quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A CARRASPANA DE CERTO FOLIÃO


A CARRASPANA DE CERTO FOLIÃO

Foi o Benjamim quem primeiro desconfiou. Não disse uma nem duas, mas o olhar do cara pra cima do negrão dizia tudo. Nisso, o Miguel caiu na risada. Aí não deu outra: em segundos estávamos todos rindo. Tudo começou...
Bom, estávamos em Muriu, domingo de carnaval, cerca de nove horas da noite. Só amigos. De fora apenas a moça que cuida do jardim da casa. Jogávamos umas pra dentro, jogávamos bingo, jogávamos conversa fora. Exceto a dupla Benjamim/Miguel. Esses dois, aliás, são esquisitões: não bebem, não fumam, nem são de jogar conversa fora. O negócio deles é observar e distribuir gozação com o olhar. Daí que o Benjamim não deixou passar em branco o “carnis levalle” do negrão. Percebemos a fala erudita do cara, estranhamos a eloquência, mas ficamos na nossa. Mesmo porque ainda estávamos sóbrios, inclusive o negrão. Mas a gargalhada do Miguel nos contagiou.
“De que tão rindo, seus bucéfalos?”, indagou o negrão, naquele jeito baixinho de falar. Falou e pirou. Vejam como o danado falou:
Fiquem sabendo que “carnis levalle” é a origem do carnaval. Significa jogar fora a carne. Seja a mastigável, seja a carnal, se é que os ignorantes bucéfalos estão me entendendo.
Fiquem sabendo que carnaval é subversão da ordem social, troca de papéis consuetudinários. Na babilônia, por exemplo, o rei escolhia um prisioneiro para assumir o seu reinado durante os três dias de carnaval. O felizardo passava os três dias numa boa, com direito a dormir com as esposas do rei, só que na quarta-feira de cinzas o infeliz era enforcado e empalado.
Fiquem sabendo que o triângulo amoroso entre Pierrô, Arlequim e Colombina...
Empolgado, o negrão gesticulou e a mão esquerda derrubou o copo de cerveja. A esposa, a Van, logo pegou um pano e... Prestou não. O negrão ficou transtornado. Ficamos apreensivos. A moça do jardim, então! Era uma tristeza só. Tudo porque o negrão viu um jota no pano e conheceu a cueca dele. O bicho ficou fora de si e deu aquela brigada com a mulher. O negrão, pessoal, não quer que a Van beba. E a Van já não fazia um quatro. Tão desorientado o cara ficou, que achou que a moça do jardim era a mãe dele. Soltou o verbo:
Eu mato. Eu mato quem pegou minha cueca pra fazer pano de prato. Ô jardineira por que estás tão triste? Mamãe eu quero mamar.
“E agora?”, perguntou o Miguel, reconhecendo a doidice do negrão.
O negrão saiu pra rua, deu um tropeção na Chiquita Banana e derrubou a lata d’água que a pobre carregava na cabeça. Saímos na cola dele. Logo o negrão tirou onda com o Zezé, o garçom do barzinho do Zé Pereira, nosso vizinho:
“Olha a cabeleira do Zezé. Será que ele é”? Jogou a indireta, ficou sassaricando e cantando “eu bebo sim”. De quando em quando o danado olhava pra trás, dizia que ia lavar o pé do sapo e zombava da gente, dizendo que o cordão dos puxa-sacos cada vez aumentava mais. O negrão desistiu de lavar o pé do sapo e
entrou num clube. Apanhou uma máscara negra e caiu na gandaia, cantando alalaô. Não passou três minutos, gente, o negrão criou uma confusão. Uma jovem, a Margarida, acusou o bicho de ter jogado pó de mico nela. Tentaram botar o negrão pra fora. Ele ficava repetindo o “daqui não saio, daqui ninguém me tira”. O jeito foi chamar a polícia. Fomos todos pra delegacia. Afinal, somos amigos do arruaceiro. Mas não ficou preso, não. A esposa, a Van, chegou com uma bandeira branca e deu um puto beijo no negrão. O delegado Lamartine Babo ficou sensibilizado com a cena e soltou o negrão.
Voltamos pra casa. Entramos em casa, o negrão cantando “Quem sabe, sabe e é dos carecas que elas gostam mais”.
O Miguel olhou pro negrão e soltou a piada:
“Cachaça ainda mata o infeliz desses”.
Foi assim ,sim.

Domingo de carnaval de 2015 em Muriu,
TC


Nota:
Muriu, belíssima praia, fica a 40 quilômetros de Natal. O negrão é Jean, amigo da turma que estava na casa de praia. Como o Jean gosta de zoar com todo o mundo, achei por bem dar um tempo na leitura de “Azar o seu!”, divertido livro da Carol Sabar, e escrever estas besteiras para tirar onda com o negrão.
O Benjamim é irmão do Miguel. Benjamim tem sete meses. Miguel vai completar dois anos.