terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

AS ESCOLHAS DE JOANA

AS ESCOLHAS DE JOANA
(Colaboração da leitora Silvana. Belíssimo conto, quatro laudas. Espero o seu texto também, tá? Envie para tcarneirosilva@gmail.com)

Dormi mal. Certamente estava ali a razão do mau humor no café da manhã. Devia ter sido menos amarga com a jovem que me servira o suco. Ela não tivera culpa de minha indecisão entre suco de laranja e de caju, tampouco por eu ter optado pela insípida laranja. Ela trocara pelo saboroso caju, mas meu agradecimento saíra demasiadamente azedo.
Saboreava o mamão e pensava em dar uma voltinha nos arredores da cidade. Afinal, iria ficar um bom tempo sem vir a Natal. A companhia me escalara para voos internacionais e dera como base Rio de Janeiro e São Paulo.
             - Bom dia, srta. Joana. Dormiu bem?
            Aborreci-me com a saudação do gerente do hotel. Não só pela acidez do humor, mas também por birra a certas condutas. O gerente é vezeiro delas. É muito meloso. O doce de seu cumprimento é puro interesse.
Ah, como os homens são idiotas. Salvo as exceções, é claro. Basta ficarem diante duma mulher bonita para escancarar o grotesco. Olham pra mulher como a querer desnudá-la, tornam-se infantilizados, caricatos. Se estiverem bêbados, o cômico se acasala com a inconveniência e expelem o ridículo. E esse tipo de homem não percebe que o exagerado “benzinho” chega pegajoso aos ouvidos da verdadeira mulher. Sou mais o mais ou menos feioso e autêntico que o extremamente bonito e sonso.
Na minha profissão, comissária de bordo, é comum assistirmos ao nascimento do ridículo. Aos olhos da maioria dos passageiros, nossa beleza apresenta-se exponencial. Tenho trinta anos, sou morena clara, olhos castanhos, bumbum arrebitado. Linda e gostosa é a combinação preferida dos homens para me definir. Não que não goste de me sentir desejada, mas o elogio pegagento é constrangedor.
A gentileza do gerente, o “dormiu bem, srta. Joana”, é prenhe de segundas intenções. Ele é até atraente, mas a desfaçatez o joga na vala dos ingênuos. Prefiro o moço da limpeza: inteligente, direto, perspicaz. Já dei corda ao gerente, mas tão somente para me divertir. Devolvia-lhe um “dormi bem, obrigada, Anchieta”, e sorria. Ele logo se sentava e haja conversa boba. Hoje eu não estava a fim de papo. Não queria ser grossa, mas não podia lhe responder. Qualquer resposta seria pra ele um fiapinho de corda.
Vali-me do fingimento, a mais sacana função do celular, e sapequei-lhe um caloroso bom-dia:
- Bom dia, Anchieta... Ah, desculpe, o celular... Olá, amor. Há quanto tempo. Estava...
Lógico que a educação do Anchieta o fez afastar-se. Saiu sem saber se dormi bem.
Subi para o apartamento e tirei uma soneca. Acordei, vesti-me comportadinha, pois não queria chamar a atenção dos homens: trajei-me com um vestido meio compridão, de alcinha branca. Mas zero de decote. Era meio dia e meia quando apanhei um táxi
e saí sem destino. Procurava um ambiente em que pudesse saborear uma bebida e curtir a solidão. A soneca fora insuficiente para inibir meu quê melancólico. Depois de trinta minutos e a desaprovação de vários barzinhos, pedi que o motorista me deixasse num bar do Alecrim.
Bar de canteiro, simpaticíssimo, pedi uma caipirosca e fiquei observando os poucos clientes: a três mesas da minha, um casal tomava cerveja; no alpendre do bar, quatro senhores tratavam de negócios, imaginei, e também tomavam cerveja; também na cobertura, mas distante dos senhores, um rapaz tomava algo. Água, desconfiei.
Na terceira caipirosca, estava apaixonada pelo ambiente. Igualmente apaixonada estava a clientela. Apaixonada por mim, diga-se. Os caras, exceto o bebedor de água, encaravam-me descaradamente. Inclusive o casal perto de mim. A moça era a mais insistente. Fiz que não vinha notando aquela ardência carnal. Deliciava-me com o foguinho da caipirosca. Tirei da bolsa um livrinho de bolso, presente de meu ex-marido, e me pus a ler. Na primeira página me interromperam:
- Olá. Com licença. É, me enganei. Bom...
Levantei a vista. Estava ali quem menos eu esperava. O bebedor d’água. Água, sim, dizia-me a garrafinha de água mineral. Sorri amarelo e voltei-me para o livrinho.
- Enganei-me, moça. Daquele canto, você parecia bonita. Agora vejo que não é apenas bonita. É linda. Você é a mulher mais linda que já vi.
- Mais um sorriso amarelo, tímido obrigada e retomo a leitura:
- Imploro sua atenção por três minutos. Depois pode fazer de mim o que quiser. Até chamar a polícia. Bom, estive preso durante dois anos. Os colegas me resgataram ontem. Sou assaltante de banco. Ontem mesmo assaltamos um carro forte, pertinho de Recife. A parte que me coube foi cento e dois mil reais. Gastei quase dois. O resto, mil notas de cem, está comigo. Escute, só. Estou há dois anos sem ver uma mulher nua. Então quando você desceu do táxi, senti uma pontada no coração. A ideia apareceu na hora. A ideia é a seguinte. Vou lhe dar cinquenta mil reais para você ficar comigo por duas horas num motel. Não precisa ficar completamente nua. Sutiã e calcinha me satisfaz. Sou um homem justo. Cumprida as duas horas, cada um pega seu rumo. O que me diz?
O que falar diante de tamanho absurdo. Fiquei passada. Gaguejei:
- O senhor se retire e...
- Esperava tal reação. Ficarei por trinta minutos ali. Como já sabe de meu segredo, se você usar o celular serei forçado a crer que está ligando pra polícia. Nessa pressuposição irei embora. Com o coração amontoado de bombeiros, mas irei. Se quiser conversar, um olhar pra mim será suficiente. Tschuss.
Minha Nossa Senhora! Que assaltante é esse? Ele viu que o livrinho é alemão, daí ter me dado tchau em alemão. Não é assaltante coisa nenhuma. Assaltante, cuja bebida de bar é água? Que fala o português culto e que se despede em alemão? Quem já viu! É feioso, mas inteligente. Compensa. É musculoso e tem um bumbum interessante.
De repente o tédio sumiu e deu-me enorme vontade de tagarelar. Dois anos sem ver mulher contra dois meses sem ver homem, disse-me, rindo da comparação. Mas se for realmente assaltante? Não vai rolar. Nem morta! Há uma forma de saber. Peço-lhe que me mostre o dinheiro. Ou mesmo parte. O dinheiro prova a ilicitude, pois honesto algum vai andar com essa grana toda. Assim pensava eu quando...
- Passe a bolsa, vadia. Tenho um revólver apontando pra sua barriga. Rápido, vamos.
Quase não deu tempo de sentir medo. O bebedor d’água já estava ali, brutal pistola apontando para os dois pivetes de moto:
“Um movimento suspeito e estouro os miolos dos dois. Nem vou ocupar a polícia. Vamos, deem o fora, peguem o beco”, disse ele, a voz autoritária e o olhar frio, fazendo-me arrepiar. Jamais me senti tão protegida. Os pivetes voaram, ele deu duas passadas na direção de sua mesinha.
- Espera. Muito obrigada. Sente-se. O que o fez chegar tão rápido aqui?
- Pressenti. Eles passaram olhando pra você e fizeram o retorno ali na frente. Precisamos estar atentos, Joana, do...
- Quê? Você sabe meu nome?
“Tive a certeza agora”, respondeu-me o infeliz.
- Mas... Não entendo. Quem é o senhor? Como é seu nome?
- Direi se ao menos me disser que está pensando em minha proposta. Vamos para o motel ou não? Preciso tirar a dúvida acerca da tatuagem.
Minha Nossa! Isso é uma pegadinha. Você deve ser um araponga trabalhando para meu ex-marido. Só assim se explica que sabe que tenho uma tatuagem na virilha. Estou pensando na proposta, sim, senhor, senhor...
- Alternativo, Joana. Meu nome é Alternativo.
Não pude evitar a gargalhada. Fiquei mais de dois minutos rindo. Ele também riu. Tinha um sorriso lindo.
“Sério? Por que um nome tão, tão...”, falei, ainda segurando o riso. Você...
- Coisa de meu pai. A história é longa. Amei ter me tratado por você, Joana. Não sou araponga nem trabalho para seu ex. Sou mesmo assaltante. “Para Joana”, está escrito nesse seu livrinho de alemão. Foi fácil deduzir que a Joana é você. Não disse que você tem uma tatuagem na virilha. Disse que precisava tirar a dúvida acerca da tatuagem. Dúvida, Joana. Você podia ter tatuagem ou não. Aí você precipitou-se e revelou até onde ela se encontra, na virilhinha.
Fiquei fascinada por aquele homem. Iria pra cama com ele. Pouco me importava se tinha o dinheiro. Mas tinha:
“Você deve estar se perguntando se é verdade a história do dinheiro. É. Veja”, disse o danado, tirando do bolso traseiro da bermuda uma maçaroca de cédulas de cem reais. “Só aqui tem trezentas notas, Joana”.
- Isso é incrível, Al. Vou chamá-lo de Al, tá? A gente se encontra aqui, sem mais nem menos, e...
- Não foi sem mais nem menos, Joana. São as alternativas da vida. Escolhas, minha querida. Produtos de mentes em sintonia. Entenda, Joana. Apanhei um táxi e saí sem rumo. Procurava um lugarzinho tranquilo. Passei por vários, mas escolhi este. Com você deve ter acontecido a mesma coisa, não? Escolha, alternativa, opção. São essas as palavras chaves, minha querida. Quer ver?
Ao escolher este bar e me acomodar naquela mesinha, tornei-me várias pessoas. Um solitário a espera do tempo, alguém a esperar outro alguém, por isso fazia hora tomando água mineral, um deprimido e por aí vai. Meu observador, que podia ser o seu, é quem dizia o que sou. Ou o que somos. Isso garante veracidade ao axioma: você faz suas escolhas e suas escolhas fazem você.
De boca aberta, eu babava. Babava por todos os cantos onde babar fosse possível. Adoro homem perspicaz. Al riu e soltou:
- Vamos?
Peguei a bolsa, paguei a despesa e respondi:
- Vamos.
Fomos para um motel na praia. Al pediu que o taxista parasse num sex shop. Voltou logo. Não deu uma palavra. Não tocou em mim durante a viagem. Entramos no apartamento. Ficamos frente a frente. Não me beijou nem deu sinais de excitação. Apenas ordenou:
- Fique só de sutiã e calcinha e dê umas voltinhas de dança.
“Fetiche”, pensei, obedecendo. Al, apenas de cueca, me olhava, impassível. Dez minutos:
- Fique pelada.
Fiquei. Fiquei e fiquei de orelha em pé, com um pé atrás, com uma pulga coçando a orelha. Tudo porque a cueca de Al não dava sinais de homem. Era ou não era para ficar cabrita? Bem que eu não queria conversar hoje. Al pegou a calcinha, o sutiã e o embrulho do sex shop e foi ao banheiro.
Abri uma cerveja.
Al voltou em cinco minutos. Voltou de peruca ruiva. Trajava minha calcinha e meu sutiã acomodava uns peitinhos duros. Os olhos soltavam faíscas quando pegou a pistola, apontou pra mim e falou:
- Não sou saqueador, Joana. Essas notas de reais são irreais. No maço que viu, apenas a primeira nota é autêntica.
Sou selecionador, Joana. Seleciono mulheres bonitas que devem abreviar a vida. Você é a selecionada de número cinco. Seleciono e as silencio. Mas sou justo. Costumo lhes dar a alternativa de vida. É uma escolha. Morrem as que não sabem escolher, entendeu? Quatro escolheram errado e morreram.
Por que riu de meu nome, Joana? Por que, mulher de Nossa Senhora?
Vamos lá. Acabemos com isso. Veja a morte. Ou a vida. A primeira é destino. A segunda é a alternativa. Ambas são escolhas. Marque a correta.
Aí ele ficou se requebrando e cantarolando. Uma gracinha, como diria a outra. Cinco minutos assim. Depois:
- Quem dança melhor, putinha Joana? Quem é mais bonita, putinha Joana? Quem, hein? Você ou eu? Escolha, putinha Joana.
Já que estou contando a história, é evidente que fiz a escolha certa. Ou, no dizer, dele, marquei a alternativa correta. O dilema foi a escolha. Ao pé da letra, eu dançava dez mil vezes melhor. E a beleza? Na verdade, a pergunta era estapafúrdia, bizarra mesmo. Com o “eu”, eu corria o risco de irritá-lo e daí uma bala na testa seria o puxar do gatilho. Com o “você”, seria a falsidade exposta e o risco se aproximava do primeiro. Como ele se dizia justo, talvez o “você”, a falsidade, fosse pior. Mas por que armar aquilo tudo, senão pela resposta “você”? Até certo ponto, ficava sem sentido a resposta “eu”.
Decidi que não morreria de graça. Daria uma resposta, daria um chute nos cunhados dele e daria uma carreira pra porta. Olhei pra porta. Gelei. A chave não estava lá. Ele pressentiu minha intenção e ficou brincando com a chave. Mas se ele não era assaltante e as notas eram falsas, provavelmente a pistola também seria de mentirinha. O perigo diminuiria bastante. Olhei bem para a pistola. Ele captou a ideia, rapidamente substituiu a arma por um punhal e comentou:
- Espertinha, hein? Então! Quem? Eu ou você. Você ou eu, putinha, Joana?
Não suportei a pressão. Trinquei os dentes:
- Eu, seu veado, seu pervertido duma porra. Recalcado, filho da puta. Pederasta duma figa. Seu...
Parei o rosário de elogios. Al chorava, acocorado, mãos nos olhos. Chorava, não. Berrava. Jogou-me a chave e o sutiã:
- Alternativa correta. Adjetivos ainda mais. Vá. Só quero a sua calcinha. A melhor compra de sua vida. Como a escolheu, Joana?

Silvana Silva

Fev/15