segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O PIPOQUEIRO


O PIPOQUEIRO

Doido pra descolar, o pipoqueiro escorou-se no carrinho e ficou a observar o vai e vem das pessoas. Observava e pensava: ninguém mais compra pipoca. Crianças não gostam mais de pipoca. Deixaram até mesmo de brincar. A tal da internet virou o mundo de cabeça pra baixo. Aí o pipoqueiro botou umas pipoquinhas na boca e ficou remoendo. Remoía o que o filho lera na internet e lhe contara: escândalos, escândalos, escândalos.
Parou de pensar em escândalos. Queria pensar no que ninguém nunca pensou. Então parou de remoer. Parou porque ficou de boca aberta. Boca aberta por causa da mulher que dele se aproximava puxando um menino. Jamais o pipoqueiro vira mulher tão linda. Continuou de boca aberta quando o menino apontou pro carrinho e perguntou à mulher o que era aquilo. O pipoqueiro deu-lhe um saquinho de pipoca. A mulher olhou pro pipoqueiro e sorriu. Não era sorriso. Era uma trava no queixo do pipoqueiro. O pipoqueiro não podia fechar a boca. De boca aberta não podia falar. Mas os olhos podiam. O olhar da mulher também falava. Era paixão em estado líquido. Líquido porque pingava... Pingava o quê? Ou era ódio em estado sólido? Sólido porque parecia... Parecia o quê?
A mulher sorriu e se alvoroçou. Alvoroçou-se, prendeu o cabelo e partiu pra cima do pipoqueiro.
O pipoqueiro começou a pensar no que nunca havia pensado. Pipocaria?
Pensava em escândalos.
Dezembro/14

TC