terça-feira, 3 de março de 2015

O REI DRUMMOND E OS REIS DO TIÃO


A OPINIÃO EM PALÁCIO (CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

O Rei fartou-se de reinar sozinho e decidiu partilhar o poder com a Opinião Pública. ― Chamem a Opinião Pública ― ordenou aos serviçais.
Eles percorreram as praças da cidade e não a encontraram. Havia muito que a Opinião Pública deixara de freqüentar lugares públicos. Recolhera-se ao Beco sem Saída, onde, furtivamente, abria só um olho, isso mesmo lá de vez em quando. Descoberta, afinal, depois de muitas buscas, ela consentiu em comparecer ao Palácio Real, onde Sua Majestade, acariciando-lhe docemente o queixo, lhe disse:
― Preciso de ti.
A Opinião, muda como entrara, muda se conservou. Perdera o uso da palavra ou preferia não exercitá-lo. O Rei insistia, oferecendo-lhe sequilhos e perguntando o que ela pensava disso e daquilo, se acreditava em discos voadores, horóscopos, correção monetária, essas coisas. E outras. A Opinião Pública abanava a cabeça: não tinha opinião.
― Vou te obrigar a ter opinião ― disse o Rei, zangado. ― Meus especialistas te dirão o que deves pensar e manifestar. Não posso mais reinar sem o teu concurso. Instruída devidamente sobre todas as matérias, e tendo assimilado o que é preciso achar sobre cada uma em particular e sobre a problemática geral, tu me serás indispensável.
E virando-se para os serviçais:
― Levem esta senhora para o Curso Intensivo de Conceitos Oficiais. E que ela só volte aqui depois de decorar bem as apostilas.

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Segundo Bião, o intuitor, Drummond “esqueceu” de narrar o porquê de o Rei ter decidido colher a opinião da Opinião Pública. Falou-me assim o maluco:
“Afinal, Tião, rei algum era de dar atenção à Opinião Pública. A propósito, sua Majestade Drummond nem disse o nome do rei. É o Luís 13, Tião. Vejamos, então, os esquecimentos de Drummond. Pegue meu texto. Pode postar na sua Pocilga. Não me deve nada, tá?
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Bom, levaram a senhora Opinião Pública para o Curso Intensivo. Ela iria se juntar à espevitada Sociedade Civil Organizada, à conservadora Vontade Política e ao boçal Politicamente Correto, único varão da turma.
Começam aqui os esquecimentos do Drummond. Ocorre que o Rei Luís 13 estava cheio dos disse-me-disse que diziam dele. “O Estado sou eu e eu não sabia de nada”, diziam que ele dizia isso direto.
Tudo fofoca do Rei Henrique 45, inimigo íntimo do Rei Luís 13.
Mas o Luís 13 não tinha nada de absolutista e sabia de tudo que se passava no reino. Era brincalhão, carismático, mulherengo, doido por futebol e chegado a um gorozinho.
Esse disse-me-disse nasceu de desastrada noitada de vinho. Naquela noite, o Luís chamou o Zé Gallo, o bobo da corte, para assistirem a um jogo de futebol no anfiteatro, extremo norte do palácio e a quinze metros do estábulo. Fim de jogo, o time do rei, o Corinto, perdeu de 7 a 1 para o Palestra.
O rei, irado, joga uma garrafa de vinho no telão, manda o bobo pegar o beco e fica enchendo a cara. Já ia dar meia noite quando vai para os aposentos. Mas fica pelo caminho, no estábulo, onde adormece dentro de um barril de feno.
Acordou o sol por acolá, o palácio em pânico, a notícia correndo o mundo, todos a imaginar o Rei Luís 13 no calabouço do Rei Henrique 45. A rainha, a Maria Teresa, reclamou da indecência litúrgica. O rei argumentou:
“Que que tem ser acordado pelo sol, minha velha? Outra coisa: o estábulo é meu. Apaguei, querida. Só isso! Não sabia de nada, entendeu”?
Naquele tempo - assim como hoje -, qualquer fala de famoso ganhava imediatamente nefasta versão e a repercussão ia as alturas. Mas a fama ficava. Foi só o que deu.
A fala do rei rodou o mundo e começaram a chamar o Rei Luís 13 de Rei Sol. Mais. “O estábulo é meu” ganhou logo a variante de “O Estado sou eu”. Pior é que se danaram a dizer que o Rei Luís 13 era idiota, pois nunca sabia de nada.
Bom, o Rei Luís 13 começou a se incomodar com as chacotas e jurou vingança. Mostraria que sabia das coisas. Foi aí que ele bolou o curso citado pelo Drummond, o Curso Intensivo de Conceitos Oficiais (CICO). O Drummond sabia disso, mas embelezou o episódio e disse que o rei se fartou de governar sozinho. O Drummond, amigo do Luís, era muito fiel às amizades. Não relataria a bebedeira palaciana. Mas terminou escrevendo a respeito do fato, embora com imagens, metáforas e afins.
Muito bem. O Rei Luís 13 convocou dois especialistas, o Santana e o Mendonça, e expôs os planos: acabar com os reinados. O reino dele seria o primeiro parlamento do mundo. Aprovado o plano, os especialistas montaram o curso, inicialmente com a Sociedade Civil Organizada, a Vontade Política e o Politicamente Correto.
A Opinião Pública ficaria de fora, pois o Rei Luís 13 queria antes conversar com ela, fazer a cabeça dela. Falava assim. “Sem a Opinião Pública não seremo nada. Ela tem que chegar no curso com a cabeça feita. Nunca na história dessa humanidade se ousou tanto. Quero uma distensão lenta, gradual e segura”, argumentava e vangloriava-se.
Os especialistas queriam que o Povo também participasse do Curso, mas o rei rejeitou a ideia, sob o argumento de que o Povo não entendia de geopolítica e que caberia à Opinião Pública, no momento oportuno, manipulá-lo.
O objetivo do Curso era mostrar os direitos dos súditos e induzi-los a pleitear um gabinete gestor, de cujas decisões participassem. Um movimento de baixo pra cima, autêntico, representativo. O Rei Luís 13 cederia às “pressões”, seria aclamado democrata, o efeito demonstração ganharia o mundo e, em pouco tempo, reinados que era bons já eram. A vingança perfeita. É lógico que Luís 13 pensava em ser o primeiro mandatário de seu reino.
E foi.
Mas eu disse que o Drummond sabia das agruras pelas quais passou o Rei Luís 13, depois da desastrada noitada de vinho, no caminho do leito real. Disse também que o Drummond acabou narrando o acontecimento, conquanto metaforicamente. Escreveu assim:
No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.
Mas no fim do caminho tem um abraço,
TC