quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A LIBERDADE DE EXPRESSÃO E OS NÓS DO SILVEIRA

A LIBERDADE DE EXPRESSÃO E OS NÓS DO SILVEIRA

Aquilo dava nó na cachola de Silveira.
Silveira tem vinte e seis anos, é modelo internacional. Depois de dois anos no exterior, resolvera redigir um hiato na agenda: havia um mês estava com os pais na praieira Cristal. Não se sentia completamente sossegado, pois a fama lhe roubara o anonimato. E “padecia” do paparicado das colegas da irmã. Exceto o da vizinha Alice
Alice é quem estava amarrando o nó na cachola de nosso amigo Silveira.
Alice chegara ao bairro havia seis meses. Não era bonita, segundo a avaliação masculina, porquanto carente dos atributos que fazem a libido macho rastejar. Mesmo assim rastejava ao ouvir um simples “oi” da “feiosa”.
Nossa vizinha, Silveira. Chama-se Alice. Chegou aqui há seis meses. Tem vinte e cinco anos, simpaticíssima, separada, mãe duma menina. A voz dela excita qualquer marmanjo. Faz logo você pensar besteira. Mas não quer nada com a gente, cara. E sabe tudo de sexo, Silveira.
Essa foi a ficha passada a Silveira pelos amigos. A atualização ocorreu a dois dias da chegada de Silveira, quando ele estranhou a galera suspender a conversa a fim de contemplar a moça baixinha e gordinha que descia dum carro.
- E vocês estão caidinho pela voz melosa. Imagine se a dona fosse bonita. Baixinha e quase gordinha! Tô fora, gente. Sabe tudo de sexo, é?
“Sim, homem. Alicinha é sexóloga. E precisa ser magricela e vara-pau pra ser gostosa, é? Só quero ver quando tu escutar a voz dela”, rebateu Paulo, pelo visto o mais apaixonado da turma.
Passados três dias, Silveira sai na calçada e vê dois colegas trocando o pneu traseiro do carro de Alice. Vai puxar conversa:
Precisam de ajuda?
- Já estão terminando. Muito obrigada.
Silveira arriou a queixada. Ficou olhando para Alice. As palavras fugiam. Não era apenas a voz dela que o imobilizara. Era ela toda. Jamais vira tamanha comunicação corporal. O olhar, por exemplo, parecia estar fazendo uma varredura em suas entranhas. A sintonia mental era escancarada, como se vivessem juntos. A empatia era assombrosa. De tão desorientado, Silveira expressou-se em alemão, país onde trabalhara nos últimos seis meses:
- Sehr angenehm. Mein Name ist...
- Silveira. Ich bin Alice. Prefiro o português, Silveira.
- Você fala alemão? Nossa! Desculpe. É que... É que...
“Não há de que, homem. Obrigada, meus amores. Devo-lhes essa”, Alice agradeceu e deixou os três bocas-abertas emudecidos. Em seguida, ligou o carro, virou-se para Silveira e o sorriso/voz do “bis sparter” acabou de arrebentar a imaginação carnal do pobre.
Aquele foi o primeiro nó na cachola de nosso amigo Silveira.
Passou-se um mês, Silveira sempre avistava Alice descendo do carro. Acenava-lhe, ela, simpatia a rodo, rebatia de bate pronto. Parece pedante. Não está fazendo a minha cabeça. Devo estar pondo contraditórias interrogações na cabeça dele. Assim pensava Alice. Nada fisicamente interessante. Mas está fazendo a minha cabeça. Devo estar pondo misteriosas fantasias na cabeça dela. Pensava assim Silveira.
Em trinta dias, encontraram-se algumas vezes pela calçada. Alice continuamente alegre, mas longe da tietagem. Silveira, cada vez mais embevecido, a querer amá-la, mas a espera da iniciativa dela. Acostumara-se a ser puxado pra cama pelas mais lindas mulheres. Não se ajoelharia ante uma caipira. A cinco dias de viajar, o desespero bateu. Precisava forçar um encontro mais íntimo. Foi salvo pelo aniversário da irmã, a Flávia, no sábado.
A bebida de Silveira acabava em duas taças de vinho. Naquela noite, além do vinho, já ia na segunda cerveja e nada de Alice. Detestaria perguntar à irmã se Alice fora convidada para o aniversário. Até porque, ela não era bem vista pela mulherada da rua. Impaciente com tantas selfies e mimos, o humor de Silveira bate palmas ao ver Alice chegar. Dançar, beliscar e zanzar faz a festa. De quando em quando, Silveira lança um olhar pidão para Alice, como se aguardasse um venha cá. Por fim, braço torcido, foi ao encontro dela. Dali a minutos, estão acomodados numa mesinha, cerveja e guloseima de testemunhas:
- Sabe, Alice, queria convidá-la para jantar, tomar sorvetes, bater um papo mais íntimo. Ficarmos...
- Na horizontal. Há muito tempo não sou cantada assim. Você é um amor, mas não é meu tipo de homem, Silveira. Não vai rolar. Desculpe por tê-lo interrompido e pela sinceridade.
“Por que não?”, respondeu a voz trôpega. De álcool e de decepção.
Porque você não
é livre, não tem liberdade de pensamento. Seja por palavras, seja por gestos. Obedece rigorosamente ao pendular certo/errado. E essa obediência cega tem cheiro de fundamentalismo, doutrina escanteada pelo meu espírito liberal. Daí seu fundamentalismo ignorar o que é manifestação artística e torná-lo incapaz de emocionar-se. Seu riso é sarcástico, não humorístico.
Sexo não faz mudar os meus princípios. Não posso me deitar com um homem que precisou embriagar-se para libertar os pensamentos. Não posso ir pra cama com um macho que, por ser bonito e famoso, acha que o certo é a fêmea tomar a iniciativa duma paquera. Porque foi isso que você há pouco falava quando só faltava me comer com os olhos.
Quem age assim julga que fazer amor é simples encontro de carnes, concerto de bestialidades, e não a união de corpo e espírito, sinfonia de prazer. Fazer amor é o maior simpósio artístico do ser humano, pois emoção, percepção, perícia, fascinação, habilidade, sensibilidade, tudo isso está presente ao ato e comprometido com o ideal de beleza e harmonia.
Fazer amor representa a fidedigna liberdade de expressão e a mais legítima subjetividade humana. É uma obra de arte, Silveira.
É claro que Alice não externou tais conceitos. Silveira estava embriagado. No mínimo a tacharia de chata e presunçosa. Alice tão somente falou:
- Já disse, Silveira. Você não faz meu tipo.
- Tá bem. Vou viajar daqui a cinco dias. Vai me fazer sofrer, Alice. Não vá se arrepender. Nem implore que não fico. Mas não vou chorar, viu? Porque homem não chora.
Silveira se pôs a fitar o além e repetir o “porque homem não chora”. O nó da cachola descia para a garganta. Repetia-se e enchia-se de lágrimas. Penalizada, Alice segurou a mão dele. O toque foi a gota d’água. Ou melhor, aumentou as gotinhas lacrimosas. A repetição, a princípio baixinha, começava a sair da mesa. Agora as lágrimas lhe invadiam a face. Então Silveira achou de dramatizar a situação e adicionou palavras à lamúria. Chorava assim a contradição:
“Porque homem não chora. Estou indo embora. A mala já está lá fora. Vou te deixar. Por favor, não implora. Porque homem não chora. Você foi a culpada desse amor não começar...”
Silveira deu uma parada. Soluçava. Flávia, a irmã, interrompeu a patética cena:
- Chega. Ajudem-me a levá-lo pro quarto, gente. E você, sua poliglota merdinha, vaza daqui. Quem é você para deixar meu irmão assim. Hein! Vaza!
- Não fiz nada demais, Flávia. Só exerci a minha liberdade de expressão.
Eu sou Alice
I’m Alice
Sono Alice
Soy Alice
Je suis Alice

Jan/15

TC