quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A SEGUNDA-FEIRA

A SEGUNDA-FEIRA

Não duvido de nada neste mundo velho. Principalmente quando a informação chega acomodada na boleia da ciência, a exemplo desta aqui. Hoje é o dia mais triste do ano. A crença nessa melancólica oração (Acabo de lê-la no UOL) é do psicólogo Cliff Arnal, da Universidade de Cardiff, do País de Gales. Segundo a reportagem, o colega – também sou psicólogo. Só que de barzinho – “chegou a tal conclusão após resolver uma complicada equação matemática que analisa a meteorologia, as dívidas realizadas no Natal, a queda da motivação e uma crescente cobrança para realizar coisas”.
Equação estruturadinha, a la Einstein, tome um enter e pimba:  o dia mais triste do ano é a terceira segunda-feira de janeiro. A 19 do 1, neste 15 do 2000.
O não duvido ali de cima é apenas um chamativo contextual, pois concordo com o ilustre cientista, embora dissinta da semântica “triste”. Aliás (sou fã do estratégico aliás), a respeito desse assunto, meus alunos do MPBar tiraram dez na prova final de temas aleatórios, último domingo de 2014. Quem me diz qual é o dia mais borocoxô? Levantaram os copos e gaguejaram: a segunda-feira, professor.
Como deve ter percebido, usei borocoxô em vez de triste – daí a divergência com o mestre Cliff – e trabalhei com o período semanal. Prefiro borocoxô, sorumbático, trombudo, macambúzio, jururu, mocoronha, amuado, soturno porque são termos fidedignos ao estado mental da segunda-feira. São passageiros. Na terça-feira, o indivíduo já está pronto pra outras. Outras variantes mentais, entenda-me. E, a princípio, de euforia. Já a tristeza é, por definição, duradoura. Não definitiva, porém.
O borocoxô sofre por leves disfunções na moral, com reflexos no moral. O triste sofre por graves cicatrizes na alma, com profundas sequelas no emocional. O borocoxô está. O triste é. O borocoxô merece perdão. O triste carece de compaixão. O perdão é pedido e concedido. A compaixão é dada e enjeitada. O borocoxô está por causas diversas. O triste é por causa exclusiva. A causa da tristeza é a indiferença à paixão amorosa. Mal diagnosticado pelo lamento do coração. Daí o triste rejeitar a compaixão. Quem quer ser amado por compaixão? Somente a segunda paixão cura o abandono da primeira. Cura, mas... Mas cura. Mas, enquanto, fica o ferro do olhar sombrio, a marca da distração, a mancha do passado presente.
O dia do triste é infinitamente maior do que o do jururu, se é que você está entendendo uma de minhas aulas no MPBar. A rigor (acho feio o em rigor), a segunda-feira não é triste. É tão somente mais um dia. São os estados mentais ou a tristeza que a rotula de triste. Por isso julguei inadequado o “triste” do confrade galês. Mas isso é o de menos. Arnal sabe disso. Problema de tradução, imagino. Não entendeu? Prefere um desenho? Tá você e alguns de meus alunos. Zé Alves e Sávio, por exemplo. Só depois da terceira é que mostram o sorriso da compreensão. Terceira explicação, por óbvio. Vamos ao desenho, pois.
Borocruxura
é sensação. Tristeza é essência. É como se estivéssemos falando de sensação prazerosa e prazer. Quando morre um ente querido, sente-se a sensação de perda. Quando se bebe uma taça de vinho, sente-se a sensação de prazer. Mas aquela não é tristeza, tampouco esta é prazer. Tristeza é única, nasce, repito, da paixão. Prazer também é único, nasce do sexo. Que tal o desenho? Tá vendo uma besteira, é? Pois diga!
Por vezes, a tristeza é momentânea, pois nova paixão pode estar batendo à porta. Também, por vezes, a borocruxura pode estar abrindo a porta da tristeza. É evidente que vai passar a segunda-feira sorumbático o sujeito que chega à casa da sogra com a cantoria dos galos e a esposa o recebe com um “isso é hora, bonitinho? Vai dormir no sofá, infeliz”. Mas o infeliz está somente borocoxô, não está triste. À noite, um papinho leve, uma sopinha quente, e a camaradagem pode voltar dali a instantes. Agora, se o sem-noção (tem hífen?) ficar fazendo rotina disso (tem pleonasmo aqui?), a tromba das segundas-feiras fatalmente virará tristeza, porquanto alguém haverá de lhe bater a porta. Dou como exemplo o meu primo Bião.
O alegre Bião tornou-se um homem triste. Tornou-se, não. Ficou. Ficou, não. Sentiu-se. Explico. Vião, a esposa, cansou-se das domingueiras presepadas e separou-se dele. Assisti ao pé na bunda dado pela Vião. Amigavelmente, mas pé na bunda é pé na bunda:
“Vá com Deus, criatura” desejou ela, Bião na porta do carro, a cara de choro (do Bião, é lógico) avermelhando-me os olhos. Sou muito sensível, gente. Bião não tinha voz. Acenou e balançou a cabeça.
“Espere”, pediu Vião e caminhou até ele. Fez menção de beijá-lo na testa, mas desistiu. Preferiu a cabeça. Tentou. Bião esquivou-se. Esquivou-se, abriu a porta do carro, apanhou um punhal, tirou-o da bainha e o entregou a ela:
“Beijo na cabeça não, por favor! Não preciso de esmola. Pegue. Dê-me uma punhalada no coração”, disse ele, aos prantos, tirando a camisa, abrindo os braços, estufando os peitos, entregando-lhe o punhal.
Isso aconteceu numa segunda-feira, a terceira do ano, à tardinha, seis horas em ponto.
Foram minutos de danação. Mão direita de Bião estirada, olhar sangrando de paixão, a lâmina pontiaguda em conluio com o mal. Doeu, gente. Bião era um homem triste. Era, não. Sentia-se.
A frieza de Vião esquentou, a beleza expandiu-se, a indiferença trabalhou. Delicadamente, Vião recebeu o punhal, entregou-me, abraçou Bião e desmanchou-se em lágrimas. Ficaram mais de cinco minutos abraçados.
Só saí do estado de estupefação quando tomei uma. Eu, Bião e Vião. Os dois abraçadinhos.
Hoje, dezenove do um, nenhum ano depois, revejo a cena e choro.
Desculpem. Eu... eu... Acho que... Desculpem, a postagem fica pra amanhã ou pra quarta-feira.

Jan/15

TC