quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

PRA VOCÊ TAMBÉM

PRA VOCÊ TAMBÉM

Pretendia montar uma estatística de postagens, acessos, comentários etc. Fim de ano é bom pra essas coisas, concordam? Pois então. Sentado numa redinha branca, tinha acabado de contar os textos aqui postados quando a campainha toca insistentemente. Corri pro portão. Era meu primo Bião. O Bião e a prima/esposa, a Vião.
“Imbecis”, disseram os dois, mal me cumprimentando e entrando de casa a dentro. A bronca era por causa do riso irônico da rua. A galera se divertia com a disparidade física do par. O Bião é baixinho, baixinho, gravetos de canelas, verdadeiro caçador de pulgas. A Vião é altona, altona, maçarandubas de pernas, autêntica caçadora de tigres. O Bião usava camisão quadriculado, bermuda por acolá. A Vião trajava blusinha generosa, bermuda por aqui. A Vião é um avião, gente. O Bião nem minúsculo carrinho de brinquedo é. E ainda querem que a turma não zone com as mãos dadas deles. A cena tornava-se mais risível, porquanto, acreditem, a dupla caminhava tomando chimarrão, meio dia em ponto.
Certa vez, Bião cresceu pra cima de mim só porque perguntei como ele e a esposa namoravam, já que a Vião dava duas dele. Como vocês namoram, Bião, se tu não dá na cintura da prima Vião? Se ela dá duas de tu, então a coisa fica complicada. O homem viu sacanagem na pergunta, pegou ar e sugeriu que eu perguntasse à Vião se ele não a satisfazia. Fechei a cara e disse que ele estava misturando as coisas. Eu estava falando de namorar, o ato de olhar com ternura, acariciar, sussurrar, tocar, beijar. E que, dada a diferença de altura entre os dois, para beijar o rosto da Vião, por exemplo, ele teria que ficar trepando num tamborete. Falava disso e não de transar, como estava supondo ele.
Pode-se namorar sem transar, o que não torna verdadeira a recíproca. Ele confundia namoro com transa, assim como muita gente não distinguia sensualidade de erotismo. Sensualidade é ternura, voz, olhar, carisma, atenção, comunicação, postura, atitude. O indivíduo sensual tem isso aos montes. Erotismo é consequência desse conjunto. Não precisa ser belo ou bela para ser sensual, da mesma forma que beleza não garante sensualidade. Aí flechei-lhe o ego com esta mentira. Você, Bião, é feio pra burro, mas transpira sensualidade.
Brequei a lembrança, pois a dupla voltava da cozinha, cuia de chimarrão numa mão, copo de uísque noutra. O Bião
pôs-se de cócoras, uma de suas esquisitices. A Vião sentou-se numa cadeira, de frente pra mim. Permaneci na redinha branca e começamos a trocar figurinhas de 2014. Daí a instantes minha mulher, Tânia, chegou dirigindo um carrinho de bebidas, um alguidar de chambaril e rabada de carona, e o estacionou num canto da área.
O Bião e a Vião pareciam estar apostando quem bebia e comia mais. Uma chupada no chimarrão, uma linguada no uísque, uma lambuzada no chambaril. Empatavam no elogio ao tira gosto feito por Tânia. Eu tomava uma caninha, ficava curtindo a cena e brigando com certa vozinha que me mandava rir.
Embriagada, a Vião começou a me esculhambar, classificando meus textos de devassos, de sacanas duplos sentidos, extrema apologia da putaria. Não tem lirismo, reflexão, divertimento. Podre e mosqueiro completo as tuas quilométricas prosas, cara.
Também chumbado, disse-lhe que ela tinha a opção de não me ler e que lesse François, Serejo ou Prata se quisesse prosas livres de moscas. A putaria está na sua cabeça, Vião. Falei, tomei uma e soltei o verbo: por que você não vai tomar naquele canto? Vou mesmo, respondeu a voz pastosa, caminhando para o canto onde estava o carrinho de bebidas.
Que delícia, Bião, ficou repetindo, sentando-se agora no chão e pondo a cabeça do Bião no colo. Saturado de tantos elogios ao tempero de Tânia, mudei a conversa e fiz uma pergunta de bêbado:
- Pra vocês, qual é a melhor coisa do mundo?
“Depois daquilo?”, indagou a danada Vião, apontando para a rabada do carrinho.
“Fora o quê?”, gaguejou o Bião.
Não sei o que deu no parzinho, certo é que se aperrearam pra ir embora. Deixei-os no portão e me despedi com votos de saudável 2015. Esperava o chavão de “pra você também”, mas não veio. Os cambaleantes, lampeiros e risonhos, falaram numa só voz, como se tivessem combinado:
Boas entradas pra você.

Nos últimos suspiros de 2014, um forte abraço,
TC