sábado, 13 de dezembro de 2014

ANOTAÇÕES NOSTÁLGICAS NUM SÁBADO SEM GELA


ANOTAÇÕES NOSTÁLGICAS NUM SÁBADO SEM GELA

Mãos dadas, o homem e a mulher olhavam-se com ternura. Não diziam nada. Mas falavam. Cultivavam o estranho hábito de pensarem por ordem alfabética. Ele começava pelo “E”; ela, pelo “A”. Do A, ela conduzia o pensamento para o “S”. Do E, ele dirigia a mente para o “M”. A coincidência acontecia no “J”. Mas não era coincidência. O casal tinha apenas essas cinco letrinhas para pensar. Vivia num autêntico paraíso.
Ele foi o primeiro ente a distinguir imaginação de visualização.
Ela a primeira criatura imaginada e visualizada.
Ficaram por lá, vieram pra cá, vivem a zanzar. E nesse voluptuoso vai e vem a vida virou varejo.
Hoje, cada vez menos homem e mulher olham-se com ternura. Mas ainda se olham. E falam. Mas cada vez menos. Mas cada vez mais se... Entreolham-se e se descobrem. Cada vez mais perscrutam a árvore do conhecimento. Perscrutam e decidem.
Mas ninguém mais pensa por ordem alfabética. Pensa-se muito por ordem numérica.
É isso! É o que penso.
Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhes três.

DEZ/14
TC