quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

FICÇÃOZINHAS DUMA RESSAQUINHA DE 2014


FICÇÃOZINHAS DUMA RESSAQUINHA DE 2014

Assassina! Assassina! Dissimulada. Ladrona. Paradoxal. É ela. Ela é a internet. Está esganando a leitura, a peste. A arte literária sofre com a carência de ar em razão da arteira. Exagerado? Exagerado uma ova! Quer uma prova? Você, que se diz bom leitor, passa quantos minutos lendo sem se distrair? Três, quatro, não é? E quem o desconcentrou, senão a safadona? E não deixa desleixado só você não. Rouba também a atenção do escrevente. Ninguém lê mais do que quatro minutos e a sorrateira pimba! O escrevinhador escreve um parágrafo e a fingida pimba! Pimba é um apitinho do zap-zap, é o cantinho do computador mostrando que chegou um imeio, é o...
Só um minutinho, o celular tá tocando.

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Abençoada! Abençoada! Verdadeira. Ladrona. Paradoxal. É ela. Ela é a internet. Está facilitando a leitura, a bendita. A arte literária respira em outras artérias em virtude da benfazeja. Exagerado? Exagerado uma ova! Quer uma prova? Você, que se diz bom leitor, quantas vezes não quis ler um texto distrativo e não o encontrou? Trinta, quarenta? E quem agora o socorre, senão a diletante? E não auxilia só você não. Rouba também a letargia do escritor.
A reestruturação pára (com assento, sim. Sou transgressor) por aqui. O celular tá tocando. Mas há exceções.
Que toque.

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A escola devia ensinar a pensar. Mas pensar dá extremado trabalho (por que deixei essa rima duma ruma de “a” aqui?). Então educadores e educandos acordam em não acordar a mente e pronto. Mostrar a distinção entre pensar, imaginar e visualizar já estaria de bom tamanho. Pensar é elaborar hipóteses. Imaginar é visualizar o não visto. Visualizar é imaginar o conhecido. Pensar é conjunto e inerente aos humanos. Imaginar é subconjunto e tem viés erótico. Visualizar é a contrapartida do imaginar. Falava essas coisas pra uma amiga linda, lindeza que vive gritando prazer e acordando luxúrias, quando me deu vontade de atiçá-la:
- Você é linda.
- Sou casada, viu?
- Não perguntei se era solteira. Disse apenas que era linda. Não a convidei pra cama.
Aí, para enfurecê-la, mandei a verdade. Quer dizer, ...
- Nem pretendo.
Ela me olhou de cima abaixo, mas mais no meio. Ficou um tempão assim. Talvez estivesse pensando.
Ou me imaginando.

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Pensando bem, esse negócio de se meter na vida alheia é um tremendo defeito. Quem quiser que leia apenas quatro minutos. Ou não leia nenhum. Leia Nabokov ou os tons de cinza. Tem arte e marte pra todo mundo. Por que se importar com isso? Curta o zap-zap, feicibuque, o escambau. Chega dessa febre de conceitos e rótulos. Amor exagerado aos próprios valores e interesses a despeito dos de outrem. O nome disso é egoísmo. Devemos dar um chute na bunda do fuleiro, apontar-lhe o dedão e dizer que a porta da rua é a serventia da casa. O que é você acha?
Não acha nada? Não tem opinião própria?
Você é um bucéfalo.

Janeiro/15
TC