sexta-feira, 27 de março de 2015

CONVERSAS DE BAR (NO DE ZÉ LITE, ZÉ LISO E NOUTRO ZÉ)

CONVERSAS DE BAR (NO DE ZÉ LITE, ZÉ LISO E NOUTRO ZÉ)

Estou preparado para matar no peito o putaquepariuquesujeitinhomaisirritante chutado pelo meu fã-clube. Fã-clube, infelizmente, pequenininho: entre três e cinco leitores. Felizmente existe você, a quem estou me apresentando. Primeira leitura, fico na torcida para que me faça entender. Espero que me entenda, mas que não demore muito para se aliar ao time dos entre três e cinco, o dos bocas-sujas.
Sabe por que do pqp de meu fc? Porque vou botar barzinhos no texto. E esses entre três e cinco odeiam a contextualização alcoólica. Dizem que estão cambaleando de tanto beberem meus escritos. A cada postagem, enviam-me imeios me melindrando. Merdíferos mesmos (a ruma de me, meu, é proposital. É de mé).
Precisa ser mais criativo, seu pinguço. Porra de tanto bar! Ambiente suas gamelas em pocilgas originais. Aproveite e encurte os textos sem fim, costumam dizer os entre três e cinco. Masoquistas, concorda?
Fazer o quê? Não tenho culpa se são nos barzinhos onde bebo as mais inebriantes histórias para uma prosa desarticulada. Repito: nos barzinhos. Tenho culpa disso? Tem culpa mim, seus entre três e cinco? Com respeito a encurtar os textos, só me dá vontade de...
Vou falar uma coisa pra você, leitor ainda puro. Só pra você, porquanto aqueles, os adeptos duma siglazinha, já devem ter reprisado o pqp, me dedado um del e me mandado um tnc.
Isso aqui pra nós. Faço prego em três ambientes alcoólicos: bar do Zé Lite, no centro da cidade, boteco do Zé Liso e no barzinho do Zé Lima, ambos no meu bairro. Acomodo-me, peço uma gela e fico de butuca nas conversas. Tenho as ouças treinadas, confesso. Sem a menor cerimônia, acrescento.
No bar do Zé Lite as histórias rendem bons textos. A desvantagem é que o pessoal conversa baixinho demais e vai muito ao banheiro. Certamente se livrar de verbos da primeira conjugação, a exemplo de arrotar.  Aí o fio da meada do esperado texto termina escapulindo.  Pense numa galera educada! São tantos desculpe e com licença que enche o saco de qualquer cristão. O que mais se bebe lá? Uísque neo-libe e vinho imperial. Importados, diga-se.
                Lá no Zé Liso é tudo espontâneo. Arroto, chupada de dente, dedo nos buracos da venta e “hum, hum” tapando o nariz são manifestações rotineiras. Tem histórias lindíssimas, mas, geralmente, impublicáveis. Principalmente depois de três ou quatro rodadas de cachaça e vinho de jurubeba, acompanhadas de um mocotozinho ao ponto.
                Satisfaço-me, mesmo, no barzinho do Zé Lima, embora o bicho seja ruim de prego que Nossa Senhora. Aqui há comida e bebida para todos os gostos, mas os carros-chefes são tripa de porco e cerveja. Tudo nacionalíssimo, naturalmente.
Falar em prego, e pregando aqui alguns parágrafos de interrupção, há poucos meses,

sábado, 21 de março de 2015

A SENHORA

A SENHORA

É conhecido por Quincas, mas seu nome é Sérgio. O Quincas surgiu na adolescência, numa brincadeira dos colegas de escola. Apaixonado pela professora Joaquina, os sabedores da secreta paixão logo começaram a chamá-lo do Quincas da Quinca. Porque feiosa, diziam que o que o Quincas queria mesmo era o... Mas isso é irrelevante. Para a narração, é evidente. Certo é que o “Quincas” saiu da escola, ganhou o vilarejo e acompanha o Sérgio até hoje. Exceto no fórum, onde a liturgia do cargo exige o Magistrado Sérgio.
- O senhor está bem? Está passando mal?
Quincas respondeu balançando a cabeça. Ora no sim, ora no não. Ora queria estrangulá-la, ora queria amá-la. Senhora de mocidade ou mocidade de moça? Quarenta e cinco anos ou treze anos? Pavor, pela arrogante prepotência, ou amor, pela flagrante inocência?
Quincas mirava-a e se torturava. A vista ficava turva, o rosto da perguntadora saindo e chegando, num vai de náusea e num vem de enxaqueca. A sensação de vômito associava-se à bexiga e impunha ao infeliz a obrigação de fazer xixi. Só lhe restava uma saída: esperar um “vem” e apertar o pescoço dela. Mas, em segundos, a vista ficava desembaçada, num vai de afeto e num vem de excitação. A obrigação do xixi provinha agora de outra sensação. Só lhe restava uma saída: esperar um vem e beijar o pescoço dela.
Tal oscilação durou uns cinco minutos. Quincas estabilizou-se na indiferença por causa de simples sorriso. Num dos vais e vens a senhora sorriu pra ele.  Mostrava um sorriso sedutor. Sedutor e interesseiro, pensou o desconfiado Quincas. Pensou e voltou-se para a tarde:
Eram cinco horas da tarde. Quincas acabava de ler a sinopse feminina, assinada apenas por estranho “C feminino”. Gostou, não contou conversa, ligou e a chamou para conversar.
Quincas é aventureiro da escrita e meio lelé da cabeça. Tem três livros publicados e um blogue em que pratica as aventuras. Mas só é lido pelo cupim e por internautas displicentes. Acha que escreve bem e que o desprezo origina-se da falta de divulgação. Balela pura. O texto dele é que é ruim mesmo. Senão, teria tido sucesso quando anunciou no blogue que estava presenteando seus livros. Bastava o leitor lhe mandar um imeio com endereço de recebimento. Não recebeu imeio algum. Como receber, se o blogue raramente é acessado? Essa pergunta foi dele. Esta também: será que escrevo tão mal, a ponto de os eventuais leitores não repetirem o acesso?
Bom, ocorre que nosso abandonado Quincas ganha belíssima grana na loteria e daí nasce igualmente belíssima ideia. Bancaria a edição

quinta-feira, 12 de março de 2015

O DIA DELA

O DIA DELA

E aí, mãe?
Mostrei-lhe a mão espalmada e fiquei a matutar.
Dizem que mato e curo. Também alardeiam que eu não soube criar minhas duas filhas. São julgamentos de velocistas, juízos de analfabetos. Risível é que não dizem o que realmente sou.
Não sei por que velocistas e analfabetos não veem as rugas de meu comportamento, já que os franzidos vivem escancaradamente expostos. Se usassem os passos da marcha atlética, os analfabetos não, mas os maratonistas certamente enxergariam minhas carquilhas. Pusesse os pés no chão, esse pessoal viria as nefastas pregas da manipulação. Confesso: sou manipulada.
Manejada, sim, segundo a segundo por quem me apresenta. Por vezes homicida, por vezes amorosa, vê-me assim o apresentado ao pôr os olhos em mim.
Preparam-me, temperam-me e me servem, ora numa bacia real, ora numa bandeja fictícia. Por que não me rebelo? Impossível, porquanto ser pau-mandado é de minha natureza. Criaram até um pau especialíssimo para me açoitar. Deram-lhe o nome de metáfora. Acho mesmo que a meta é fora me deixar do eixo natural do senso comum.
            E aí, mãe? A que se deve esta reunião? Tenho o que fazer, mãe. Preciso fechar um relatório e terminar um romance ainda hoje. A senhora está pensando na morte da bezerra, é?
      Minhas filhas são gêmeas. Univitelinas, por sinal. Mas apresentam sinais internos de diferenciação. A mais brincalhona, prosista, digamos assim, foi quem me interrogou.  A irmã é bastante fechada.
            É impressão ou vocês permanecem de tromba grande uma pra outra?
            Impressão, mãe. Não tá rolando tromba alguma entre a gente. A senhora não sabe que essa aí é assim mesmo? Essa aí nunca vai deixar de ser hermética e imprevisível, mãe.
            Então por que você continua chamando sua irmã de essa aí?
           Ah, mãe. Costume. Começou por causa daquela Pessoa, o Fernando. E a senhora sabe muito bem disso. Essa aí fingia muito naquele tempo. Não tolerava aquele fingimento, mãe. Mas ela mudou depois que a menina caetana beijou o Fernando. Daí eu ter estendido a Bandeira branca no Castro do navio da amizade. Hoje somos escravas da compreensão, mãe.
            Gostei de ouvir isso, minha filha. Como prova de tudo, queria que você desse um abraço bem forte em sua irmã, já que sábado, dia 14, é o aniversário dela.
          Dela e meu, não é, mãe? Até a senhora, mãe? Misericórdia! Sabe, mãe, essa discriminação representa uma punhalada no meu sorriso e uma gargalhada da frustração. Faça-me um favor. Use seu prestígio e peça aos ingratos que deixem de me discriminar. Por que só essa aí ganha parabéns? Se somos suas filhas e nascemos no mesmo dia, nada justifica o desprezo por mim. Afinal, a dor de nos parir foi e é única. Certo, mãe?
            Promete isso, mãe?
            Tem a minha palavra, filha.

            Março/15
            TC

            

sábado, 7 de março de 2015

O DIA INTERNACIONAL DE ISABEL (ISABEL?)


Olá, gente,

Amanhã, oito de março, é o Dia Internacional da Mulher. Textos e mais textos em homenagem às mulheres se acomodarão nas redes sociais. Este será mais um. Ou melhor, não será. Explico: a maioria dos textos louva a mulher com extremo romantismo e usa expressões de impacto, o que, na minha avaliação, beira o artificialismo. Elas não merecem adjetivos de glorificação? É claro que SIM. Mas há sentenças que, de tão batidas, ecoam ridículas. Mas cada texto espelha o autor e encontra seu público. Não é minha praia julgar ninguém.
Só escrevi isso porque a prosa abaixo dribla esse padrão. Apesar de falar de mulher, não é um texto de exaltação. Talvez a leitura das entrelinhas mostre algo nesse sentido, mas a comprovação depende de você. Entendeu o será ou não será?
Este escrito é de doze. Tem três anos, entenda. Foi uma das primeiras postagens desta Pocilga de Ouro. Dei-lhe o título de Simplesmente Mulher. De lá pra cá, meus acessos aumentaram 200%. Pulei de 4 leitores pra doze. Como esses 8 não leram a Mulher, resolvi republicá-la.
Sim. A prosa está no meu próximo livro, A Prosa dos Noves. Estou esperando Blidenor me entregar o prefácio para mandar imprimir 12 exemplares e enviá-los pra vocês.
“De grátis”, né, gente!
É isso.
Um abraço e boa leitura. Ou não.
Tião

O DIA INTERNACIONAL DE ISABEL (ISABEL?)

Bezerra ficou de mutuca nos quatros cantos da piscina para ver em qual deles a mulher iria aparecer. Dificilmente errava o ponto. Tinha o faro bom para essas coisas. Apostara no canto do barzinho. Bezerra errou feio: Isabel surgiu na quina em que mergulhara. “Dado o olhar de decepção, peguei você, não foi, meu caro Bezerra?”, gritou Isabel, sorrindo.
Bezerra deu uma coçadinha na cabeça, estirou a língua e ficou a admirá-la. Quis ir lá, mas preferiu deixá-la com os pensamentos.
Se quisesse papo, Bel teria vindo aqui, matutou.
Isabel dirigiu-se à mesinha do pé de palmeira, seu sítio predileto. Gostava daquele cantinho porque era ali que os amigos bem-te-vis tinham o hábito de saudá-la. Acomodou-se, ligou um sonsinho, beijou o buquê que de manhãzinha o marido lhe aninhara nos seios, descascou uma banana e se pôs a saboreá-la. O ser humano é engraçado, pensava Isabel, referindo-se ao comportamento dela e ao do marido naquele oito de março, Dia Internacional da Mulher e de seu aniversário.
Em todos os anos, naquela data, o casal largava as obrigações profissionais e abraçava o amador ritual de ficar na cama até tarde. Obrigavam-se tão somente em agradecer a graça divina de serem sentimentais, emotivos. A sociedade deles era a paixão: namoravam como se fosse o último namoro, entregavam-se como se de único domicílio, deixavam as libidos extenuadas. Depois isolavam-se na piscina, onde brincavam de tica, beliscavam petiscos, deleitavam-se com músicas clássicas, dançavam. Viviam a extrema felicidade Curtiam-se, enfim.
Isabel releu a releitura da mensagem de aniversário anexada ao vermelhão do buquê:
Pessoas nobres recebem, em dias de aniversário, auras cósmicas que as iluminam. Simultaneamente, porém, repassam essa irradiação divina aos amigos que delas se aconchegam. Porque aconchegado já vivo, sinto a cada segundo o resplendor dessa dádiva.
Parabéns, Isabel. Pelo aniversário e pelo seu dia que é todo seu.
Do todo seu e somente seu.
Seu amor
Isabel queria palavras para descrever o amor pelo marido. Escrever e estilizá-las, posto que, desprotegidas, as palavras podem esmaecer com o tempo. Mas inexistiam palavras cujos significados

terça-feira, 3 de março de 2015

O REI DRUMMOND E OS REIS DO TIÃO


A OPINIÃO EM PALÁCIO (CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

O Rei fartou-se de reinar sozinho e decidiu partilhar o poder com a Opinião Pública. ― Chamem a Opinião Pública ― ordenou aos serviçais.
Eles percorreram as praças da cidade e não a encontraram. Havia muito que a Opinião Pública deixara de freqüentar lugares públicos. Recolhera-se ao Beco sem Saída, onde, furtivamente, abria só um olho, isso mesmo lá de vez em quando. Descoberta, afinal, depois de muitas buscas, ela consentiu em comparecer ao Palácio Real, onde Sua Majestade, acariciando-lhe docemente o queixo, lhe disse:
― Preciso de ti.
A Opinião, muda como entrara, muda se conservou. Perdera o uso da palavra ou preferia não exercitá-lo. O Rei insistia, oferecendo-lhe sequilhos e perguntando o que ela pensava disso e daquilo, se acreditava em discos voadores, horóscopos, correção monetária, essas coisas. E outras. A Opinião Pública