sábado, 6 de dezembro de 2014

A CRIAÇÃO DO BAFÚMETRO NAS DIVAGAÇÕES DUM FUMANTE

A CRIAÇÃO DO BAFÚMETRO NAS DIVAGAÇÕES DUM FUMANTE

Não sou certinho. E, acreditem, nunca quis sê-lo. Correios, feiquecebuque, zapzap e afins passam longe de minha rotina. E só bato parabéns para criança. Sou da roça, do contra e de doze. Por essas e outras, passaram a me tachar de antissocial. Mas não sou. Antissociais são desnutridos de aventuras. Não se alimentam de prazeres. Desde que criei penas que jogo, bebo, fumo, danço e sou perdido por mulher. Mesmo sem o copiar/colar – que detesto -, sou igualzinho ao Moisés Sesiom, porreta personagem da poetíssima cidade de Açu.
Jogar, beber, fumar, dançar constitui minha ração diária. E comer, que ninguém é de ferro. Se interajo com tais verbos, como posso, então, ser antissocial? Apenas detesto pressões para nadar em certas marés. Minha lagoa é discordar e improvisar. Já no madureza, fórmulas e concordâncias não me seduzia (estão vendo a rebeldia?).  
Tem mais uma coisinha. Desconfio dos todos certinhos. Tem muitos errinhos embaixo desses todos. De quando em quando vemos algum toldo se desparafusar e a camuflada sonsice aparecer toda faceira, a espantar o caritó. A sonsice mora debaixo dos panos, adora pessoas certinhas. Mas não há censura nisso. Cada um age como quer e ponto final. Retrair-se ou exibir-se é o que dá consistência a axiomática inconsistência humana. Inconsistência que dá consistência à afirmação de que os indivíduos não mudam. Eles simplesmente nunca foram como imaginávamos, ainda que jamais tenhamos a prova disso. Mudamos os atos externos, é certo, mas somente o próprio indivíduo pode afirmar se a mudança decorreu de conveniências ou proveio da natureza inconstante. Como sei disso? Ora, ora! Sou um indivíduo.
O homem apagou os pensamentos, acendeu um cigarro, deu duas baforadas e tornou a ligar para o Bião, amigo e advogado dele. Dissera ao Bião que
estava andando no Alecrim, na avenida 9, entre a 5 e a 4, pertinho da Igreja de São Sebastião. Bião prometera chegar em cinco minutos, mas estava atrasadíssimo.
“Chego já”, disse o Bião. O homem não guardou o celular. Um pivete encostou-lhe um 38 na cabeça e levou o aparelho. Restou ao homem cair na risada.
“Já vi que está feliz. Por que a conversa na rua, meu nobre?”, disse o Bião, apeando-se do carro.
- Estou felicíssimo, Bião. Um moleque acabou de me levar o celular, mas deixou-me as células do ar. Porque... Escuta só. Vamos sentar naquela calçada ali. Deixei de jogar sinuca, cara. A Lei Limpa não permite fumar no barzinho onde eu jogava. A Lei Seca já havia me expulsado dos bares longe de casa, pois a grana não dá pra ficar pegando táxi. Tomava minhas cervejinhas nos botecos perto de casa, mas a Lei Limpa proíbe fumar neles. E beber sem fumar não dá, né, Bião? Fumar em casa a mulher não deixa. Só me sobrou a rua. Mas sou um idiota feliz, apesar dos pesares. E dos assaltos. Tenho dois assuntos a tratar com você, Bião.
- Isso quer dizer que você é contra as duas leis.
- Não bote fumaça alcóolica na minha boca, Bião. Sou a favor, conquanto julgue algumas regras exageradas. Bom, quero que vá a Brasília e patenteie esse negócio aqui.
- Que danado é isso, homem?
- É... Seguinte. A Marluce, dona do boteco defronte da minha casa, aceita a gente fumar. Mas aumenta a conta em 10%. Diz ela que o dinheiro fica num fundo. Será utilizado caso seja multada. Jeitinho brasileiro de roubar, entendeu? Até porque nunca será autuada. A gerente dela, a Cíntya, criou um pinicão no quintal, espécie de cinzeiro coletivo, então o fumante joga a piúba num caninho e a bicha vai morrer nesse pinicão. Jeitinho de enganar a fiscalização, compreendeu?
Aí, Bião, bolei essa pecinha. Chama-se tabaqueira ou bafúmetro. O sujeito dá uma chupada nessa abertura, então esse pinguelinho aqui mede quantas inalações de tabaco foram expelidas. Quero ver ludibriar a fiscalização! Já tenho mil bafúmetros apalavrados com um militar daqui. Por isso tenho pressa em patenteá-lo.
O outro assunto é aquele seu prédio das Quintas. Quero alugá-lo pra botar um barzinho.
- Barzinho? Tá maluco, é? Um prédio daquele tamanho!
- Tô maluco não. Vou botar 4 mesonas de sinuca, 4 mesas de pife-pafe e 3 radiolas de ficha. E vai ter strip-tease da quinta-feira ao domingo. O nome do bar será Fumo Dentro. Só entra fumante lá, entendeu, Bião. Vou encher de faixas dando esse aviso. Vai ser um bar e tanto, cara.
- Bar? Isso não é bar. É um puteiro, homem.
O homem olhou fixamente para o Bião, deu três puxadas seguidas no cigarro, abriu a boca. Mas não falou nada. A dona da calçada onde a dupla conversava abriu uma janela e soltou os cachorros pra cima dele:
- Não pode fumar aí não, meu senhor. Tá enchendo de fumaça aqui dentro. Pode se retirar. Se não sair, chamo a polícia. É a lei nova, meu senhor.
- Mas minha senhora, o vento tá levando a fumaça pro outro lado da rua. Não tá indo aí não. Além de estarmos distante de sua porta, a residência estava fechada, minha senhora. E tô fumando na rua, tá entendendo?
- O senhor não tá na rua não. Tá na minha calçada. Portanto...
O homem levantou-se, passou a mão na bunda e continuou conversando. E fumando:
- Agora estamos na rua, não é, advogado Bião?
O nome do homem? Raciocine, homem.

Tião Carneiro

Dez/14