segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O LAVA JUMENTO E A MINA DO MELANCIA


O LAVA JUMENTO E A MINA DO MELANCIA

No meu tempo de menino sambudo o pau comia. Hoje a rapaziada não tá nem aí. São autênticos bundões. No Araçá, quando um moleque botava apelido no colega, logo aparecia um terceiro e fazia dois riscos no chão: “A mãe de fulano e a mãe de sicrano”, apresentava o infeliz beltrano. Um pirralho apagava a mãe do outro com os pés e pegue porrada. Hoje apelido tá fora de moda. Indignação também. Tanto coisa digna de indignação neste país, mas os bundões ficam chupando o dedo e dando rabanadas.
Vi muita troca de bofetes. Dois colegas eram famosos. Dudu de Bijane, o melancia, e Chico da Serra, o eucalipto.  
Chamavam Dudu de Melancia porque, por dentro, o cara torcia pelo América (camisola vermelha), mas, por fora, torcia pelo Alecrim (camisa verde).
Chico tinha o DNA de empreendedor. O sonho dele era fazer óleo de eucalipto, árvore comum na região. Daí veio o apelido de Eucalipto.
Agora eu adorava quando as meninas me chamavam de Tigrão. Por óbvias razões, já devem ter entendido vocês.
A gente tinha entre treze e quinze anos. Só brigávamos para não levar o desaforo pra casa. Mas no dia seguinte estávamos jogando bola juntos e tomando banho no rio do governo.
Como estava dizendo, Eucalipto estava determinado a extrair óleo de eucalipto. Até que um dia ele convidou a mim e ao Melancia para colocarmos a ideia em movimento. Ficamos, eu e o Melancia, encarregados de elaborar o projeto. Eu por ter fama de intelectual, Melancia por ter uma queda para assuntos químicos. Eucalipto captaria os recursos. Com um mês o projeto estava pronto. Pelo projeto original, em dois anos tiraríamos o investimento. Original porque o Melancia baixou o prazo para um ano, já que a partir dali seria misturado no produto o óleo do araçá, frutinha também comum nos nossos tabuleiros. Só faltava o dinheiro para adquirir os equipamentos. Principalmente as prensas. Pensamos em alugar prensas de casas de farinha, mas os donos riram na cara da gente.
Eucalipto teve um encontro com um prospector de negócios, o cara interessou-se, disse que levaria o assunto a uma estatal do ramo, mas exigiu uma grana a fim de que as assinaturas de certos diretores ficassem mais legíveis. Eucalipto ofereceu 10% dos lucros, mas o abre portas não concordou. “Vai que a coisa dá pra trás”, disse, na maior cara de pau.
Ficamos nesse impasse, até que...
Até que as cinco horas da manhã duma segunda-feira, o Melancia e o Eucalipto me acordavam para uma reunião. Fomos para o lava jumento, na croa, onde ficava o escritório da gente. Lava jumento, mas lá também lavava bicicleta, fazia-se uma fezinha no jogo do bicho, apostava-se em futebol, jogava-se sinuca, tomava-se umas e outras e via-se de pertinho a mulherada batendo roupa. O lava jumento era do pai de Eucalipto, Seu João da Serra. Família empreendedora, aquela.
            “Temos a grana”, disse o Melancia. Aí ele detalhou. O bisavô aparecera em sonho e lhe dera uma mina. A mina, um cachote de dinheiro, estava enterrada no pé do décimo terceiro eucalipto, ao norte, contado a partir do lava jumento. Melancia deveria arrancá-la aos treze minutos da próxima sexta-feira. E assim se deu. Não se deu, aliás. Deu mas não se deu.
            Melancia arrancou o caixote, mas dentro só havia molambo. Quer dizer, foi o que ele nos falou. Eucalipto ainda desconfiou, achando que Melancia não quis trocar o certo pelo duvidoso. Discordei. Esse negócio de mina é segredo. Dá furo se a história vazar. Como Melancia havia nos contado, a grana foi por água a baixo. Certo é que nosso projeto de ficar rico acabava ali. Fui vender jogo do bicho, Eucalipto foi pra Marinha, Melancia foi vender banana nas feiras.
            Por que estou relatando este episódio? Vou justificar.
            Sabe o Lava Jato, o Petrolão, o escândalo da Petrobras? Pois!
            Como sabem, a polícia Federal prendeu um bocado de gente. Aí, li no UOL, sexta-feira, 21/11,
que a Federal tem perguntado à galera... Segurem-se na sela, meus camaradas. Sabem o que é que a polícia tem perguntado? Tá doida pra saber?
Simplesmente quem são os donos dos apelidos de Tigrão, Melancia e Eucalipto.
Aquilo foi coisa de meninos bestas, homens de Deus.

Novembro/14
TC