terça-feira, 11 de novembro de 2014

O FLIN DAS COISAS

O FLIN DAS COISAS

Pra mim a coisa funciona assim, mas nem sempre com essa tina de rima: o pau-mandado do cérebro obedece à mente, que obedece a gente. Somos o dono do pedaço. Do contrário, a coisa desbandaria e sairíamos mundo a fora fazendo tudo o que a mente quisesse. Mente e cérebro vivem nos testando, doidinhos por emoções. Não estão nem aí para as consequências.
Então essa coisa de que nasci assim, sou assim, assado e não posso mudar é papo furado. No mais das vezes contrariamos coisas concebidas pela mente, damos uma banana pro cérebro e mudamos de atitude. Mas coisas há com que a gente se emburra e não mudamos nem a pau. Coisa, por exemplo. Tinha uma raiva da bexiga dessa palavra. Hoje acho um encanto de expressão. Coisar e coisando são altamente gostosas e semânticas. Quer ver uma coisa? Andou coisanho de ontem pra hoje? Não coisa mais não, é? Deixe de mentira. Quero ver o culto ou a culta que não coise sequer uma vez no dia. Pense numa palavrinha metida! A gente a pronuncia no automático. Ela é amigada com a língua. Vai e vem, vira e mexe e falamos sem querer.
Mas existem umas coisinhas de que não gosto e que embirro em me mudar. Ou seria “em não me mudar”?
Shopping serve de ilustração. Implico com ele. Não com o prédio em si, é evidente, mas com o jeitão de certos visitantes. Não circulam lascados por ali, tampouco endividados, tal a imponência dos gestos. A maioria anda reto, a cara por acolá, a simpatia também. Teve um tempo que isso me divertia. Hoje me condói. O hoje é exagero. Faz cinco anos que não vou a um.
Já de aeroporto eu gosto. Há ali muita soberba e importância, mas, no íntimo, dá pra intuir um quezinho de submissão. Houve um tempo que isso me condoía. Hoje me diverte. O hoje não é tão exagerado assim. De quando em quando vou deixar ou apanhar alguém lá.
Gosto igualmente de barzinhos. Gosto, não, adoro. Adoro, entendam, observar a galera. Neles não baixam lascados, endividados, nem coisas do gênero. Pode até baixarem, concordo, mas com meia hora tá todo mundo rico, andando maneiro, atencioso, a cara por aqui, a simpatia também.
A exemplo de shopping, há outro trocinho de que tenho aversão: celular. Ando com um forçado pelas circunstâncias. Uso um nóquia, modelo não sei das quantas. Tão borocoxô que até a peliculazinha que cobre os algarismos já está caindo. Já caíram o 4 e o 5, e o 1 e o 3 estão cai não cai. Não passam quatro anos, creio. Mas, por segurança, vou comprar um moderninho. Vai que sou assaltado! Quando o cara vir o peste vai me cobrir de porradas. E com razão.
Agora deixe-me falar dum tema do qual me eximia de arbitrar. Refiro-me a feiras literárias. Feira, festa, festival, tanto faz. Pois bem, de seis a oito deste onze de quatorze foi realizado o Festival Literário de Natal (Flin). Passei lá. Pela primeira vez compareci a um evento desses. Achei legal, devo voltar. Dizem que há muito oba-oba nas palestras, mas a elas não assisti. Não convém opinar.
Mas opino e dou nota dez acerca deste papo. Sucedeu de eu me encostar num quiosque e pedir um suco de laranja. Duas senhoras saboreavam uma salada e conversavam:
- Estás a ver a minha situação...

- Sim, realmente. Devias mandá-lo bugiar.
- Isso é muito fácil de dizer.
- Também é verdade.
- O pior é que depois chega à noite, na cama, e quer que eu sirva mini pratos.
- Mini pratos?
- Dar uma de borla. Tu sabes.
- Ah, sim, claro.

(Essa delícia de conversa se dava entre duas senhoras lisboetas. Provavelmente acompanhavam o poeta português Gastão Cruz, que falava sobre o Século de Ouro da pátria poesia. Brincadeirinha, gente. O poeta dissertou no Flin, é verdade, mas a conversa eu roubei da genial escritora portuguesa Patrícia Reis, de quem me penitencio de mãos estiradas. A postagem é de três do onze e chama-se Mini Prato.)

Novembro/14

TC