, humilde. Nossa! O envaidecimento desse indivíduo é orgástico. Mas nem sempre é orgástico, admito de novo. O problema da vaidade é o nome. Para o indivíduo há pouco citado, por exemplo, a vaidade vai com a idade. Dou-me como modelo. De vaidoso. Não de vaidade. Quer a prova?
Escrevi sem o “que”, por ter me lembrado de meu romance “QUÊ?!, este mostrengo de texto.
Coisa de maluco vaidoso, não?

Setembro/14
TC