quinta-feira, 30 de abril de 2015

BOLO COM TEXTO

BOLO COM TEXTO

“Fulano de tal, o que é a vida.” Essa é a última pergunta do excelente programa de entrevista PROVOCAÇÕES, apresentado pelo ator Antônio Abujamra. Meia noite das terças-feiras, TV Cultura, e lá está ele encarando alguém com tal pergunta. O entrevistado responde algo, nisso o Abujamra sapeca-lhe: “O que é a vida.” Outro algo de resposta e mais um “O que é a vida.” 
Na primeira “O que é a vida” já se percebe certa coisinha engraçada: a leve inibição de alguns entrevistados. Mostram-se levemente embaraçados, embora, e isto é que é instigante, estejam sabendo que a desconcertante pergunta virá. E virá três vezes. Pergunta tão simples, de resposta também simples, posto qualquer uma satisfazer à indagação, sugere recepção amistosa. Por que, então, o jeitão desconfortável do inquirido? Arte da comunicação, certamente.
Feita com olhos nos olhos, expressão corporal convincente, entonação perfeita, a pergunta “O que é a vida” chega devastadora ao último “round” e acaba nocauteando parte dos entrevistados. Na verdade, todos sentem o golpe comunicativo, mas alguns disfarçam que é uma beleza. É com tal avaliação que desligo a tevê e fico a matutar. Se o Abujamra me formulasse essas perguntas, eu riria e o responderia assim.
A vida, seu Abujamra, é comunicação, comunicação, comunicação. E acrescentaria. Comunicação

segunda-feira, 20 de abril de 2015

A TERCEIRIZADA DA LUÍSA

A TERCEIRIZADA DA LUÍSA

Luís e Luísa são casados. Ele com ela, que fique claro. Mas a harmonia entre os nomes habitou-se a divorciar-se dos donos na convivência do dia a dia. A forma como o casal vê a vida costuma desenhar o “D” do desacordo e o “A” da arenga. Sem mais nem menos, o dois abraçam os conflitos e terminam se agarrando mentalmente. Mas sempre acabam mentalmente agarrados.
Luís é paciente, racional, metódico, despreocupado. Luísa é renitente, emocional, desligada, irrequieta.
Mas o homem só se comporta assim em casa. No trabalho (Luís é vigilante), o despreocupado Luís é o sujeito mais ranzinza e afobado do mundo. A mulher é enfermeira. No hospital, porém, a irrequieta Luísa é a caixa da paciência e a compreensão em pessoa.
Luís adora ler. Luísa detesta leitura. Mas Luís ainda não aprendeu a ler o corpo da mulher. Perde-se nas curvas. Já Luísa lê de cor e salteado o corpo do marido. Não se perde nem a pau. Luís e Luísa estão apaixonados. Um pelo outro, que também fique claro.
Luís e Luísa são terceirizados. Do mesmo patrão, diga-se, embora as empresas tenham nomes diferentes. Uma delas, ressalte-se, terceiriza os serviços de Solange, a babá dos dez aninhos de Laís, a filha do casal. Ainda que sem culpa, adveio de Solange o último entrevero familiar. Começou assim:
O celular chama, Laís pula dos braços do pai, atende, fala um tempinho, passa pra ele:
“É a mãe. Tá trazendo uma pizza”, diz a filhota:
- Oi, querido. Chego já. Tô esperando o busão. A doida da Suzana me viu, puxou-me pra beber chá numa livraria e quase não me larga. Tô levando... Que bolsa mais... Nossa... Misericórdia. Acho...
- Que foi, Lu? Bolsa! Você tá nervosa, gaguejando. Que foi, Lu? Tá sendo assaltada, é?
- Vire essa boca pra lá, amor. É que essa bolsa tem bolso que não presta. Não tô achando o celular. Acho que deixei no café. Bicho tão caro. Vou ver se acho. Escute...
- Espere, Lu. Você tá ligando do seu...
- Mesmo! Ah uma jaula.
Foi Luísa chegar ao apartamento para filha e pai caírem na risadeira. Luísa quis pegar ar, mas logo, logo aderiu à gozação. Mas também logo, logo soltou os cachorros. Quem estalou os dedos pra eles foi o marido:
- Sabe da maior, Lu? A Solange vai nos deixar.
- Quê? Como assim nos deixar. Ela não é terceirizada? Não pode. A menos que...
- Isso mesmo. Ela vai sair da firma, montar a própria agência e terceirizá-la para uma empresa que já é terceirizada pelo empregador com quem hoje temos contrato, entendeu? Disse que já tem oito funcionárias. Mas prometeu mandar uma boa babá pra Laís, já que ela ficará no escritório, administrando a empresa.
- Isso é um tremendo ninho de gato, Luís. E você não disse nada? Aceitou assim, assim, assim... Ô homem morto nas calças. Quer dizer...
“Calma, querida. Todo o mundo tem o direito de crescer na vida. Você tá sendo injusta comigo”, argumentou Luís, querendo abraçá-la.
- Crescer na vida um cacete. Vá pra lá! Você é um bundão, Luís.
Só restou ao pobre do Luís ficar de boca aberta com a brutal reação de Luísa. De boca aberta, o queixo do atônito caiu em razão do novo comportamento da esposa: não passaram dois minutos, o semblante de Luísa foi se suavizando, suavizando e pimba. Só sorrisos, Luísa jogou o apalermado marido no sofá e danou-se a beijá-lo. Luís, é evidente:
- Perdão, amor. Como dizia minha mãe, tem mal que vem para o bem. Minha nossa. Preste atenção. Você e eu somos terceirizados. De certa forma, a educação da Laís também. A vida da gente tá toda terceirizada, querido. Daí que acabo de ter uma ideia. Vamos abrir uma empresa e terceirizá-la.
- Pirou! Sua mãe pirou, Laís. Empresa de quê, mulher de Nossa Senhora? Vamos fazer o quê?
- Fazer amor, homem de Deus.
Amor! Aquilo que de melhor a gente faz na vida. Ninguém, no mundo, faz um amor melhor que o nosso. Demanda não nos faltará. Já tenho o nome da empresa:

quinta-feira, 16 de abril de 2015

PASSANDO A LIMPO OS CONSELHOS DO DRUMMOND

Olá, gente,
Deixem-me contextualizar este sem-futuro aqui debaixo. Seguinte. Papo de Homem é um porreta saite de leitura. Só tem texto matador. Lá tem uma página com Drummond, sentado, pensativo, e a reprodução de dez conselhos literários dados a um escritor iniciante. Esse escritor chama-se Alípio. O texto faz parte de A Bolsa e a Vida, coletânea de crônicas escritas pelo Drummond entre 1953 e 1962.
Bom, estava relendo as instruções do mestre, então me deu vontade de fazer uma brincadeira com elas. Fi-las, como dizia o Jânio Quadros, e enviei pro Papo de Homem. Sabia que seria reprovado, é evidente.
É evidente que fui. A brincadeira não foi publicada.
Agora estou postando o bicho pra vocês.
Serei reprovado de novo?
Um abraço e boa leitura,
Tião


PASSANDO A LIMPO OS CONSELHOS DO DRUMMOND

          De quando em quando me vejo remetendo umas dedadinhas (sou dedógrafo) de prosa pra vocês, mas as severas orientações do PdH me fazem recolher o dedo. O médio, normalmente. Temo algum editor, o JP, por exemplo, tachar de merda o meu texto: “Excesso de toxinas, tipo cacófatos, e carência de tônicos, a exemplo de metáforas, dão à prosa desse rapaz uma fetidez muito forte”. Não me disponho a imaginar alguém dizendo semelhante verdade, ainda que dita pelos phd em boa prosa.
Matutava assim enquanto passeava por aqui, quando me deparei com o Drummond. Fiquei tão pensativo quanto o danado, então, então... Então aconteceu. De carne e osso, mas mais osso do que carne, o Drummond gesticulou pra mim, certamente me confundindo com o Alípio.
- Há quanto tempo, meu ex-jovem! Só mesmo você para fazer me levantar. Estou sentadinho aqui há três anos. Três anos ouvindo o papo desses meninos e aprendendo com eles. Um papo maneiro, cara. Uma delícia o tempero linguístico deles. A cada expressão porreta eu me lembro que fui pedrado pelos puristas por proclamar tinha - no lugar de havia – para um poema de pedras que publiquei. Aqueles críticos, meu ex-jovem, não sabiam o que era aliteração e desconheciam o sabor das palavras.
Mas me diz, meu rapaz. O que faz aqui? Está sondando o ambiente? Desculpe a tagarelice, mas... Enfim, está seguindo a tolice de escrever? Espere. O Michel largou-me nos pés um papelzinho com dez daquelas instruções que lhe há anos lhe dei. Então faremos o seguinte. Vou lê-las uma a uma e uma a uma você me diz o que aproveitou delas. Só tem uma coisa, meu filho. E se o chamo de filho, perdoe: é balda de gente madura. Poderia chamar-lhe irmão, de tal maneira somos semelhantes, sem embargo do tempo e do pormenor físico: cultivamos ambos o real ilusório, que é um bem e um mal para a alma.
Mas, com eu dizia, só tem uma coisa, meu filho. Espero três negocinhos de seu uma a uma de aproveitamento: sinceridade, sinceridade, sinceridade.
O Drummond transpirava satisfação em reencontrar o Alípio. Não quis desapontá-lo:
- Tá legal, seu Drummond. Estou seguindo a carreira de escritor, sim. Bom, é um enorme prazer reencontrá-lo e bater papo com o senhor.
- Então vamos lá, meu ex-jovem. Diga-me o que aproveitou da instrução um.

1. Não acredite em originalidade, é claro. Mas não vá acreditar tampouco na banalidade, que é a originalidade de todo mundo.

Não levei isso ao pé da letra. Às vezes levo,