quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A SORTE DO AZAR

A SORTE DO AZAR
 “Setecentos e oitenta reais, senhor. Confira, por gentileza”, pediu a moça. Rapidamente, Paulinho fez a separação: quatro notas de cem na carteira, oito de cinquenta no bolso da bunda e oitenta nos bolsos dianteiros da bermuda. “Em caso de assalto, espero livrar pelo menos um bolso”, disse, sorrindo para a caixa da Caixa. Mas o precavido Paulinho acabava de assaltar a jovem. O desonesto - como você notou pela conta das notas – já percebera que ela estava lhe dando cem reais a mais.
A grana de Paulinho origina-se da pesca. Ele é pescador no lugar onde nasceu.  Foi, melhor explicando. Explicando melhor: durante três ou quatro meses ao ano, o governo federal dá um salário mínimo a cada pescador, pois nesse período, o da desova dos peixes, conhecido como defeso, a pesca é proibida. O pescador se cadastra em sua comunidade pesqueira e recebe a grana.
Pois bem, Paulinho pescava tucunaré e tilápia. Hoje mal distingue tucunaré de piaba, porquanto viver na capital, na casa da irmã, fazendo bico de servente de pedreiro, já que tem uma peixada no interior (um parente, o Guilherme). Guilherme, o parente, o fiscal do Programa auxílio do governo federal, faz o migué e Paulinho vai ao interior só assinar alguns papéis, chamados por ele, Paulinho, de Seguro Defesa. A grana, pois, vinha desses papéis, das pastagens do governo, e não dos pastos das barragens.
Verdade é que Paulinho é um danado de esperto. Saiu da Caixa, matutou e decidiu voltar de táxi pra casa. Com tantos assaltos a ônibus, não convinha arriscar. Pensava em tomar umas cervejas e jogar no bicho, duas de suas três paixões. A terceira é um bereuzinho. Paulinho adora rabo de saia de beréu.
Bom, no bairro vizinho ao dele, Paulinho mandou o taxista parar na frente de um bar:
- Dezenove reais e trinta centavos.
“Pode ficar com o troco”, disse o mão-aberta Paulinho, dando cinquenta reais ao taxista. O felizardo motorista deu-lhe sonoro muito obrigado, acompanhado de não menos sonoro boa-tarde.
Paulinho olhou as horas. Uma da tarde. Acomodou-se na calçada do bar e pediu uma cerveja. Tomaria duas, jogaria no bicho e iria almoçar. Deixaria para beber à noite. Foi só emborcar a primeira copada pra ficha do troco tilintar: porra! Tirara a nota do bolso traseiro da bermuda. Cinquenta reais, portanto. Dera trinta reais a mais ao taxista. Por isso o peste foi tão gentil, pensou.
O bar estava vazio. Apenas um casal, a duas mesas da dele. Também bebiam cerveja. No extremo da calçada a banquinha do jogo do bicho.
O bicho vai ser camelo, pensou Paulinho, pensando na polpuda gorjeta. Trinta é camelo. Quem sabe se o azar não traz a sorte? Paulinho comentou o episódio do troco com o casal. Mais para puxar conversa, pois a moreninha era muito bonita:
“Ele percebeu, sim. Foi desonesto, acho. Agora você joga na dezena trinta. Jogue a placa de minha moto. 7230. De repente...”, aconselhou o rapaz.
Pra quem já pensava no camelo foi um prato cheio. Mais uma copada de cerveja e lá estava Paulinho jogando no bicho. Carregou no camelo. Primeiro ao quinto e tudo. Tirou cem reais da carteira e passou pra cambista.
Paulinho voltou e voltou a papear com o casal. E a beber. A jovem, Paulinho dava-lhe vinte anos, ficava mais bonita a cada copo de cerveja que Paulinho chupava. Demais, parecia tímida, o jeito preferido dele. Paulinho a admirava, mas com extrema sutileza. Já se metera em inúmeras confusões por causa de sua ousadia com mulheres. Embora, dissesse pra si, essa não pareça mulher do cara. Se fosse, estariam juntinhos, não de frente pro outro.
Paulinho aproveitou uma ida do rapaz ao banheiro para dar uma encarada na moça. Ela riu timidamente e baixou a cabeça. Paulinho esfregou as mãos. Cinco minutos depois:
- Estamos conversando de tão longe. Se quiserem sentar aqui... Tragam as garrafas.
Assim o rapaz apresentou-se:
- É um prazer. Meu nome é Cláudio Nogueira, CN para os amigos. Essa é minha irmã, Bruna Cláudia, a BC.
- Sou Paulo Brasil. Podem me chamar de PB, então.
Então começaram a jogar conversa fora e cerveja dentro.
Uma das manias de Paulinho é beber com um livro, celular na mesa. Pega qualquer livro da irmã e sai com ele. Não sabe ler, aprendeu tão somente a desenhar o nome, mas acha charmoso sorver a bebida com um livro nas mãos. Caso tenha por perto uma mulher, o intelectual prega os olhos na leitura e com uma das mãos fica procurando o copo da bebida. Concentração total. Melhor, parcial, já que o rabo de olho fica pescando os femininos homônimos. Naquela tarde, ele lia Cinquenta Tons de Cinza.
- Posso?
“Por favor”, respondeu o solícito, interrompendo a resenha do futebol com CN, entregando à BC o livro, sorriso de orelha a orelha. As do Paulinho, naturalmente, não as dos Tons de Cinza ou as da BC.
Saíram do assunto futebol e entraram no tema insegurança. Paulinho foi ao banheiro, voltou, disse que havia pedido um tira-gosto de galeto com macaxeira e retomou o tópico insegurança:
- Morro de medo de ser assaltado, cara. Escuta só. Saquei há pouco, na Caixa, setecentos e oitenta reais. Sabe o que fiz, com medo de ser assaltado no ônibus? Espalhei a grana em tudo o que era bolso. Mesmo assim vim de táxi.
- Pra gente maceteada como a gente isso não funciona, PB.
- É. Aí eu pergunto, amigo Cláudio. Quando vai acabar essa onda de assalto, cara? Todo o mundo vive assombrado. Sei não, viu?
- Sei lhe responder não, PB. Só sei que pra eu e a BC só acaba quando a gente morrer. É que tem muito assaltante, bicho. A concorrência tá grande. Pra você ter ideia, faz duas horas que estou aqui e já vi passar bem uns vintes assaltantes.
- Mas por que tem tanto assaltante solto, cara?
- Ah, PB, porque quase não tem polícia e tem muita arma no mercado do crime. Não tô preocupado com isso não, PB. Mas eu podia resumir a situação com uma palavra: risco. Pra gente, o risco é mínimo. Vale a pena.
- É. Não vai pegar o tira não, Bruna? Pega aí. Pense numa macaxeira boa! O diabo da cerveja é fogo. Vou no banheiro de novo.
Mas Paulinho não queria fazer xixi. Pensava nas respostas de Cláudio. O cara dizia a gente, a gente, a gente, como se ele e a irmã pertencessem àquela gente. Disse até que tinham passado mais de vinte assaltantes ali. Como danado ele sabia disso? Além do mais, Paulinho vira algo como um cabo de revólver na cintura de Cláudio. Achava melhor pegar logo o beco. A jovem agora lhe causava medo. Tomaria a saideira e daria o fora. Pensando melhor, melhor seria esperar eles irem embora. Caminhou pra mesa com essa dúvida.
Enquanto isso, Cláudio confabulava com Bruna:
- O mané começou

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A CARRASPANA DE CERTO FOLIÃO


A CARRASPANA DE CERTO FOLIÃO

Foi o Benjamim quem primeiro desconfiou. Não disse uma nem duas, mas o olhar do cara pra cima do negrão dizia tudo. Nisso, o Miguel caiu na risada. Aí não deu outra: em segundos estávamos todos rindo. Tudo começou...
Bom, estávamos em Muriu, domingo de carnaval, cerca de nove horas da noite. Só amigos. De fora apenas a moça que cuida do jardim da casa. Jogávamos umas pra dentro, jogávamos bingo, jogávamos conversa fora. Exceto a dupla Benjamim/Miguel. Esses dois, aliás, são esquisitões: não bebem, não fumam, nem são de jogar conversa fora. O negócio deles é observar e distribuir gozação com o olhar. Daí que o Benjamim não deixou passar em branco o “carnis levalle” do negrão. Percebemos a fala erudita do cara, estranhamos a eloquência, mas ficamos na nossa. Mesmo porque ainda estávamos sóbrios, inclusive o negrão. Mas a gargalhada do Miguel nos contagiou.
“De que tão rindo, seus bucéfalos?”, indagou o negrão, naquele jeito baixinho de falar. Falou e pirou. Vejam como o danado falou:
Fiquem sabendo que “carnis levalle” é a origem do carnaval. Significa jogar fora a carne. Seja a mastigável, seja a carnal, se é que os ignorantes bucéfalos estão me entendendo.
Fiquem sabendo que carnaval é subversão da ordem social, troca de papéis consuetudinários. Na babilônia, por exemplo, o rei escolhia um prisioneiro para assumir o seu reinado durante os três dias de carnaval. O felizardo passava os três dias numa boa, com direito a dormir com as esposas do rei, só que na quarta-feira de cinzas o infeliz era enforcado e empalado.
Fiquem sabendo que o triângulo amoroso entre Pierrô, Arlequim e Colombina...
Empolgado, o negrão gesticulou e a mão esquerda derrubou o copo de cerveja. A esposa, a Van, logo pegou um pano e... Prestou não. O negrão ficou transtornado. Ficamos apreensivos. A moça do jardim, então! Era uma tristeza só. Tudo porque o negrão viu um jota no pano e conheceu a cueca dele. O bicho ficou fora de si e deu aquela brigada com a mulher. O negrão, pessoal, não quer que a Van beba. E a Van já não fazia um quatro. Tão desorientado o cara ficou, que achou que a moça do jardim era a mãe dele. Soltou o verbo:
Eu mato. Eu mato quem pegou minha cueca pra fazer pano de prato. Ô jardineira por que estás tão triste? Mamãe eu quero mamar.
“E agora?”, perguntou o Miguel, reconhecendo a doidice do negrão.
O negrão saiu pra rua, deu um tropeção na Chiquita Banana e derrubou a lata d’água que a pobre carregava na cabeça. Saímos na cola dele. Logo o negrão tirou onda com o Zezé, o garçom do barzinho do Zé Pereira, nosso vizinho:
“Olha a cabeleira do Zezé. Será que ele é”? Jogou a indireta, ficou sassaricando e cantando “eu bebo sim”. De quando em quando o danado olhava pra trás, dizia que ia lavar o pé do sapo e zombava da gente, dizendo que o cordão dos puxa-sacos cada vez aumentava mais. O negrão desistiu de lavar o pé do sapo e

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

AS ESCOLHAS DE JOANA

AS ESCOLHAS DE JOANA
(Colaboração da leitora Silvana. Belíssimo conto, quatro laudas. Espero o seu texto também, tá? Envie para tcarneirosilva@gmail.com)

Dormi mal. Certamente estava ali a razão do mau humor no café da manhã. Devia ter sido menos amarga com a jovem que me servira o suco. Ela não tivera culpa de minha indecisão entre suco de laranja e de caju, tampouco por eu ter optado pela insípida laranja. Ela trocara pelo saboroso caju, mas meu agradecimento saíra demasiadamente azedo.
Saboreava o mamão e pensava em dar uma voltinha nos arredores da cidade. Afinal, iria ficar um bom tempo sem vir a Natal. A companhia me escalara para voos internacionais e dera como base Rio de Janeiro e São Paulo.
             - Bom dia, srta. Joana. Dormiu bem?
            Aborreci-me com a saudação do gerente do hotel. Não só pela acidez do humor, mas também por birra a certas condutas. O gerente é vezeiro delas. É muito meloso. O doce de seu cumprimento é puro interesse.
Ah, como os homens são idiotas. Salvo as exceções, é claro. Basta ficarem diante duma mulher bonita para escancarar o grotesco. Olham pra mulher como a querer desnudá-la, tornam-se infantilizados, caricatos. Se estiverem bêbados, o cômico se acasala com a inconveniência e expelem o ridículo. E esse tipo de homem não percebe que o exagerado “benzinho” chega pegajoso aos ouvidos da verdadeira mulher. Sou mais o mais ou menos feioso e autêntico que o extremamente bonito e sonso.
Na minha profissão, comissária de bordo, é comum assistirmos ao nascimento do ridículo. Aos olhos da maioria dos passageiros, nossa beleza apresenta-se exponencial. Tenho trinta anos, sou morena clara, olhos castanhos, bumbum arrebitado. Linda e gostosa é a combinação preferida dos homens para me definir. Não que não goste de me sentir desejada, mas o elogio pegagento é constrangedor.
A gentileza do gerente, o “dormiu bem, srta. Joana”, é prenhe de segundas intenções. Ele é até atraente, mas a desfaçatez o joga na vala dos ingênuos. Prefiro o moço da limpeza: inteligente, direto, perspicaz. Já dei corda ao gerente, mas tão somente para me divertir. Devolvia-lhe um “dormi bem, obrigada, Anchieta”, e sorria. Ele logo se sentava e haja conversa boba. Hoje eu não estava a fim de papo. Não queria ser grossa, mas não podia lhe responder. Qualquer resposta seria pra ele um fiapinho de corda.
Vali-me do fingimento, a mais sacana função do celular, e sapequei-lhe um caloroso bom-dia:
- Bom dia, Anchieta... Ah, desculpe, o celular... Olá, amor. Há quanto tempo. Estava...
Lógico que a educação do Anchieta o fez afastar-se. Saiu sem saber se dormi bem.
Subi para o apartamento e tirei uma soneca. Acordei, vesti-me comportadinha, pois não queria chamar a atenção dos homens: trajei-me com um vestido meio compridão, de alcinha branca. Mas zero de decote. Era meio dia e meia quando apanhei um táxi

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

SÓ NÃO PODE SER ASSIM.

SÓ NÃO PODE SER ASSIM

(Sugiro ler antes o post anterior. Mas é apenas sugestão)

Não. Definitivamente não. Estou percebendo teus gestos. Queres te mostrar indiferente, mas não consegues. Os sinais involuntários te traem. Tencionas edificar algo íntimo e clamas por minha cumplicidade.
Não. Não a terás.
Não é assim que funciona. Tua salvação pode ser o pecado. A minha não tem o pode. É. É a honra.
            Não. Podes me imaginar à vontade. É-me impossível evitar. Mas jamais serei depósito de teus animalescos suores.
            Não. Enganas-te. É zero meu poder sobre teu sexo.
         Não. Não preciso de gráfico. Tudo teu é transparente. Inclusive a simulação. Simulação da intenção, é claro. Claro é que a intenção é autêntica.
Não. Não preciso de provas. Vejo tudo. Mudando-te, riscando-te, formatando-te. Queres que desenhe?
Não. Não quero te ouvir. Tua voz, teu olhar, tu, tudo, tudo de ti me tortura.
Sim. Tortura e fere-me, sim. Certamente a ferida da paixão. Meu corpo dói, expele suores. Alguns frios, de febre. Mas só alguns. A maioria origina-se da febre.
Sim. Vivia disfarçando essa dor, sim. Agora estou aqui, ajoelhada, olhando-te diretamente.
           Sim. Sei disso, sim. Teu corpo é muito mais do que sexo. Teu corpo forma uma sequência de volúpia, prazer e luxúria. É sexo, excitação, xodó, orgia.  Viste como teu sexo é sex?
            Sim. Tens razão, sim. Não era eu uma segunda pessoa, mas sentias-me assim.
         Sim. Tem razão. Aquela pessoa corria de você. Não mais correrei. Não serei mais a segunda pessoa. Serei mais eu. Sei que você tem a capacidade de ler meu olhar. A partir de hoje, olhe-me atentamente e verá que o vejo em dobro. Veja-me e verá ternura e paixão, corpo e prazer, gritos e sussurros.
Sim. Quero que o mapa seja o território, sim.
Sim. Quero que a imaginação se transforme em visualização. Não diz você que só se visualiza o imaginado? Mas pode ser simultâneo, não pode?
Está com medo? Não devia ter. Medo de amar é o cúmulo. Cúmulo de quê? Sei lá! Só sei que é o cúmulo. Agora que me seduziu está morrendo de medo. Agora está vendo pecado em tudo. Amar não significa pecar. Odiar, sim.
Prefere o dito pelo não dito, então.
Não ou sim?