segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A VENDEDORA DE PALAVRAS


A VENDEDORA DE PALAVRAS

A senhora armou o tripé, ajeitou as plaquinhas e começou a anunciar: tenho beleza, extorsão, amor, propina, sexo, traição, carinho, hipocrisia, lealdade, delação...
- Tem saúde?
“Tem mas tá faltando”, respondeu ela à velhinha, na linguagem brincalhona, peculiar aos camelôs.
- Tem segurança?
- Também não.
- Quando chega?
- Não sei, senhora. Faz um tempão que fiz o pedido de segurança, saúde e educação, fico renovando, mas os fornecedores estão me enrolando. Vai dum sexozinho?
- Vou. Me dê duas plaquinhas.
Foi só a velhinha sair para o guarda aparecer e mandar a vendedora se retirar, pois era proibido banquinhas naquele local. Conversa vai, conversa vem, o guarda aceitou uma gorjetinha e deixou a senhora e o marido em paz. O marido vendia laranja, vizinho a ela. A senhora e o esposo ficaram rindo. Dera uma nota falsa ao guarda. Até porque o guarda era um impostor, deduzira a vendedora.
- A senhora tem honestidade?
“Tenho, senhor”, respondeu a vendedora, gaguejando. O empaletozado perguntador era muito bonito, sedutor, parecia de fora, tinha pinta de executivo. Além do mais, fazia anos que ela não vendia uma honestidade.
- Tem quantas aí?
A senhora abaixou-se, abriu uma caixa velha, deixou lá uma plaquinha e espalhou o resto na banquinha.
- Tem treze, senhor. Material antigo, mas da melhor qualidade. Pra dizer a verdade, faz um tempão que eu não vendo sequer uma honestidade. Veja se lhe serve.
O empaletozado examinou uma plaquinha, coçou a barba e soltou a voz grave:
- Estão em bom estado. Vou levar todas. Embale aí. O que é que sai mais aqui, minha senhora? Imagino que seja sexo. A senhora tem gasolina?
- O que vendo mais é propina e extorsão. Vende que só água. Sexo quase não sai. Sabe, senhor, parece mentira, mas hipocrisia está vendendo mais do que sexo. Gasolina não vendo não, senhor. A gente tem um contrato com aquele posto ali, ó. Lá não vende palavra nem laranja. Em compensação, a gente não vende gasolina. Muito obrigada. Volte sempre.
O empaletozado balançou a cabeça e saiu. A mulher balançou a cabeça para o marido, mandando-o seguir o baludo cliente. Ficara desconfiada. Nunca vendera de uma vez só tantas unidades da mesma palavra. Pra que diabos aquele homem queria aquela ruma de honestidade? Meia hora depois o marido voltou.
- E aí? Quem é o bonitão? Onde ele ficou?
            - Você não vai acreditar, Nilma. O homem foi pra praia. Chegou, abriu o pacote, beijou as plaquinhas, jogou tudo no mar e danou-se a rir.
            - Minha nossa! Que ecológico. Será que ele notou alguma coisa?
            - Nada! Notou não, Nilma.
            O que o empaletozado, sedutor, bonitão, barbudo e de voz grave não havia notado era que
faltava o “H” na “onestidade” das plaquinhas.

            Dez/14
            TC