sábado, 7 de março de 2015

O DIA INTERNACIONAL DE ISABEL (ISABEL?)


Olá, gente,

Amanhã, oito de março, é o Dia Internacional da Mulher. Textos e mais textos em homenagem às mulheres se acomodarão nas redes sociais. Este será mais um. Ou melhor, não será. Explico: a maioria dos textos louva a mulher com extremo romantismo e usa expressões de impacto, o que, na minha avaliação, beira o artificialismo. Elas não merecem adjetivos de glorificação? É claro que SIM. Mas há sentenças que, de tão batidas, ecoam ridículas. Mas cada texto espelha o autor e encontra seu público. Não é minha praia julgar ninguém.
Só escrevi isso porque a prosa abaixo dribla esse padrão. Apesar de falar de mulher, não é um texto de exaltação. Talvez a leitura das entrelinhas mostre algo nesse sentido, mas a comprovação depende de você. Entendeu o será ou não será?
Este escrito é de doze. Tem três anos, entenda. Foi uma das primeiras postagens desta Pocilga de Ouro. Dei-lhe o título de Simplesmente Mulher. De lá pra cá, meus acessos aumentaram 200%. Pulei de 4 leitores pra doze. Como esses 8 não leram a Mulher, resolvi republicá-la.
Sim. A prosa está no meu próximo livro, A Prosa dos Noves. Estou esperando Blidenor me entregar o prefácio para mandar imprimir 12 exemplares e enviá-los pra vocês.
“De grátis”, né, gente!
É isso.
Um abraço e boa leitura. Ou não.
Tião

O DIA INTERNACIONAL DE ISABEL (ISABEL?)

Bezerra ficou de mutuca nos quatros cantos da piscina para ver em qual deles a mulher iria aparecer. Dificilmente errava o ponto. Tinha o faro bom para essas coisas. Apostara no canto do barzinho. Bezerra errou feio: Isabel surgiu na quina em que mergulhara. “Dado o olhar de decepção, peguei você, não foi, meu caro Bezerra?”, gritou Isabel, sorrindo.
Bezerra deu uma coçadinha na cabeça, estirou a língua e ficou a admirá-la. Quis ir lá, mas preferiu deixá-la com os pensamentos.
Se quisesse papo, Bel teria vindo aqui, matutou.
Isabel dirigiu-se à mesinha do pé de palmeira, seu sítio predileto. Gostava daquele cantinho porque era ali que os amigos bem-te-vis tinham o hábito de saudá-la. Acomodou-se, ligou um sonsinho, beijou o buquê que de manhãzinha o marido lhe aninhara nos seios, descascou uma banana e se pôs a saboreá-la. O ser humano é engraçado, pensava Isabel, referindo-se ao comportamento dela e ao do marido naquele oito de março, Dia Internacional da Mulher e de seu aniversário.
Em todos os anos, naquela data, o casal largava as obrigações profissionais e abraçava o amador ritual de ficar na cama até tarde. Obrigavam-se tão somente em agradecer a graça divina de serem sentimentais, emotivos. A sociedade deles era a paixão: namoravam como se fosse o último namoro, entregavam-se como se de único domicílio, deixavam as libidos extenuadas. Depois isolavam-se na piscina, onde brincavam de tica, beliscavam petiscos, deleitavam-se com músicas clássicas, dançavam. Viviam a extrema felicidade Curtiam-se, enfim.
Isabel releu a releitura da mensagem de aniversário anexada ao vermelhão do buquê:
Pessoas nobres recebem, em dias de aniversário, auras cósmicas que as iluminam. Simultaneamente, porém, repassam essa irradiação divina aos amigos que delas se aconchegam. Porque aconchegado já vivo, sinto a cada segundo o resplendor dessa dádiva.
Parabéns, Isabel. Pelo aniversário e pelo seu dia que é todo seu.
Do todo seu e somente seu.
Seu amor
Isabel queria palavras para descrever o amor pelo marido. Escrever e estilizá-las, posto que, desprotegidas, as palavras podem esmaecer com o tempo. Mas inexistiam palavras cujos significados
exibissem a seiva da entrega incondicional. Amo-o mais do que tudo na vida diziam apenas o óbvio. E Isabel fugia da obviedade. Não somente ela, mas também o esposo, especialistas que eram em triturar tolas rotinas. Pelo que presenciavam nos casais amigos, o óbvio era a ardência amorosa ir se amornando. Neles, não: a lua de mel aos 35 anos de cada um, com 10 de casados, constituía a comprovação da fortuna amorosa. Fortuna que provinha da mouquidão como Isabel escutava algumas amigas:
“Os homens são iguais em tudo. São traíras, cachorros e galinhas, Isabel”, diziam elas. Isabel ria, punha água fria na fervura da generalização e deixava faminta a conversa. Não dar ouvidos a certas falas é ouvir a sabedoria. Esse é o lema de Isabel. Mas essa surdez não é a voz da alienação. Isabel diverge do marido, sim. Divergências, discórdias, desacordos, discussões e outros danosos dês existem na convivência deles, sim. Mas tudo em busca do “e” do entendimento e do “c” da compreensão. Brigam, é verdade. Mas, passados alguns minutos, estão se abraçando e brigando de verdade. Compreendem-se, sim. Ele tem o que para ela é o atributo supremo do homem: compreender a mulher. Só prende aquele que nos compreende, diz ela. E o esposo a compreendia. Em todos os sentidos.
“Do todo seu e somente seu” fez Isabel chorar. Chorando e sorrindo, fez finca-pé e mergulhou na piscina.
Bezerra viu o vulto correndo e ficou alerta. Tremenda gazela, falou consigo, depois de mais uma coçadinha na cabeça. Ah se meus pensamentos chegassem aos ouvidos dela. Diria que a amo, que a venero, que a idolatro. Que jamais a trairei, que nunca farei cachorrada com ela, que galinhar não é comigo.
Bezerra adorava os franzidinhos dos olhos de Isabel, aplaudia o jeito de ela jogar o cabelo pra trás, arrepiava-se com a maciez das mãos dela em seu corpo. Nada lhe faltava. Parecia que Isabel adivinhava os secretos pensamentos dele.  Tinha por ela uma fidelidade canina, ainda que ficasse meio chateado em razão da exclusividade amorosa que Isabel exigia dele. Ela confundia fidelidade com exclusividade. Ele era exclusivo no instante em que estava dando atenção à pessoa, mas a exclusividade se dirigia para outro indivíduo tão logo a atenção mudasse de foco. E isso Isabel não queria entender. Achava que a exclusividade a alguém implicava infidelidade a ela. Bezerra compreendia tudo, afastava a chateação e sorria. Ou melhor, mostrava os dentes.
Agora, sim, Isabel saiu no ponto imaginado por Bezerra: precisamente onde ele estava. Isabel sentou-se ao lado de Bezerra, ficou alisando o focinho dele, abriu a boca a fim de falar alguma coisa, mas um barulho fez os dois desviarem a atenção para aquela direção.
“Meu gatão”, disse Isabel, pondo Felipe, o gato da casa, sobre a toalha que lhe cobria as coxas.
Bezerra presenciou o afago, fingiu indiferença, mas ficou rosnando de ciúme. Mas rapidamente o tangeu. Assim como não sou exclusivo dela, ela também não é exclusiva minha, pensou, conformado, sorrindo. Ou melhor, mostrando os dentes. Gostava de Felipe, às vezes até brincavam juntos, mas a secular rixa entre gato e cachorro se mantinha.
Foi nesse clima que Euclides, o marido de Isabel, encontrou os três quando chegou do mercadinho, meio dia em ponto:
“Maçã pra você, querida, peixe abiscoitado para o nobre Felipe e ração de cordeiro para o nobre Bezerra.”
Isabel serviu-se duma banda de maçã, serviu-se dos “nem me pega, nem me pega” para atiçar o marido e pulou na piscina. Euclides mergulhou atrás.
Bezerra e Felipe se entreolharam. Conjecturavam. Bezerra supunha eles aparecendo no pé de palmeira. Era bom nessas coisas.
O faro de Felipe não era lá essas coisas, mas ele tinha certeza de que Isabel surgiria realmente na palmeira. Já assistira àquele filme várias vezes. Apareceriam e começariam a chupar língua. Dali a minutos Isabel começaria a gemer. Não deu outra. Quer dizer, saíram no pé de palmeira e se danaram a chupar língua.
Bezerra sorriu. Ou melhor, mostrou os dentes.
“Ainda dou umas unhadas no Ocrido que é pra ele deixar de machucar a Bel”, jurou Felipe.
Foi assim, servidos de ração e de amor, que dois novos personagens encontraram o quarteto e desejaram os bens para Isabel:
Bem! Bem! Te-vi, te-vi. Bem-te-vi, bem-te-vi.

Fev/15
TC