quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

MORTOS NAS CALÇAS

MORTOS NAS CALÇAS

Última postagem de 2015, desejo-lhe Feliz Natal e um próspero ano novo. Você deve ter percebido um quê melancólico na cristã mensagem, não? Bom leitor que é, sabe que escritos não técnicos são simples tradutores de estados mentais. E, neste momento, o meu é depressivo. Veja a causa:
“REGISTROS DE MICROCEFALIA/ZIKA CRESCEM 13% EM UMA SEMANA
Leia o desdobramento (Tribuna do Norte, 23 de dezembro de 2015, página 1):
“ O número de casos suspeitos de microcefalia associada a zica cresceu 13% no Rio Grande do Norte, entre os dias 12 e 19 deste mês. Existem, agora, 154 notificações em análise, além de outras 10 possíveis mortes pela doença. O RN lidera, com a Bahia, o número de casos fatais.
Em todo o país, segundo dados do Ministério da Saúde, no mesmo período, o total de casos da anomalia observados em recém-nascidos subiu para 2.782 – 28% maior que os 2. 165 do último levantamento – com 40 óbitos suspeitos. O número de casos confirmados não foi divulgado”.
A microcefalia é uma malformação congênita em que o cérebro do feto não se desenvolve de maneira adequada. Além do risco de morte, a peste enraíza sequelas graves nos bebês sobreviventes, como dificuldades no andar e no falar. Nas causas estão doenças infecciosas, genéticas, desnutrição, exposição a substâncias tóxicas.
Pois bem, 167 brasileirinhos nasceram com microcefalia em 2013. E 147 em 2014 (Folha de São Paulo, 25/11/2015).
Em 2015, mas até 19 de dezembro, foram 2.782 notificações e 40 óbitos. Agora, nobríssimo, pegue esses números e dê um descontinho para as notificações de “origens naturais”. A diferença originou-se de quem?
De quem? Do zica vírus, carregado na barriga do aedes aegypti, o mosquito assassino. Assassino, não. Desculpe, mosquito, pois é de sua natureza fazer o mal.
Assassino é o governante brasileiro. Atual e antecessores, porquanto ser de sua natureza fazer o bem. Mas não faz, não é, governante? Refiro-me aqui tão somente à exterminação do mosquito, entendeu? Por que não deram um chute na bunda dele, a exemplo do Dr. Osvaldo Cruz?
Dengue, chikungunya, microcefalia. Que nome receberá a futura manifestação do mosquito? Inventem

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Leitura da mão

Leitura da mão

Oi, gente,
Vou postar a prosa dominical de François. Porreta, como de costume. Só que Bião entende... Bião, vocês conhecem, não? O azoreta que vive mexendo nos escritos alheios. Já mexeu com Machado, Veríssimo, Sabino. Agora cismou com François. Segundo ele, o episódio da Leitura da mão não terminou como narrado. François teria encurtado o texto em virtude da publicação no Novo Jornal. Aconselhei-o a não se meter com o cara, mas o peste do Bião não deu bola.
Bom, leiam a prosa de François. Em seguida vejam a versão do Bião.
Boa leitura. Ao menos da primeira, né, gente?

Na Coluna Plural do Novo Jornal.
 Leitura da mão.
(Para Naide Rosado e Carlos Santos)
Tudo começou na feira do Patu. E estendeu-se para as outras feiras, numa romaria desassossegada. E tensa. Intensa. Assim foi a paixão de Samuel.
Os ciganos chegavam às cidades e procuravam as fazendas mais conhecidas para pedir arrancho. O Cangaíra, de Messias Targino. O Manuê, de Antônio Suassuna. O Açude Novo, de Chagas. Os Cajuais, de Quinquim Gomes. A Bola, de Silvestre Veras. A Jurema, de Pedro Regalado. Lages, de Oliveira Rocha. Os Campos, de Zenon de Souza. Timbaúba, de Osório Fernandes. A Lagoa, de Manoel Onofre.
E muitas outras. Os bandos liderados por um chefe conversador e convincente, geralmente deixavam marcas de suas paragens não muito recomendáveis. Zé Garcia era o mais famoso deles.
Mesmo assim, sempre conseguiam autorização para novas pousadas. Ninguém sabia a razão dessa leniência dos fazendeiros. Ou se alguém sabia, fazia-se ao desentendido.
A verdade de mesmo, motivadora dessa relação, onde as fazendas quase sempre sofriam prejuízos, não era outra senão a quantidade de ciganas jovens e bonitas. Belas e acessíveis.
“Num sei o que é que fulano tem com esses ciganos. No inverno do ano passado, eles roubaram três burros de carga e venderam armas com defeitos. E ele ainda hospeda essa gente”. Dizia a mulher de um desses fazendeiros.
Ocorre que não era para os ciganos e sim para as ciganas que o marido dela dava arrancho. Os prejuízos faziam parte da artimanha.
Os cabarés, das cidades pequenas, assustavam os fazendeiros. Não por doenças ou custos, mas por medo da falação. O bando arranchado de ciganos era uma mão na roda.
Foi num dia de feira, em Patu, que Samuel conheceu Honoralina, filha de Coralina com o cigano Honorato. Paixão que desceu feito balão incendiado. Quentura sem rumo.
Aproximou-se e pediu leitura da mão. Ao toque com os dedos suaves da jovem cigana, Samuel nem ouviu as previsões. A vista embaçada e o corpo trêmulo. Quando a cigana fechou a mão, o ganjão Samuel pediu quase chorando: “Leia mais”.
Na emoção, deixou de ouvir as previsões sombrias. E não deixou mais de seguir o grupo de Honorato, dissidente do grupo maior de Zé Garcia. Os dois brigaram e o grupo dividiu-se.
Estivesse Honorato em Umarizal, lá estaria Samuel. Sempre de mão mendiga a pedir leitura de Honoralina. Em Caraúbas, Pau dos Ferros, Apodi, Brejo do Cruz.
Por não ouvir as previsões de Honoralina, dada a emoção que dominava o corpo, fechando os ouvidos, Samuel não tomou as precauções que a cigana sugeria. “Uma desgraça lhe segue as veredas, ganjão. Desgraça de sangue de faca. Não fique na feira da chapada”.
Naquele Sábado, a discussão no bar de Apodi e três facadas no bucho. Tripas expostas, Samuel agoniza. A dona do boteco aproxima-se. Ele diz a última palavra, com a mão aberta: “Leia”. Té mais.

Não foi a última palavra, segundo Bião. Samuel respirava, sim.
Ocorre que a dona do boteco, D. Socorro, tinha conhecimento hospitalar. Daí ter preparado um soro caseiro, asseada as tripas de Samuel e as acomodadas nos respectivos ambientes. A ambulância demorou, é certo, mas providencial vaquinha pro combustível fê-la (epa!) sair cantando o melancólico sai da frente.
Samuel passou 3 dias entre a vida e a morte, café pequeno para quem tinha passado 10950 entre a morte e a vida - Samuel estava completando 30 anos no dia das facadas, sabia, François?
Foram em vão as súplicas de Honoralina para que o pai a permitisse visitar o gajô. Nonô era a carrancuda resposta. Até que com uma semana de hospital, Honorato soube que Samuel era filho único de ancião fazendeiro:
 - Já que você insiste, vá, Honoralina. Vá e seja amorosa com ele, viu?
“Como vai, ganjão?”, indagou Honoralina, arrepiando-se de cima a baixo ao ver o tronco nu do paciente. Honoralina costumava se perguntar para que servia peito de homem. Agora tinha a resposta, porquanto os peludos de Samuel estavam servindo para arrepiar as suas penugens. Arrepiamenta paixão que desceu feito balão incendiado. Quentura com rumo certo.
Samuel não respondeu. A resposta veio no olhar e no gesto de segurar as mãos de Honoralina. Segurou e pediu: “Deixe-me ler as suas mãos”.
Honoralina deu o sim de cabeça e

sábado, 28 de novembro de 2015

A SOBRANCELHA DIREITA

O Pocilga tá de sacanagem comigo. Aqui, acolá ele exclui uma postagem sem eu mandar. Esta da sobrancelha, por exemplo. Postei-a no 11 do 11. Vou postar de novo e ficar de olho na sobrancelha. Agora, o texto de baixo, o AP39, é mais cheiroso. Vá por mim!

A SOBRANCELHA DIREITA

Arriamos as bicicletas.
Mal livrou-se do capacete, a trêmula Fatinha foi logo me beijando:
- Caramba, amor. Que fino o idiota tirou em você. Numa ciclovia, Fernando! Como é que um país deste pode ir pra frente se simples norma de trânsito não é respeitada?
- O de sempre?
Consultei a Fatinha. Ela apenas balançou o sim de cabeça, pois algo no celular exigia-lhe concentração.
- O de sempre, Eduardo.
Eduardo logo nos atendeu. Começamos a tomar os de sempre. O meu, suco de caju. O de Fatinha, suco de acerola. Eu pensava no invasor da ciclovia. Tinha o olhar distante.  Ela, pertinho. O olhar e o dedo indicador. Ambos colavam no celular. Dei uma chupada no canudo:
- Suquinho sem gosto, este, viu?
Fatinha olhou pra mim e voltou a escorregar o dedo no celular. Não disse duas nem três. Passados uns três minutos, sugeriu:
- Ué! Peça outro, tchê? O meu está ótimo.
Diz a Fatinha que arqueei a sobrancelhinha direita. Agora, que demorei um pouquinho para comentar, ah, isso foi:
- Sorte a sua, querida.
Novas dedadas, novo silêncio, velhos minutos:
- E azar o seu, meu querido. Detesto seus arqueadinhos de sobrancelhas, Fernando. Ainda mais a nojenta da direita e, por cima, olhando-me de lado. Pura mangoça. Querida? Bah!
Eu devia ter sacado que a Fatinha trocara o momento mental de ternura pelo de frustração. E a causa era a leitura no celular. Seu “ótimo” do suco já saiu péssimo. Sinalizava intriga. E ué, tchê, bah? Vige, parecia até que a Fatinha não estava em Natal.
A verdade é que

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O PODEROSO AP39

O PODEROSO AP39

E aí, meu nobre, sabe você o significado do misterioso título acima? Não? Torce o nariz pra ele? Pois não devia, leitor. Você também não, minha nobre. Falo já do famoso AP39, visto estar precisando agora de algumas letras a fim de comentar outro assunto.
O comentário é por tê-los chamado de meu nobre, de leitor e de minha nobre. Entenda. Há poucas semanas, deparei-me com esta recomendação de famoso crítico literário:
“Não chame de leitor ou algo semelhante o possível desbravador de seu texto. Esse fulano torce para ser surpreendido. Procura encantamento. Intimidades com o autor não lhe interessa. O fulano pressente a esperteza, o puxa-saquismo, o artificial flerte. Tal intimidade fica melhor em mesa de bar”.
Esse bicho é um literato careta. Bundão, fica falando miolo de quartinha. Ele tem o “quê” do queixume existencial. Pensei assim, juro. Mas se concordarem com ele, posto não encontrarem aqui encantamento, menos ainda surpresa, meu imeio está ao lado. Adoro uma gela, meu nobre leitor. Ou minha nobre leitora. Desculpem aí, gente. Estava com o bundão do crítico entalado até o pescoço.
Voltemos ao AP39. Leiam esta manchete:
Substância encontrada em flatulência evita câncer, ataques cardíacos e demência.
Essa chamada é da Tribuna do Norte de domingo, 15 do 11 deste violento 15. A Tribuna começa despejando a matéria com a seguinte introdução. “A informação foi divulgada amplamente nas redes sociais nas últimas semanas, mas muita gente a imagina piada ou brincadeira. Mas não é!”
A Tribuna do Norte, diga-se, tão somente traduziu a apresentação de um estudo da universidade britânica de Exeter. Tal estudo descobriu primorosa substância na flatulência e em ovo podre. A substância ajuda a reduzir o risco de enfarto, ataque cardíaco, câncer e, até, demência. O nome da bendita? 

sábado, 7 de novembro de 2015

A FESTA DE CERTA TURMA

A FESTA DE CERTA TURMA

Olá, gente,
Escrevo (ou seria redijo?) a fim de matar o tempo. Hábito besta, coisa de maluco, diria. E não alimento a história do escrever apenas por prazer. Espero ser lido, confesso numa boa. Minhas postagens são lidas, em média, por treze leitores. Três delas, porém, deixaram-me desanimados. Apenas quatro leituras, pode? As três estão contextualizadas com o seguinte título: A Fifi, o Pedro e Factoides. Estão, não, estavam, pois acabei de excluí-las. Juntei-as num único texto e as deletei. Ficou um mostrengo de sete páginas. Oscila entre conto grande e romance pequeno. O bicho tem quatro tópicos: A fogosa Fifi no barzinho, A feiosa Fifi na faculdade, O prisiaca do Pedro pinta no pedaço e... Não convém revelar o quarto, leitora.
Vejam a loucura. Se os textos independentes, coisa de página e meia cada um, não foram lidos, imagine um tijolão de sete laudas. Mas, enfim... Bom, darei um pote de doce de leite a quem chegar ao fim do danado.
É isso!

A FOGOSA FIFI NO BARZINHO

Oi, Bonitão. É a Fifi. O Feitosa te ligou?
Fifi, menina, desculpe aí. Não. O Feitosa não ligou não, Fifi. Escute...
Nisso o papo ficou viúvo: a bateria de meu celular acabava de morrer.
Eu havia me encontrado com a Fifi, num barzinho, há coisa de duas horas. Estava bordejando, digamos assim. E ela também, pelo visto. A tevê do MPbar mostrava um jogo de futebol. O barulho dos assistentes me deu a dica: escreva sobre a paixão futebolística, cara.
Nisso, e já meio chumbado, encontrei a coroa bonitona, também biritada. Ou melhor, a bonitona me encontrou quando saía do setor interno do bar. Riu, abraçou-me forte, perguntou pela turma e quis saber se eu soubera da última do Feitosa. Feitosa não tem jeito não, meu amigo, disse ela.
Ficamos de papo uns dez minutos. Mas só a charmosona tagarelava. Minha fala se resumia a “Não é isso! Oh! E então! Caramba”! Parafraseava e bulia na memória. Quem é, meu Deus? Turma? Que turma? Seria a turma da faculdade? Feitosa? Não me lembro de ter me enturmado com nenhum Feitosa. Ela deve estar me confundindo com algum ex. Mas por que não me trata pelo nome do ex? Talvez não, por estar em dúvida se sou realmente o ex. Ela está bebendo. O álcool deixou-a de recordação zanolha. É isso. É coisa dos birinaites. Mas a voz não me é estranha. Ah, o tempo.
Estimei-a nos arredores de quarenta anos

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

SENHORAS E SENHORES, SILVANA!

SENHORAS E SENHORES, SILVANA!

Estás a me decepcionar, nobre TC. Escreves agora somente textos esquisitos, homem de Deus! A quantas andam os escritos brincalhões, cujas entrelinhas, devassamente eróticas, provocam-me resistentes orgasmos literários?
Beijos de tua leitora,
Silvana
Foi esse o imeio da leitora Silvana. E foi esta a resposta, também na chatíssima segunda pessoa:
“Obrigado por me ler, Silvana. Acho que minha veia erótica brochou, querida. Bem que podias me dar um ponto G inspirador. G de gerador, estás a entender? Mas, antes, vou me servir de um excitatório a fim de em ti injetar o colossal prazer.
A réplica beijou a tela do notebook antecedida rs, rs rs:
Sou demasiadamente comum para em ti injetar a salvadora e libertina imaginação. Se bem que... Desculpa, TC, a recepcionista está me chamando. Estou no médico. Tchau!
Fiquei pensando na galhofeira leitora. Certo é que de Natal não era. Não costumamos usar o ti e o tu. O “a quantas andam” também não era corriqueiro. Abandonei a Silvana e fiquei a imaginar um texto de “entrelinhas devassamente eróticas”. Adormeci sem estimulante algum me acarinhar. Nem em sonho as entrelinhas carnais me abraçaram.
Acordei e digitei cavalheirismo:
Médico de quê? Fique sabendo que minha torcida é sua. E o que significa aquele “se bem que”? Ainda não captei nada que lhe provoque os resistentes. Beijos!
Passados alguns minutos, os rs, rs deram lagar aos ra, ra:
Que história é essa de minha torcida é sua? Médico de cabeça e de mente, seu depravadinho. E você tem culpa no cartório?
Eu? Como assim, Silvana?
Você, boy.... Aposto como passei-lhe a perna com o ti e o tu. Pensasse que sou do sul, não foi? Sou daqui mesmo de Natal, boy. Posso chama-lo de boy, TC? A segunda pessoa gramatical é tão somente a segunda pessoa em que me transformei depois de me tornar sua tiete, há coisa de um ano. Você, boy, postou um texto irado sobre comportamento. Você não é você. É o seu comportamento. E, se não estiver gostando dele, tem a opção de substituir o estado mental causador do comportamento. Afinal, você é o comandante de tudo. Li a sua instrução e comecei a agir. Ah, que lesa sou eu. Deixe-me apresentar, boy.
Tenho vinte e dois anos, baixinha, morena, cabelo castanho curto, bunda, senão chupada, mas certamente não empinada, pernas longe de serem pernaças, peitos distantes de peitões, mais para gordinha do que para magrinha. Uma toupeira sexual, concorda?
Estudo sociologia e trabalho numa loja de eletrodoméstico. Era inibida, tirava zero em discordância e andava com os ombros caídos. Era assim até ler aquela postagem e acatar o seu conselho, boy. Em suma, era uma besta quadrada.
Substituí o estado mental de mosca bêbada pelo o de gazela ativa e as coisas começaram a mudar. Notadamente na sexualidade. Surgem atritos, mas os vejo como naturais. Vou exemplificar, boy.
Duas colegas de curso defendiam a presidente Dilma acerca do tão falado impeachment: é golpe desses babacas. A Dilma foi eleita, gente. Teve uma montanha de votos. O que acha você, Silvana, indagou a Suzete, rindo, esperando a aprovação da costumeira mosca bêbada. Também rindo, respondi assim, apesar de petista: aí é que tá, meninas. A Dilma só está correndo esse risco porque foi eleita. Agora, se se enquadra nos dispositivos legais são outros quinhentos. Simples, não? E fechei o caixão: ora bolas! As babacas passaram uma semana sem falar comigo, boy.
Com relação à sexualidade, ocorreu o seguinte. Ando muito na casa da tia Aurora. Então, à medida que eu mudava as atitudes, o marido dela mudava em relação a mim. O coroa, boy, pouco falava comigo, mas agora começava a me encarar. Às escondidas, é claro. Passava uns dias na dele, mas de repente lá vinha olhar lascivo. Que chato, pensava eu quando ele ficava dias sem me mastigar com os olhos. É muito bom ser desejada, boy. A depender de quem está nos desejando, chega em cascatas o formigamento da luz. Sabe o que é isso não, não é, boy?
Bom, essa lascividade passou para outros homens. Sobretudo quando me ouvem. Tão embevecidos se tornam que procuram logo se sentar. Se estiverem em pé, né, boy? E sempre estão, entendeu? No trabalho, os indiferentes colegas de meses atrás me paparicam e me tratam por Silvaninha ou Sil. Se antes eu ralava para me ralar num menino, hoje os homens ficam se ralando para se ralar em mim. Vivo em contínuo êxtase, como se perambulando num clima de calor molhado. Sabe o que é isso não, não é, boy? Se você quiser, eu envio pelo WhatsApp algumas fotos daquele jeito e... Daquele jeito, entenda, são as fotos antigas. Se quiser, mando umas antigas e outras atuais, boy.
            Mas tem um detalhe. Escute, só. Li num folheto de autoajuda uma passagem interessante. Sugeria o autor que o cumprimento ao semelhante devia ser precedido de um mental “amo você, ou vocês”. Acostumei-me com isso, boy. Repito continuamente essa saudação interior. Com convicção naquele tempo, hoje no automático. Então. Embora não acredite que “o amo você” tenha me transformado nesta garota fatal, fica sempre a dúvida de que não tenha me tornado apetitosa, visto que as novas atitudes e a fala interna se deram num mesmo tempo.
Mais um detalhe, boy. Há cerca de um mês, venho pondo em xeque esse extremo poder de sedução. Será tudo verdade? Será que tudo não passa de uma brincadeira da mente? Não estaria eu criando essa mulher irresistível? A mente é foda, boy. Estarei pirando? Fui ao médico a procura dessa resposta, boy.
Beijos de sua leitora,
Silvana
Ah, não. Peguei a mãozinha do responder, cliquei e digitei:
Ah, não, Silvana. Entendi o “se bem que”: você era demasiadamente comum, morta em sexualidade e, de uma hora pra outra, ficou vivíssima na arte de seduzir varões. Mas precisa dizer qual foi o diagnóstico médico, mulher de Nossa Senhora. Sim, mande as fotos. Mande logo a daquele jeito, viu?
Ela respondeu com umas carinhas, rs, rs e ra, ra:
OK, boy. Vou anexar as fotos no e-mail mesmo. Duas. Uma daquele jeito e outra daquele jeito, tá? Pois é, boy. A recepcionista mandou-me entrar. Dei o clássico toc-toc na porta e a médica deu-me um pode entrar. Entrei. A médica estava lendo a minha ficha, suponho. Levantou a vista com o boa-tarde. Levantou a vista e levantou-se. Tipão de mulher, boy. Aquela sim era uma loura fatal. Levantou-se e veio me receber. Recebeu-me com sorrisos, beijinhos - mas não tão beijinhos - acompanhados de Srta. Silvana, como vai, e cortesias análogas. Estranhei tamanha cordialidade, posto não nos conhecermos. Sentamos num sofá. Cruzei as pernas. Nisso, a médica segurou as minhas mãos e soltou um eloquente nossa! Acho até que o “nossa!” saiu antes de ela segurar as mãos.
Comecei a chorar, boy. Estou me lembrando das cenas e voltei a chorar. Desculpa, TC. Mais tarde lhe mando outro e-mail. Não é nada do que está pensando, cara.
Beijos de sua leitora,
Silvana

Vou dar um leia mais a fim de contar o resto da história. É bem curtinho. Só um parágrafo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A ESSKUINNA DO MAL

A ESSKUINNA DO MAL
Trata-se de... Bom, fica na Av. 13, no bairro das Sextas, em Natal, Brasil, e vive sendo amolado pelas avenidas parceiras, a 11 e a 15. Localiza-se no vértice de conhecida figura geométrica. No bico dum ferro de engomar, pra resumir (espero que os sensíveis relevem o “dum” e o “pra”). A Esskuinna do Mal começou barraco de madeira e chamava-se A Esskuinna do Malro. Caldo de cana com pão doce e cachaça com tira-gosto de laranja constituíam a principal receita do empreendimento, embora dindin de batata doce e picolé de tapioca saíssem bem.
Filho de Seu Linácio, o possuidor de parte do ferro de engomar, atende por Mauro o dono de A Esskuinna do Mal. Seu primeiro cliente foi Leonardo. Leonardo é abridor de letras – não gosta que o chamem de pintor - e amigo de infância do Mauro. De infância e colega de copo. Passam o tempo arengando e se reconciliando. Difícil saber quem é mais bruto.
No segundo mês de funcionamento, Leonardo cisma de dar um nome à empresa e abre sugestivo letreiro, escrito a carvão, numa tira de compensado: A ESSKUINNA DO MALRO. Dali a uma semana era visível o acerto do marketing, notadamente no apurado da pinga, posto que a galera ficava bebendo e zonando com o nome da firma. “Mas gastam”, conformava-se a dupla turrona.
Até que num domingo à noite, Mauro e Leonardo fizeram um arranca-rabo. Bicado todo, Leonardo queria que Mauro pagasse pelo letreiro. Igualmente chapado, Mauro disse que não pagava, pois não havia mandado abrir as porras daquelas letras. Leonardo saiu bufando e dizendo que nunca mais viria na merda daquele biongo.
Na segunda-feira o boteco abre com o nome A ESSKUINNA DO MAL. Alguém apagara o RO do MALRO. Na terça-feira, Leonardo chega desconfiado ao quiosque, fica olhando pro chão e quebrando as juntas dos dedos. Sem sequer olhar para o amigo, Mauro lhe empurra uma larga. Leonardo emborca o copo. A paz estava feita.
A freguesia aumentando, alguém sugeriu que Mauro botasse pra vender umas cervejinhas. Outro pegou o embalo e disse que um tira-gosto cairia bem. No dia seguinte o boteco diversificava seus comes e bebes com cerveja, churrasquinho e tripa de porco assada. Mas a cerveja trouxe um inconveniente: o xixi. De tanto os ranzinzas falarem “não” para os clientes, Leonardo estampou numa cartolina. Num icista. Akui num tem onde verter água e peia molle fexa a borraxaria as 7 e 4 da noite.
Tempos depois, aniversário do amigo Leonardo e inauguração de um letreiro luminoso, Mauro bancou uma feijoada comemorativa. Dado o sucesso, ele estendeu a oferta para os domingos de fim de mês. Feijoada e arroz à vontade, um cartazinho nos pés das panelas alertava: Só bote no prato o ki fou comer. Num istrua. Despois lave o prato. Bote uma grana na caxinha pro mode comprar o fejão do mês ki vem.
Nessa toada comunicativa, e aqui acolá arengando com a clientela, os rabugentos

terça-feira, 15 de setembro de 2015

VAZIOS E EM SILÊNCIO

Olá, nobres,
Precisam ler o texto abaixo. É da professora Nivaldete Ferreira, publicado na Tribuna do Norte. Deem um tempo nas prosas de diversão e se deliciem com um texto de reflexão. Subam no bote da autora e descortinem a paisagem empanturrada de bons silêncios.
Boa leitura,
TC

VAZIOS E EM SILÊNCIO
O caso dos imigrantes/refugiados/retirantes sírios tornou-se uma dantesca alegoria do extremo desamparo e desespero a que seres humanos podem chegar. E já chegaram outras vezes (índios dizimados e negros escravizados, por ex.), e muitos vivem assim nas Eritreias e Burundis do mundo e até mais perto de nós (esquecemos rápido os que tiveram suas casas marcadas com as letras SMH (Sec. Mun. de habitação) e derrubadas, lá na Vila União de Curicica-RJ, por ocasião da Copa 2014). Mas o horror de agora está diante dos olhos de todos que usufruem de internet e tv. E o clímax, por estes dias, foi a morte do menino sírio-curdo, Aylan. O facebook encheu-se de fotos, desenhos, montagens, lamentos e até acusações de hipocrisia. Mas quem não se comove com uma cena dessas?... Tudo está muito ‘perto’ de nós, é contemporâneo do nosso cotidiano, do nosso café, almoço e jantinha... Mas talvez o nosso sofrimento dure apenas o tempo da ler ou ouvir a notícia e postar a respeito. Não, não é que devamos ficar encolhidos a cada notícia triste. Dores, principalmente como essas, não devem nos emborcar jamais. Ao contrário, devem nos empurrar para um lugar melhor dentro de nós. Um lugar com mais luz, com mais ‘pouca coisa’, especialmente no que se refere ao mobiliário das bobagens -que às vezes ocupam tanto espaço em nosso espírito; às caixinhas enfadonhas do nosso ego infantilmente vulnerável, sempre disposto a reagir a tudo e a nada, até à careta que a criança faz por estar ofuscada com o sol. -Que é, chatinha? Fazendo careta para mim?!... Egos muito fortes (ou muito fracos?) fazem mais ou menos assim, pois se acham um verdadeiro sol, mesmo que artificial e do tamanho do olho de uma formiga... E haja cotovelada competitiva, haja barulho e vitrine para nossas pequenas excelências, tão excelentes que não podemos desprotegê-las jamais -são nossos frágeis animais de estimação...

Pois bem. O que resta como indagação, diante da ‘guernicação’ que tem sido a vida de milhões de pessoas neste mundo, é se isso, tão empurrado contra a nossa pele, vai servir para a construção de outra subjetividade. Porque de “nova subjetividade tecnológica”, a partir do twitter e do facebook, já estamos cheios. Talvez precisemos é ficar vazios. Em silêncio. Vazios e em silêncio para observar, sentir, pensar e, assim, podermos sair do mar de veleidades em que nos afogamos. Hora de subir ao bote rumo à praia do que os orientais chamam de “nosso Eu verdadeiro”.  Estou junto.

Natal, 11/09/15


Nivaldete Ferreira 

sábado, 5 de setembro de 2015

O HOMEM QUE CALCULAVA

O HOMEM QUE CALCULAVA

Senhoras e senhores, TC!
Estava de papo com uma amiga (de conversa, pessoal, num barzinho, tomando uma de primeira cabeçada), então a sapeca me perguntou qual era o meu método de criar mentiras literárias:
Todo o santo dia entro no teu blogue. Adoro tuas mentiras. Como inventas aquelas coisas, TC?
Meu método é a intuição. Pego uma ideia, escrevo o primeiro parágrafo e o resto vem no embalo, uma frase puxando a seguinte, respondi.
Mas como surge a ideia?
De todo canto, de onde menos espero. Sei explicar não, Silvinha.
Estás mentindo, discordou ela, o olhar jorrando ironia, o meu latejando idolatria. Discordou e valeu-se das palavras de antigo professor – já falecido. Segundo ela, o professor costumava dizer que era mentiroso quem negava se valer dum esquema para escrever ficção. Se mentiroso não fosse, devia escrever nada num contexto de nada. E ele escrevia bem. Metódico ao extremo, o texto era consistência pura. O homem calculava tudo, TC.
Silvinha podia ter usado “O homem esquematizava, planejava, estudava”, mas achou de usar “o homem calculava”. Arrepiei-me com a expressão, porquanto acabava de ter uma ideia. Ia fustigar a Silvinha com amigáveis deboches, mas limitei-me a rir e alimentar a ideia resultante do calculava: lembrei-me do livro O Homem que Calculava e me vi relendo um de seus episódios, o que se refere à divisão de 35 camelos. Daí veio logo a vontade de convocar o meu primo Bião, o Intuitor, a fim de que desse a versão daquele fato.
Ei, menino! Travaste, foi! Estavas contanto os carneirinhos, era?
Não, Silvinha. Fazia outras contas. Fracionava belíssimo animal cheio de curvas. Via-me admirando-lhe o violão do 1/8 no 1/2 de 1/4 de 1/3 de...
Silvinha calculou está sendo cantada. Do contrário, não teria me interrompido e multiplicado o sorriso dengoso com um:
- Nojento! És um inteiro sedutor.
A conversa está ficando chata, reconheço, gente, mas preciso de um parágrafo para o Homem que Calculava, embora esteja correndo o risco de aborrecer quem já o conhece.
O Homem que Calculava foi escrito por Malba Tahan, heterônimo do professor brasileiro Júlio César de Melo e Souza, e publicado pela Record, em 1938. O livro narra as façanhas aritméticas do calculista Beremiz. É um livro porreta e está disponível na internet. O texto dos camelos chama-se A Partilha, capítulo III.
Certo é que fui pra casa. Não de imediato, também é certo. Do barzinho mesmo, liguei para o Bião e pedi a sua versão acerca da prosa do Malba, a dos camelos.
Tenho-a pronta. Trata-se de politiqueira omissão do Malba Tahan, TC. Vou mandar pro seu imeio a parte omitida. E mandou.
Vou copiar/colar A Partilha, do Malba Tahan, e em seguida a variante do Bião. Se a Silvinha não mentiu, ao dizer que me lia todo o dia, verá que não menti quando lhe disse que não esquematizo nada para escrever.
É isso, pessoal. Boa leitura.

A PARTILHA
Poucas horas havia que viajávamos sem interrupção, quando nos ocorreu uma aventura digna de registro, na qual meu companheiro Beremiz, com grande talento, pôs em prática as suas habilidades de exímio algebrista.
Encontramos, perto de um antigo caravançará meio abandonado, três homens que discutiam acaloradamente ao pé de um lote de camelos. Por entre pragas e impropérios, gritavam possessos, furiosos:
— Não pode ser!
— Isto é um roubo!
— Não aceito!
O inteligente Beremiz procurou informar-se do que se tratava.
— Somos irmãos — esclareceu o mais velho — e recebemos como herança esses 35 camelos. Segundo a vontade expressa de meu pai, devo eu receber a metade, o meu irmão Hamed Namir uma terça parte, e ao Harim, o mais moço, deve tocar apenas a nona parte. Não sabemos, porém, como dividir dessa forma 35 camelos. A cada partilha proposta, segue-se a recusa dos outros dois, pois a metade de 35 é 17 e meio! Como fazer a partilha, se a terça parte e a nona parte de 35 também não são exatas?
— É muito simples — atalhou o “homem que calculava”. — Encarregar-me-ei de fazer com justiça essa divisão, se permitirem que eu junte aos 35 camelos da herança este belo animal, que em boa hora aqui nos trouxe.
Neste ponto, procurei intervir na questão:
— Não posso consentir em semelhante loucura! Como poderíamos concluir a viagem, se ficássemos sem o nosso camelo?
— Não te preocupes com o resultado, ó “bagdali”! — replicou-me, em voz baixa, Beremiz. — Sei muito bem o que estou fazendo. Cede-me o teu camelo e verás, no fim, a que conclusão quero chegar.
Tal foi o tom de segurança com que ele falou, que não tive dúvida em entregar-lhe o meu belo jamal, que imediatamente foi reunido aos 35 ali presentes, para serem repartidos pelos três herdeiros.
— Vou, meus amigos — disse ele, dirigindo-se aos três irmãos — fazer a divisão justa e exata dos camelos, que são agora, como vêem, em número de 36.
E voltando-se para o mais velho dos irmãos, assim falou:
— Deves receber, meu amigo, a metade de 35, isto é, 17 e meio. Receberás a metade de 36, ou seja, 18. Nada tens a reclamar, pois é claro que saíste lucrando com esta divisão.
Dirigindo-se ao segundo herdeiro, continuou:
— E tu, Hamed Namir, devias receber um terço de 35, isto é, 11 e pouco. Vais receber um terço de 36, isto é, 12. Não poderás protestar, pois tu também saíste com visível lucro na transação.
E disse, por fim, ao mais moço:
— E tu, jovem Harim Namir, segundo a vontade de teu pai, devias receber uma nona parte de 35, isto é, 3 e pouco. Vais receber um nono de 36, isto é, 4. O teu lucro foi igualmente notável. Só tens a agradecer-me pelo resultado.
Numa voz pausada e clara, concluiu:
— Pela vantajosa divisão feita entre os irmãos Namir — partilha em que todos os três saíram lucrando — couberam 18 camelos ao primeiro, 12 ao segundo e 4 ao terceiro, o que dá um total de 34 camelos. Dos 36 camelos sobraram, portanto, dois. Um pertence, como sabem, ao “bagdali” meu amigo e companheiro; outro, por direito, a mim, por ter resolvido a contento de todos o complicado problema da herança.
— Sois inteligente, ó estrangeiro! — confessou, com admiração e respeito, o mais velho dos três irmãos. — Aceitamos a vossa partilha, na certeza de que foi feita com justiça e equidade.
E o astucioso Beremiz — o “homem que calculava” — tomou logo posse de um dos mais belos camelos do grupo, e disse-me, entregando-me pela rédea o animal que me pertencia:
— Poderás agora, meu amigo, continuar a viagem no teu camelo manso e seguro. Tenho outro, especialmente para mim.
E continuamos a nossa jornada para Bagdá.
           
Vejamos o que disse o Bião.
            Não terminou assim a história, TC. Sucedeu o seguinte:
            Enquanto o irmão mais velho elogiava o Beremiz, o jovem Harim matutava. De forma que o Beremiz foi puxado pelos fundos das calças quando montava no camelo:
            - Ladrão. O senhor é ladrão. Esse camelo não lhe pertence. Não entendo que bruxaria o senhor fez, mas o certo é que está nos roubando. Tínhamos 35 camelos. Agora só temos 18, mais 12, mais 4: 34. Os babacas dos meus irmãos...
            - Mas de que o menino está reclamando, se em vez de 3 camelos ficou com 4?
            - Não estou reclamando, estrangeiro. Só não quero que nos roubem.
            - E o que é que vai fazer com o camelo 35, jovem Harim?
            - Ficará com nós três. Faremos um rodízio anual. A fração de pai não é ½ para meu irmão mais velho? Então o camelo passará 6 meses com ele, ½ dos 12 meses. Como a fração do Hamed é 1/3, ele ficará 4 meses com o camelo. E eu fico com os 2 meses restantes.
            - Mas aí o jovem estará contrariando o pai, e afanando os irmãos, posto a fração 1/9 dos 12 meses ser menor do que dois meses. Tenho uma ideia. Explano-a se permitirem.
            - Fale, estrangeiro.
            - Disputar o camelo na porrinha.
            - Que porra é isso, estrangeiro?
            - Cada um de vocês pegam três pedrinhas e colocam algumas na mão, sem que os demais percebam quanto foram postas. Pode também não pôr nem uma. Daí estiram as mãos e tentam adivinhar quantos pedrinhas somam nas três mãos. Quem acertar ganha o camelo. Começa pelo...
            Aí, TC, o Beremiz explicou tudo. Como teste, passaram vinte minutos treinando, na maior risadeira. Ficou acertado que o Beremiz participaria do jogo, pois seria a forma de recompensá-lo pela ideia. O detalhe de quem pedia primeiro deu certa teima, porquanto os irmãos achavam que os primeiros tinham mais possibilidade de ganhar. Com baita sorriso, o Beremiz aceitou pedir por último. Primeiro pediria o irmão mais velho, em seguida o do meio, e o caçula seria o terceiro.
            Tudo organizado, mãos fechadas, o irmão mais velho pediu 12 pedrinhas, o total em jogo. O irmão do meio não titubeou. Meu irmão vem com 3 pedrinhas e, também com 3, optou por pedir 11. Igualmente lotado, o caçula fez um ar de desolado e tascou sonoro 10. Diacho, alguém ferrou, avaliou o Beremiz, planejando o que faria com as suas 3 pedras. Beremiz pôs a mão nos lábios, numa atitude meditativa, e as pedrinhas se acomodaram sob a língua. Tem tudo pra dar 9. Uma coisa é certa: não vai dar acima de 10. Posso não ganhar, mas... Beremiz pensou e ainda fez graça:
            - É, só me resta 9. Quero 9.
            Mãos abertas, 9 pedrinhas. Beremiz tratou logo de subir no camelo.
            - Parabéns, estrangeiro. O senhor é muito sabido. Donde o estrangeiro é? Aposto que é das bandas das Américas.
            O Beremiz respondeu, TC, mas falou no idioma dele. Os irmãos entenderam apenas algo como braseiro e Meca do Sul.
           
            Setembro/15 cheio de beremizes,
            TC
           
            Obs. Julgo que o inigmazinho dos camelos é do conhecimento de vocês. Contudo, para os que não o conhece, ou que está com preguiça de raciocinar, vou dar um leia mais a fim de decifrá-lo. Podia tê-lo decifrado aqui, mas adoro brincar com vocês.

domingo, 30 de agosto de 2015

PALMAS PRO SENHOR, PAI

Olá, meus nobres,
Permitam-me a ousadia de postar um texto diferente. Trata-se de algo íntimo, dos cem anos de meu pai.

PALMAS PRO SENHOR, PAI

Qual é a receita para chegar a sua idade, Seu Euclides? Tem algum segredo? Benza Deus!
Nos últimos anos, tem sido frequente tal pergunta na vida de pai. Ele dá como resposta apenas um risinho. Mas se a conversa prosseguir, faz uma revelação acerca da crescida idade. Que revelação é essa? Direi no final deste textinho, embora não seja novidade para boa parte dos presentes.
Mas para quem acompanha a vida de pai, o risinho da resposta esconde princípios de condutas. O primeiro reside na saudação. Como vai você, fulano. É dessa forma que pai costuma devolver um cumprimento. E qual é o som mais cativante aos nossos ouvidos, senão o do próprio nome? Com a benfazeja cortesia, pai já seduz o interlocutor e pavimenta o caminho da boa conversa.
É difícil se segurar e não falar certas coisas, até porque comunicar é preciso. Mas quem disse que é fácil se conter e ouvir calado?
            Não é fácil, realmente. Mas pai habituou-se a ouvir antes de se pronunciar. Não interrompe ninguém. Assim, ele filtra a informação, reduz os mal-entendidos, elimina o estresse, eleva as defesas orgânicas e aumenta a sensação de paz. Tradução: saúde. Quantos anos a mais? Não sei. Dez dos cem?
            Pai utiliza outras atitudes mentais no sentido de angariar saúde, mas para não me tornar enfadonho, peço-lhes licença a fim de enumerar apenas uma, com a seguinte historinha como ilustração:
            Pai tomava conta de um sítio em Vila de Fátima. Seu João era o dono do sítio. Certo dia, uma senhora passava com uma bacia de roupa e pediu uma jaca a Seu João. O chão da jaqueira estava repleto de jacas. Umas emprestáveis, outras mais ou menos, algumas melhores. Seu João andou dum lado pro outro, avaliou os frutos e deu a melhor jaca à mulher.
Pai não esquece o nobre gesto de Seu João, e chama-se sensibilidade o fato de ele não o ter esquecido. A pessoa sensível não esquece essas coisas, gente. Daí, por ter sensibilidade, é incapaz de fazer com o semelhante o que não quer que o semelhante faça com ela. Assim se comportando, pai peneira o bem-querer, extingue o possível remorso, fortalece o organismo e alarga a percepção de paz. Tradução: saúde. Quantos anos a mais? Não sei. Dez dos cem?
            Esses costumes mentais não tornam pai melhor do que ninguém, menos ainda imortal. Oferece, porém, uma escolha comportamental digna de experimentação. Optar por ela são outros quinhentos. Afinal, viver é escolher. Pergunte-se e responda se vale a pena. Mas lembre-se de que a vida é presepeira. Quando imaginamos que temos as respostas, ela dá uma gargalhada e muda as perguntas.
Bom, a revelação de pai sobre a idade. Trata-se do médico dele, pessoal. Meu médico vem de longe e não cobra nada, costuma dizer pai. E acrescenta, dando força na última palavra. Meu médico vem de Nazaré.
Falar nisso, pai, estou vendo seu médico ali no portão. Acaba de chegar. Carrega uma coroa na cabeça com a inscrição Euclides Centenário. Caramba! Vem de braços com uma mulher. É mãe, pai. É mãe! D. Minervina. Vem ele e mãe. Olha só! Mãe está mandando o senhor ajeitar o boné. Ajeite esse boné, Euclides. Ô hômi ajé! Ela falou e começou a rir, pai. O médico também.
Estão beijando todo o mundo. Estão vindo pra cá.
Agora estão batendo palmas pro senhor, pai.
Palmas pro senhor, pai.

29 de agosto de 2015, nos cem anos de pai,
Tião Carneiro



            

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O VIZINHO DA ESQUERDA (Parede e meia com o surreal)

O VIZINHO DA ESQUERDA
                                        (Parede e meia com o surreal)

Dos vizinhos, só conhecem o som alto de músicas obscenas: o da esquerda sempre liga o som às dez horas da noite e treze minutos. Mas quando vão reclamar, o som é desligado. O peste advinha, brincam os recém-casados.
Até que naquela tarde-noite de sexta-feira, estão se apeando da moto no momento em que o vizinho está montando num táxi:
 “Quero falar com vocês”, falou e desceu do táxi.
“Que homem mais feio”, atropelou-se na voz o casal, abraçando-se, como a antever algo nocivo.
“Deve vir se desculpar pelas músicas bregas”, segredou Gracinha, a cabeça de Jorge concordando.
Em segundos:
- Preciso da conta bancária de um dos dois. Peguem logo esse dinheiro. Tem três mil e treze reais aí”, anunciou o homem feio, entregando a Jorge um ligado de notas:
- Quê? Mas...  Mas, senhor... Escute... Não estamos entendendo... O senhor podia...
- A conta, homem. Todas as noites escuto vocês fazendo planos para a reforma da casa. Quero ajudá-los. Adorei o seu cinto, meu jovem. Agora me dê a conta.
“Não podemos...”, gaguejou Jorge, mas foi brecado por encoberto beliscão, visto Gracinha antever o verbo aceitar depois do podemos. Gracinha mudou o verbo:
- Não podemos conversar dentro de casa?
- Não. Estou atrasado. Vou me encontrar com uma garota de programa.
- A casa precisa duma reforma, sim, mas, desculpe, o senhor não pode ter ouvido nossos planos. Primeiro, não conversamos sobre isso. Segundo, mesmo que tivéssemos o costume de conversar, o senhor não poderia escutar, desculpe de novo, dado o seu som alto, embora as músicas sejam excelentes. De qualquer forma, muito obrigada pela ajuda.
- Meu som alto? A senhora está enganada. Passo a noite assistindo a filmes pornôs, fumando maconha e bebendo. Agora, se me derem a conta, em minutos transfiro o resto do dinheiro.
Gracinha deu a conta. Deu logo a dela e a do marido. E os CPFs, por precaução. O feioso saiu. Os bonitões entraram. Ficaram se olhando e caíram na risada.
Gracinha e Jorge

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

MINHAS IMPLICÂNCIAS

MINHAS IMPLICÂNCIAS

Colecionar anos traz muita vantagem. Além da óbvia, por óbvio. Traz algumas desvantagens, também por óbvio. Mas... Fazer o quê? Dou-me como exemplo. Nas vantagens, né, pessoal! Implicante e ranzinza: era assim até me aposentar e de me dá conta de que me tornara colecionador. Ficava birrento com a Mônica, minha chefe, na reunião de começo do ano. Ela mirava a gente e soltava:
“Este ano não vamos colocar metas. Vamos deixar a meta aberta. Mas quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta”.
Terminada a reunião, um colega, cabeção porreta, sempre desabafava:
“Que meta é essa!”
Mas nunca deixamos de atingir a meta. Em todos os anus a meta nova era coberta com novas metas.
Agora, aguador do tempo e livre do estresse metal, sou tão somente implicante. Mas implicância acriançada, cujo remédio está a oito metros de mim. Minha implicância é com os informativos on-line. A maioria faz da língua portuguesa gato e sapato na casa da mãe joana. O que tem de frase falsa, semântica manca e gramática apática não constam no gibi de seu ninguém.
Vejam o que acabo de ler na Tribuna do Norte, às 23 e 23 de hoje, 4 do 8 do 15: “Delator diz que pagou R$ 532 mil para o PT de propina de Belo Monte”. Confuso, não? PT de propina? Fica parecendo ser o PT um Pacotão Titânico, colossal, feito de material radioativo de nome propina e extraído dum Belo Monte. Bastava unir “de propina” ao PT para a confusão se desfazer: “... Pagou 532 mil de propina para o PT de ...” Simples, assim.
Outro negocinho que me deixa irritado é o emprego da palavra “jovem”. Dois carinhas botam o revólver na cabeça de alguém

A CULPA É DO DOCE-DE-LEITE

Sugiro, antes, a leitura do post anterior, MINHAS IMPLICÂNCIAS.

A CULPA É DO DOCE-DE-LEITE

Você já deve ter sentido no lombo as chicotadas oriundas da desorganização pelo qual está passando o nosso país. Acordamos na decadência e vamos dormir no descalabro. Desorganização, decadência e descalabro, sim! Esses três dezinhos não convivem conosco por acaso. São descendentes de outro demoníaco “d”. O “d” de doce-de-leite. O doce-de-leite – grafado assim mesmo, com iniciais minúsculas e todo pegadinho, pra ficar mais feio e, a partir deste ponto, chamado de o Tal – mexeu com tudo e com todos da cena brasileira. Sabem como teve início a nossa ruína?
Foi assim, ó!
Em janeiro de 2003, numa tarde de domingo, no sertão de Pernambuco, uma jovem muito bonita botou uma panela de leite no fogo. Botou, foi namorar e acabou esquecendo a bichinha. Na volta, desorientada, em vez de sal, tacou açúcar no pastoso em que o leite havia se transformado. Tacho devidamente frio, os admiradores da namoradeira provaram a guloseima.
“Que coisa boa! Excelente! Sensacional! Belíssima idéia, Cacilda.”
Conclusão: gostosa que só ela, Cacilda, não a pasta de leite, todos procuravam agradá-la. Cacilda!, a exclamação, surgiu naquela tarde, dos puxa-sacos de Cacilda.
Pois bem. Passados dois dias, Bião, sentado num banquinho, debaixo duma barraquinha, tirava leite de Helena,

segunda-feira, 20 de julho de 2015

NA CADEIRA DA DENTISTA

NA CADEIRA DA DENTISTA

Atenta e meiga. Além de linda. Ela tem o poder de me transformar. De destemido em receoso, de prosador em introvertido. Não me deixa falar, verdade seja dita. Mas adora a minha boca. E eu adoro a dela. Adoro é pouco. Amo tudo dela. E ela tudo de mim. Somos casados. Eu com ela e ela comigo, que fique claro.
Como fez especialização na Alemanha, e para me humilhar, é normal a Dra. Tânia me receber assim:
“Hallo herr Silva!”. E completa, com o olhar castanho vermelho de ironia: “Wie geht es dir?”.
Saúda e começa o ritual: dispensa a auxiliar, pede que eu me deite na horrorosa cadeira, prende meus braços com fita adesiva, beija-me na boca, tranca o consultório e dar início a escavação dentária.
O cerimonial nos excita, confesso. Sempre termina ela tirando a brancura da bata e vestindo a baita candura.
Tânia sabe que tenho medo de dentista. Sou policial, estou acostumado com barulhos de bala, mas morro de medo dos barulhinhos de dentistas. Naquele dia, acabávamos de almoçar, Tânia não mais consentiu a protelação. Faz sete meses, amor. Seus dentes estão reclamando uma limpeza. Marquei para as três horas, viu?
Cheguei na hora. A atendente, a Gilvanete, brincou:
- Pode entrar. Hoje é dia, hein! Fazer o quê?
Falou e sorriu, o olhar na maior mangoça. Achei até que a zombaria não provinha apenas de meu jeitão de preocupado. Estirei a língua pra ela e entrei.
            A doutora me cumprimentou em português. Em português, mas o castanho e o vermelho presentes:
- Olá, Sr. Silva. Como está? Deite-se, por favor. Abra a boca, por gentileza.
Receoso e taciturno, rasgo a boca, fecho os olhos, acendo as narinas. E escancaro a libido. A mangação chegou na gargalhada dela. Decorridos vinte minutos, a luz lá em cima guiando-lhe os instrumentos na minha boca, ela diz:
- Esse paciente ama a sua dentista?
Meus olhos disseram sim. Também o disseram as mãos tamborilando na cadeira.
            Estranhava, porém, Tânia ter me cumprimentado em português, ter deixado livre as minhas mãos, preferido não me beijar e esquecido de fechar a porta. Ela desprezara parte da cerimônia. Mas permanecia a pressa em se desfazer da bata. Desfazia-se e fazia-se luxuriosa. Levantou-me com um beijo e foi fechar a porta.
Não fechou: um marginal a empurrou com uma pistola 380.
Abstenho-me de transcrever