quinta-feira, 12 de março de 2015

O DIA DELA

O DIA DELA

E aí, mãe?
Mostrei-lhe a mão espalmada e fiquei a matutar.
Dizem que mato e curo. Também alardeiam que eu não soube criar minhas duas filhas. São julgamentos de velocistas, juízos de analfabetos. Risível é que não dizem o que realmente sou.
Não sei por que velocistas e analfabetos não veem as rugas de meu comportamento, já que os franzidos vivem escancaradamente expostos. Se usassem os passos da marcha atlética, os analfabetos não, mas os maratonistas certamente enxergariam minhas carquilhas. Pusesse os pés no chão, esse pessoal viria as nefastas pregas da manipulação. Confesso: sou manipulada.
Manejada, sim, segundo a segundo por quem me apresenta. Por vezes homicida, por vezes amorosa, vê-me assim o apresentado ao pôr os olhos em mim.
Preparam-me, temperam-me e me servem, ora numa bacia real, ora numa bandeja fictícia. Por que não me rebelo? Impossível, porquanto ser pau-mandado é de minha natureza. Criaram até um pau especialíssimo para me açoitar. Deram-lhe o nome de metáfora. Acho mesmo que a meta é fora me deixar do eixo natural do senso comum.
            E aí, mãe? A que se deve esta reunião? Tenho o que fazer, mãe. Preciso fechar um relatório e terminar um romance ainda hoje. A senhora está pensando na morte da bezerra, é?
      Minhas filhas são gêmeas. Univitelinas, por sinal. Mas apresentam sinais internos de diferenciação. A mais brincalhona, prosista, digamos assim, foi quem me interrogou.  A irmã é bastante fechada.
            É impressão ou vocês permanecem de tromba grande uma pra outra?
            Impressão, mãe. Não tá rolando tromba alguma entre a gente. A senhora não sabe que essa aí é assim mesmo? Essa aí nunca vai deixar de ser hermética e imprevisível, mãe.
            Então por que você continua chamando sua irmã de essa aí?
           Ah, mãe. Costume. Começou por causa daquela Pessoa, o Fernando. E a senhora sabe muito bem disso. Essa aí fingia muito naquele tempo. Não tolerava aquele fingimento, mãe. Mas ela mudou depois que a menina caetana beijou o Fernando. Daí eu ter estendido a Bandeira branca no Castro do navio da amizade. Hoje somos escravas da compreensão, mãe.
            Gostei de ouvir isso, minha filha. Como prova de tudo, queria que você desse um abraço bem forte em sua irmã, já que sábado, dia 14, é o aniversário dela.
          Dela e meu, não é, mãe? Até a senhora, mãe? Misericórdia! Sabe, mãe, essa discriminação representa uma punhalada no meu sorriso e uma gargalhada da frustração. Faça-me um favor. Use seu prestígio e peça aos ingratos que deixem de me discriminar. Por que só essa aí ganha parabéns? Se somos suas filhas e nascemos no mesmo dia, nada justifica o desprezo por mim. Afinal, a dor de nos parir foi e é única. Certo, mãe?
            Promete isso, mãe?
            Tem a minha palavra, filha.

            Março/15
            TC