sábado, 21 de março de 2015

A SENHORA

A SENHORA

É conhecido por Quincas, mas seu nome é Sérgio. O Quincas surgiu na adolescência, numa brincadeira dos colegas de escola. Apaixonado pela professora Joaquina, os sabedores da secreta paixão logo começaram a chamá-lo do Quincas da Quinca. Porque feiosa, diziam que o que o Quincas queria mesmo era o... Mas isso é irrelevante. Para a narração, é evidente. Certo é que o “Quincas” saiu da escola, ganhou o vilarejo e acompanha o Sérgio até hoje. Exceto no fórum, onde a liturgia do cargo exige o Magistrado Sérgio.
- O senhor está bem? Está passando mal?
Quincas respondeu balançando a cabeça. Ora no sim, ora no não. Ora queria estrangulá-la, ora queria amá-la. Senhora de mocidade ou mocidade de moça? Quarenta e cinco anos ou treze anos? Pavor, pela arrogante prepotência, ou amor, pela flagrante inocência?
Quincas mirava-a e se torturava. A vista ficava turva, o rosto da perguntadora saindo e chegando, num vai de náusea e num vem de enxaqueca. A sensação de vômito associava-se à bexiga e impunha ao infeliz a obrigação de fazer xixi. Só lhe restava uma saída: esperar um “vem” e apertar o pescoço dela. Mas, em segundos, a vista ficava desembaçada, num vai de afeto e num vem de excitação. A obrigação do xixi provinha agora de outra sensação. Só lhe restava uma saída: esperar um vem e beijar o pescoço dela.
Tal oscilação durou uns cinco minutos. Quincas estabilizou-se na indiferença por causa de simples sorriso. Num dos vais e vens a senhora sorriu pra ele.  Mostrava um sorriso sedutor. Sedutor e interesseiro, pensou o desconfiado Quincas. Pensou e voltou-se para a tarde:
Eram cinco horas da tarde. Quincas acabava de ler a sinopse feminina, assinada apenas por estranho “C feminino”. Gostou, não contou conversa, ligou e a chamou para conversar.
Quincas é aventureiro da escrita e meio lelé da cabeça. Tem três livros publicados e um blogue em que pratica as aventuras. Mas só é lido pelo cupim e por internautas displicentes. Acha que escreve bem e que o desprezo origina-se da falta de divulgação. Balela pura. O texto dele é que é ruim mesmo. Senão, teria tido sucesso quando anunciou no blogue que estava presenteando seus livros. Bastava o leitor lhe mandar um imeio com endereço de recebimento. Não recebeu imeio algum. Como receber, se o blogue raramente é acessado? Essa pergunta foi dele. Esta também: será que escrevo tão mal, a ponto de os eventuais leitores não repetirem o acesso?
Bom, ocorre que nosso abandonado Quincas ganha belíssima grana na loteria e daí nasce igualmente belíssima ideia. Bancaria a edição
de dez livros de, assim como ele, desamparados escritores. Bancaria e contrataria uma empresa a fim de divulgá-los Brasil a fora. Pediria as sinopses, selecionaria as de aparente futuro e chamaria o autor para uma entrevista. Além de ajudar os confrades, teria a vantagem de comparar aqueles escritos com os seus e, numa autocrítica, veria os defeitos da prosa dele. Ou os das prosas alheias.
O mecenas e aluado Quincas logo entrou em campo e começou a caçar talentos literários. Já que sabia infrutífero o anúncio pelo blogue, espalhou a Boa-nova pelas livrarias e estabelecimentos afins. O cartaz informava tudo, exibia imeios, celulares e outros contatos. Terminava assim, em letras de garrafas: E VOCÊ AINDA GANHA UM EXEMPLAR DE MEU RECENTE ROMANCE, O “QUÊ?!”.
Passados três meses, ninguém apareceu. Ligavam, mas desistiam. Pegadinha, imaginavam. Esmola grande... Isso é uma roubada, diziam. Até que naquela tarde, lida a sinopse da C, a voz feminina atendeu o retorno do Quincas e o encontro foi marcado para as sete horas da noite, na casa dele.
“O senhor está bem? Está passando mal?”, repetiu a senhora, sorrindo sedutoramente.
“Estou bem. Foi só uma passageira indisposição”, respondeu Quincas, achando a mulher sedutora, interesseira, intrigante. Dou-lhe trinta anos, pensou.
- Gostei de sua sinopse. Ficção de primeira, senhora C. A senhora tem um sotaque meio, meio, como é que se diz... A senhora é brasileira? O C é C de quê, que mal pergunto.
- Na verdade o C é C cedilha, C cedilhado. Sou cidadã do mundo, universal. Não sou brasileira. Mas é no Brasil onde me dou melhor. Sinto-me à vontade aqui. Não escrevo ficção, mentira. Meu livro é uma história real. É fato. Sou a personagem principal, a protagonista.
Quincas ficou abestalhado com a força expressiva da dama. Ela apresentava sempre um reforço para as sentenças:
- Observo uma coisa na senhora. Tanto no texto quanto na fala. A senhora usa sempre um reforço nas sentenças. Ficção, mentira, história real, fato, c cedilha, c cedilhado. Proposital, diria. Então...
- Proposital, sim. Faz parte de minha personalidade. É bom, Sr. Quincas, termos uma segunda via de comunicação. Se o interlocutor não entender de uma forma, entenderá de outra, entendeu? Zero ponto um e 10% é a mesma coisa. Mas, às vezes, o zero ponto um soa melhor.
- Está certíssima, senhora. Falemos do livro...
- Não. Não quero publicar nenhum livro, senhor Quincas. Meu livro derrubaria Governos e mais Governos. Quero lhe fazer uma proposta, ser sua parceira. Posso falar?
- Pois não.
- Olhe só. Sua vontade de alavancar novos escritores é de extrema generosidade. Mas existem muitos textos ruins nessa turma. O que há de orações cujos sujeitos são decapitados é uma festa. O festival de repetições de sua, suas, meu, minhas e que é outra festança. Agora, podemos dar um jeito e tornar esses livros best-sellers. Tenho profissionais que fazem isso numa boa. Em breve, estarão resenhados como leitura obrigatória na mídia especializada, expostos nos melhores locais das livrarias e disponíveis em tudo que é colégio e bibliotecas. Sucesso garantido, enfim. O senhor precisa tão somente contribuir com zero ponto dois sobre o preço do exemplar, a título de facilidade editorial.
- Mas a boa-fé...
- Não tem mas, senhor Quincas. Boa-fé! O senhor sai com cada uma! Não há desonestidade nisso. Há, apenas, um acréscimo no que seria o preço padrão do livro, contudo insignificante quando diluído entre os milhares de leitores. Todo o mundo sai ganhando, num estupendo efeito multiplicador. Então...
- Desculpe, mas me sinto desconfortável para tocar esse projeto. Ainda que quisesse, não poderia tocá-lo. A questão é que inexiste autor, senhora. Durante três meses de campanha, a senhora foi a primeira escritora a me procurar. É fácil supor, então...
- Ah, bom. Aí fica difícil, realmente. Bom, vou deixar meu cartão com o senhor. Qualquer coisa...
A senhora saiu, e Quincas ficou tão disperso com a desfaçatez dela que se esqueceu de lhe perguntar o nome. C de quê?
Quincas permaneceu com o blogue por algum tempo, mas terminou desistindo da carreira literária. Voltou a estudar e foi ser juiz federal. Não demorou muito e encontrou-se com a Senhora C no fórum, na sala de espera de uma audiência. Não se surpreendeu. Ela, sim. Mas disfarçou:
- Desculpe a informalidade, juiz Sérgio. Saímos daquela conversa sem eu dizer meu nome completo. Meu C é de Ção.
- Sei. Ção com C cedilha, C cedilhado. Vi seu nome em incontáveis processos, Senhora C. Mas, se quer saber...
- Não. Não diga, meritíssimo. Diga apenas que o Ção é uma corruptela.

Março/15
TC